A consciência totalitária

Leonildo Correa - Instituto OCW Br@sil -- 13/02/2008

(Texto em reflexão, redação e construção)

1. Introdução

Infâmia !!! É uma infâmia falar em "consciência" totalitária, pois não é uma consciência como a humana. É uma construção artificial, um processador fanático. Contudo, vou utilizar o termo para lembrar que coisas sagradas podem ser corrompidas e transformadas em instrumentos do mal. Inclusive, a consciência humana pode ser cooptada pelo lado sombrio da força e se transformar em um instrumento de destruição de seres humanos. A consciência totalitária é uma consciência artificial, superficial, fanática e psicopata. É a consciência do grande Leviatã totalitário. Uma consciência que busca o domínio total dos homens, das coisas e do mundo.

Neste texto trataremos da consciência totalitária, do seu início, desenvolvimento e disseminação, incluindo a sua relação com o vazio de pensamento e com a banalidade do mal. Além disso, analisaremos as diferenças entre a consciência natural do indivíduo e a consciência artificial de um sistema, assim como as diferenças entre a liberdade de uma pessoa e a liberdade atribuída, por um sistema, para uma pessoa. Portanto, este texto revelará o funcionamento do cérebro do grande Leviatã totalitário, a fonte de seu poder, a sua capacidade de dominar seres humanos e as suas fraquezas.

A consciência natural do indivíduo, conforme dissemos no texto "Teoria da Consciência e Liberdade", é um sistema analítico que avalia informações e conhecimentos e emite, após esta análise, uma sentença, uma decisão. A consciência pode ser comparada a um juízo ou uma vara judicial. O juízo ou vara judicial através do processo judicial analisa provas, fatos, etc. A consciência, através de processos mentais, analisa informações e conhecimentos. Os processos mentais são conhecidos por pensamentos. Quando pensamos estamos analisando informações e conhecimentos.

Portanto, a consciência natural, através de processos mentais (pensamentos), analisa informações e conhecimentos emitindo, como resultado desta análise, uma sentença que poderá formar uma nova informação ou um novo conhecimento, ou então, a decisão é uma ordem que deve ser executada. Esta ordem da consciência é a vontade. E esta ordem, decisão interna (uma sentença), própria do indivíduo, é gerada por conhecimentos e informações que o indivíduo recebeu ao longo do tempo e de sua vida, assim como dos valores que aprendeu, dos costumes de onde vive, etc. São informações e conhecimentos construídos coletivamente pela humanidade ao longo de sua história.

A partir deste ponto, na "Teoria da Consciência e Liberdade" defini a Liberdade como poder do indivíduo de agir de acordo com a sua própria consciência, ou seja, agir de acordo com a ordem emanada da consciência. Agir/expressar/manifestar a própria a consciência. A liberdade, portanto, é sempre uma ação em potencial, uma ação que pode ser concretizada ou não. Em ambos os casos estamos diante da liberdade do indivíduo.

Para ter liberdade é preciso ter consciência, pois é a consciência que cria a liberdade, quando emite uma ordem que deve ser cumprida. Inclusive é a própria consciência que criou a idéia de liberdade e é a minha consciência que criou esta definição que estou expressando aqui agora. A consciência constrói uma ordem, logo constrói a liberdade. É uma construção racional, uma construção do intelecto humano. A liberdade, portanto, é o poder de manifestar a consciência.

Além disso, a liberdade é uma característica humana exclusiva, pois a consciência, entendida como sistema analítico de informações e conhecimentos, é exclusividade humana. Contudo, se criarmos uma máquina com consciência e com poder de manifestar as decisões desta consciência, esta máquina também terá liberdade. Certamente, será uma máquina parecida com os seres humanos, mas não igual aos seres humanos. É o caso, por exemplo, do sistema totalitário. Um sistema que é um grande Leviatã. Um sistema que possui uma consciência artificial, uma consciência superficial, uma consciência totalitária. Porém, uma consciência. E se é uma consciência, ela emite ordens, não necessariamente através de processos analíticos. E a execução destas ordens gera a liberdade deste sistema. No caso, a liberdade totalitária.

Portanto, a consciência totalitária não é uma consciência como as demais. Não é igual a consciência dos seres humanos. É a consciência de um sistema. Um sistema construído por pessoas e com um propósito específico: dominar todos os níveis da sociedade, tornando os seres humanos meras peças da máquina totalitária. Por isso, esta consciência tem características anômalas e um funcionamento atípico, conforme veremos ao longo deste texto.

Inclusive denomino-a consciência porque ela substitui a consciência natural dos homens depois da ação do totalitarismo sobre eles, porém ela é uma consciência artificial, uma consciência superficial, sendo mais parecida com um processador de um computador do que com um cérebro humano, ou seja, é uma consciência que, predominantemente, reproduz e aplica sentenças prontas. Sentenças advindas de outro lugar, produzida por outra pessoa, etc.

Isto significa que a consciência totalitária, ao invés de informações e conhecimentos, é dominada por dogmas, falsas verdades absolutas e mentiras. Mas não é só isto, estes dogmas, falsas verdades absolutas e mentiras solidificam-se em uma crença de dominação e conversão pela espada. E, a partir disso, todas as instâncias da sociedade começam a ser tomadas e dominadas por esta crença. Inegavelmente, é uma crença extremamente fanática. Uma crença que, nas manifestações totalitária que conhecemos,  não tinha um aspecto religioso. Porém, não devemos nos enganar, o fanatismo é a primeira instância de um sistema totalitário. E o fanatismo religioso, que não reconhece e nem respeita as diferenças e nem a vida, certamente, caminha neste sentido.

A consciência totalitária é uma consciência fanática. Por trás do fanatismo está a crença, os dogmas, as falsas verdades absolutas e as mentiras do sistema. O fanatismo impermeabiliza a consciência, criando uma redoma impenetrável ao redor da crença e dos dogmas. Logo, argumentar com um fanático é extremamente difícil e inútil. Ele não respeita e não reconhece diferenças, não negocia e não se dobra. Um fanático agindo não reconhece barreiras e nem limites, pois sua consciência não se fixa em mais nada a não ser no objetivo fanático, a não ser em realizar aquilo para o qual foi programado. A programação está cristalizada na consciência.

Contudo, isto é importante, as mesmas características encontradas na consciência totalitária também existem na consciência comum dos indivíduos, porém, nestas últimas, as características são minimizadas e confrontadas com questionamentos e testes. Questionamentos que, através dos processos mentais (pensamentos), paralisam e estancam o fanatismo, minimizando-o, reduzindo-o. Não deixando as idéias fanáticas se sobreporem às demais instituições, informações e conhecimentos. Na consciência totalitária estes freios e contrapesos não existem, pois a atividade de pensar é paralisada e congelada, completamente, pelo fanatismo.

A consciência totalitária, portanto, é dominada por dogmas, falsas verdades absolutas e mentiras. Logo, é extremamente fanática. É o cérebro do grande Leviatã totalitário. Portanto, é apenas uma parte do monstro. Um monstro que é construído aos pouco dentro da sociedade. Um monstro que vai se apoderando das instituições e, por último, se apodera de todos os indivíduos. Apodera-se das consciências individuais, dissolvendo-as, e colocando, em seu lugar, a consciência do monstro totalitário.

Por isso, é válido assinalar, o monstro totalitário se instala em ambientes sociais nos quais existam pré-disposição a aceitá-lo (caso do nazismo), ou então, em ambientes onde as pessoas já não possuem meios para resistir à instalação deste monstro (Stalinismo). De uma forma ou de outra, em ambos os casos, o vazio de pensamento se faz presente, seja antes da instalação do monstro, seja após a sua ação sobre as consciências dos indivíduos. E se há vazio de pensamento, o mal se espalha rapidamente, contaminando todos os níveis da sociedade, construindo agentes/pessoas totalitárias, gerando, ou intensificando, a banalidade do mal.

2. A consciência totalitária e os dogmas do totalitarismo

O resultado do totalitarismo já conhecemos. Vimos os campos de concentração, o extermínio em massa, as coletivizações, o domínio total da sociedade, etc. Mas e o início ? Como tudo começa ? Como a consciência totalitária é criada ? Como ela se instala ? Como domina os homens e se dissemina na sociedade ? Trataremos destas questões agora.

Para compreender a ascensão e o domínio totalitário, da perspectiva da "Teoria da Consciência e Liberdade" precisamos diagnosticar as transformações das consciências política, social, coletiva e individual, dos indivíduos que compõem a sociedade, antes da instalação do totalitarismo, antes da instalação/disseminação da consciência totalitária. Antes da instalação do domínio totalitário há um ambiente característico, porém, este ambiente afetava diversas nações, existia em várias nações. Mesmo assim, foram poucas aquelas que viveram o fenômeno totalitário. A questão que surge é: por quê ?

A resposta começa nesta frase: o totalitarismo não cria dogmas. São os dogmas que criam o totalitarismo. E os dogmas refletem o pensamento, como um espelho reflete  luz. Se os dogmas forem bons, não há nenhum problema. Porém, se forem dogmas do mal, por exemplo aberrações sociais ou distorção da realidade, caminha-se para a destruição.

Tudo principia, totalitarismo, com um indivíduo que tem uma fé inquebrantável em certos dogmas e uma sede imensa de poder. Quer o poder para implantar os seus dogmas, quer o poder para implantar uma nova ordem no planeta. Não haveria nenhum mal nisto, pois a sede imensa de poder é característica dos tiranos e ditadores de todas as épocas, esta sede levantou e destruiu impérios e civilizações, porém o mal se esconde nos dogmas que, geralmente, constituem aberrações sociais, distorções da realidade, falsas verdades absolutas e mentiras.

A evidência disso está no fato de todos os movimentos totalitários possuírem um conjunto de dogmas que justificam e respaldam suas ações. Dogmas estabelecidos antes do movimento chegar ao poder. Dogmas que reúne e movimenta os agentes totalitários. Contudo, estes dogmas, em sua maioria, estão presentes na sociedade. Fazem parte da convivência das pessoas e da história. Porém, não são levados a sérios pela maior parte da população. São deixados de lado e, na maioria dos casos, ignorados. O anti-semitismo, por exemplo, era um dogma da sociedade alemã. Todos conheciam as histórias, inclusive os Judeus. Ninguém via grande perigo na questão anti-semita. Por isso, não levavam a sério a questão. Contudo, no momento em que o anti-semitismo passou a fazer parte de um sistema de dominação, passou a ser fundamento desse sistema, ganhou a força do Estado e se tornou política pública. Por isso, explodiu dentro da sociedade.

O Dicionário de Política do Bobbio, no verbete "Nacional-Socialismo" diz:

Com relação à importância do radicalismo anti-semita, é correto afirmar que os precursores anti-semitas do Nacional-socialismo não tinham qualquer possibilidade de sucesso político antes da grande guerra. Não passavam de grupos insignificantes, divididos entre si no que se referia aos objetivos e também com relação à função dos judeus; não tinham influência alguma no processo legislativo nem, tampouco, tinham condições para propor leis anti-semitas ou controlar o processo de emancipação e assimilação dos judeus, apesar da magnitude de suas manifestações entre 1873 e o início do século XX.

Além disso, os grupos conservadores no poder, embora utilizassem de vez em quando o anti-semitismo a seu favor, preparando desta forma o caminho para sua afirmação e seu desenvolvimento, nunca a ele proporcionaram espaços consideráveis, politicamente. Antes da ascensão de Hitler, as manifestações de violência anti-semita na Alemanha eram raras, diversamente do que ocorria na Europa oriental.

Naturalmente, o anti-semitismo estava sempre presente, aguardando novas oportunidades, principalmente em períodos de crise política e econômica. Conheceu momentos de grande intensidade nos períodos de 1873 a 1895, 1918 a 1923 e 1930 a 1933, porém sua influência na vida política e a terrível concretização de seus bárbaros objetivos somente se tornaram possíveis, quando conseguiu se incorporar a um grande movimento antidemocrático de massa.

Portanto, antes de ser uma grande força política, antes de tomar o domínio político, a força do Estado e dominar a sociedade em todos os níveis de vida, o totalitarismo  é um mero conjunto  de dogmas (valores, normas e regras) cultuados por um indivíduo ou por um pequeno grupo. Logo, estão localizados na consciência coletiva desses indivíduos.

Certamente, a primeira objeção que os leitores de Hannah Arendt irão apresentar é o fato desta autora dizer, na obra "Origens do Totalitarismo" que:

A lealdade total só é possível quando a fidelidade é esvaziada de todo o seu conteúdo concreto, que poderia dar azo a mudanças de opinião. Os movimentos totalitários, cada um a seu modo, fizeram o possível para se livrarem de programas que especificassem um conteúdo concreto, herdados de estágios anteriores e não totalitários da sua evolução. Por mais radical que seja, todo o objetivo político que não inclua o domínio mundial, todo o programa político definido que trate de assuntos específicos ao invés de se referir a "questões ideológicas que serão importantes durante séculos" é um entrave para o totalitarismo.

A grande realização de Hitler ao organizar o movimento nazi - que ele gradualmente construiu a partir de um pequeno partido tipicamente nacionalista formado por gente obscura e meio louca - é que ele libertou o movimento do antigo programa do partido, não por o mudar ou abolir oficialmente, mas simplesmente por se recusar a mencioná-lo ou a discutir os seus pontos.

Neste particular, como em outros, a tarefa de Stálin foi muito mais difícil: o programa socialista do partido bolchevista era uma carga muito mais incômoda do que os 25 pontos do programa do partido nazi redigido por um economista amador e político maluco. Mas Stálin, após haver abolido as facções do partido, conseguiu finalmente o mesmo resultado, através dos constantes zique-zaques da linha partidária comunista e da constante reinterpretação e aplicação do marxismo, o que esvaziava a doutrina de todo o seu conteúdo, já que não era possível prever o rumo ou ação que ela ditaria. O fato de o mais perfeito conhecimento do marxismo e do leninismo já não servir de guia para a conduta política - e de, pelo contrário, só ser possível servir a linha do partido se se repetisse cada manhã o que Stálin havia dito na véspera - resultou naturalmente, no mesmo estado de espírito, na mesma obediência concentrada, imune a qualquer tentativa de se compreender o que se estava a fazer, expressa pelo engenhoso lema de Himmler para os homens da SS: "A minha honra é a minha lealdade".

A falta de um programa partidário, ou o fato de se ignorá-lo, não é, por si só, necessariamente um sinal de totalitarismo. O primeiro a considerar programas e plataformas como desnecessários pedaços de papel e embaraçosas promessas, não condizentes com o estilo e o ímpeto de um movimento, foi Mussolini com a sua filosofia fascista de ativismo e inspiração no próprio momento histórico. (p. 414-415)

Inegavelmente, Hannah Arendt está correta. O erro da objeção está no fato dela considerar o dogma, que eu cito como antecedente e combustível que movimenta os agentes totalitários, como programa de partido. A própria Arendt fala, na citação que "todo o objetivo político que não inclua o domínio mundial, todo o programa político definido que trate de assuntos específicos ao invés de se referir a "questões ideológicas que serão importantes durante séculos" é um entrave para o totalitarismo". Logo, o totalitarismo vive com um objetivo político que inclua o domínio mundial e com um programa político que trate de questões ideológicas que serão importantes durante séculos. E o que é isto senão dogmas cristalizados na consciência do indivíduo, dogmas que tornam a sua consciência fanática e movimentam-no a querer disseminá-los por todo o mundo e cristalizá-los na cabeça de cada pessoa do planeta. É a visão dogmática que quer dominar o mundo, valendo em todas as partes e durante séculos.

Inclusive, diferenciando-me de Hannah Arendt, prefiro não usar nem o termo "ideologia". Não estamos diante de questões ideológicas, mas sim diante de fanatismo. E fanatismo não é uma questão ideológica, é uma questão dogmática. Qual é a diferença ? As questões ideológicas podem ser discutidas com base em informações e conhecimentos, as questões ideológicas enraízam com pensamentos, convivem com diferenças, etc. As questões dogmática não possuem esta abertura. Não devem ser discutidas ou questionadas, pois os dogmas são verdades absolutas que nãos e sujeitam a reflexão de nenhuma espécie. Nas questões dogmática o pensamento não se enraíza, não vai além daquilo que o dogma diz, ou seja, os dogmas constroem um piso de concreto na consciência, um piso superficial que não deixa os pensamentos buscarem a raiz. Por isso, no totalitarismo, a honra tem que ser a lealdade. A lealdade aos dogmas inexplicáveis. É mais uma questão de fé, ou de fanatismo, do que de razão e reflexão. A consciência totalitária é uma consciência individual que foi formatada, apagada, e no qual um novo sistema operacional, os dogmas, foram instalados. Todos os processos mentais (pensamentos) executados nesta consciência são rodados e filtrados pelos dogmas.

Ainda na obra "Origens do Totalitarismo" de Hannah Arendt lemos que:

O totalitarismo jamais se contenta em governar por meios externos, ou seja, através do Estado e de uma máquina de violência; graças à sua ideologia peculiar e ao papel dessa ideologia no aparelho de coação, o totalitarismo descobriu um meio de subjugar e aterrorizar os seres humanos internamente.

Neste sentido, elimina a distância entre governantes e governados e estabelece uma situação na qual o poder e o desejo do poder, tal como os entendemos, não representam papel algum ou, na melhor das hipóteses, têm um papel secundário. Essencialmente, o líder totalitário é nada mais nada menos que o funcionário das massas que dirige; não é um indivíduo sedento de poder impondo aos seus governados uma vontade tirânica e arbitrária. Como simples funcionário, pode ser substituído a qualquer momento e depende tanto do "desejo" das massas que ele incorpora, como as massas dependem dele. Sem ele, elas não teriam representação externa e não passariam de um bando amorfo; sem as massas o chefe seria uma nulidade.

Hitler, que conhecia muito bem essa interdependência, exprimiu-a certa vez num discurso perante a SA: "Tudo o que vocês são são-no através de mim; tudo o que eu sou sou-o somente através de vocês." Infelizmente a nossa tendência é para dar pouca importância a declarações deste tipo ou para as interpretar erradamente.

Na tradição política do Ocidente, a ação é definida em termos de dar e executar ordens. Mas esta idéia sempre pressupôs alguém que comanda, que pensa e deseja e, em seguida, impõe o seu pensamento e o seu desejo sobre um grupo destituído de pensamento e de vontade - seja por meio da persuasão, da autoridade ou da violência. Hitler, porém, era da opinião de que até mesmo "o pensamento ... (só existe) em virtude da formulação ou execução de uma ordem", eliminando assim, mesmo teoricamente, de um lado a diferença entre pensar e agir e, do outro, a diferença entre governantes e governados.

Nem o nacional-socialismo nem o bolchevismo proclamaram alguma vez uma nova forma de governo ou afirmaram que o seu objetivo seria alcançado com a tomada do poder e o controle da máquina estatal. A idéia de domínio - dominação permanente de todos os indivíduos em toda e qualquer esfera da vida - é algo que nenhum Estado ou mecanismo de violência jamais pode conseguir, mas que é realizável por um movimento totalitário constantemente acionado.

A tomada do poder através dos instrumentos de violência nunca é um fim em si, mas apenas um meio para um fim, e a tomada do poder em qualquer país é apenas uma etapa transitória e nunca o fim do movimento. O fim prático do movimento é amoldar à sua estrutura o maior número possível de pessoas, acioná-las e mantê-las em ação; um objetivo político que constitua a finalidade do movimento totalitário simplesmente não existe. (p.416-17).

Esta citação também evidencia a presença, não de ideologia puramente, mas de algo mais duro e inquestionável no cerne do movimento totalitário. São dogmas que subjugam e aterrorizam os seres humanos internamente. Subjugam e aterrorizam porque as consciências individuais percebem que em ambiente dogmático não se desenvolvem, mas se atrofiam. O pensamento (processos mentais) não fluem livremente, mas são controlados e doutrinados. São filtrados e adaptados à consciência totalitária. A liberdade humana, entendida como "poder do indivíduo de expressar a própria consciência" de "agir de acordo com a própria consciência" fenece completamente. Não há liberdade no totalitarismo, mas sim escravidão. Escravidão da consciência individual, dos seres humanos. As pessoas passam a ser instrumentos de um sistema, passam a ser partes de um instrumento de destruição.

Certamente, a distância entre governante e governado é completamente abolida. A consciência totalitária está em todas as cabeças e as ações são fiscalizadas e vigiadas de perto, seja pelo Estado totalitário (Polícia Secreta), seja pelos vizinhos, amigos e parentes. Os dogmas precisam ser aceitos e aplicados integralmente. Não há meio-termo na aceitação e na aplicação. E os mesmos dogmas que estão na cabeça dos líderes totalitário, são inseridos na cabeça vazia da massa de indivíduos. A consciência totalitária é a mesma. O que diferencia é que uns, os líderes, aplicam e fiscalizam a aplicação, enquanto a massa sobre o efeito, passivamente, daquilo que é aplicado. Porém, a aplicação é feita tanto nos líderes quanto na massa. E, após aplicação, eles são os mesmos, uma só consciência em corpos diferentes

Outro aspecto que se observa na citação e da ligação entre a massa e os líderes do totalitarismo, é que a consciência totalitária é a consciência do grande Leviatã totalitário. O grande leviatã é um sistema que tem diversas partes e diversos aspectos. Estas partes separadas não são o totalitarismo. O totalitarismo é o conjunto, é a ação em conjunto de todas as partes. O totalitarismo é um sistema. Por isso,  o "líder totalitário é nada mais nada menos que o funcionário das massas que dirige; não é um indivíduo sedento de poder impondo aos seus governados uma vontade tirânica e arbitrária." Eles são um conjunto, formam um conjunto, formam o monstro totalitário. Este é o significado das palavras de Hitler: "Tudo o que vocês são são-no através de mim; tudo o que eu sou sou-o somente através de vocês."

É pertinente relembrar aqui, mesmo que rapidamente, que sistema é um conjunto de elementos que interagem entre si, formando um todo (um corpo) independente, ou seja, o todo formado é diferente das partes. Além disso, este todo tem um determinado objetivo e desempenha uma determinada função. No caso do totalitarismo o objetivo é o domínio total dos homens, das coisas e do mundo. E a função é "modificar o modo de vida de cada indivíduo segundo os seus valores fundamentais, postos em prática cada dia." Em outras palavras,  "é amoldar à sua estrutura o maior número possível de pessoas, acioná-las e mantê-las em ação". Moldar as pessoas com questões ideológicas que serão importantes durante séculos. Resumindo, formatar as consciências individuais, substituindo-as pela consciência do sistema totalitário.

Portanto, sistema é um conjunto de elementos que se reúne para formar um todo, sendo estes elementos interdependentes, capazes de interagir entre si e o todo formado, realizam objetivos comuns de interesses das partes. Objetivos que não podem ser alcançados isoladamente pelos elementos, mas que em conjunto conseguem implementar e realizar. Assim, o resultado obtido pelo sistema é maior do que o resultado que as unidades poderiam obter se funcionassem independentemente.

Transportando estas idéias para o tema em questão observa-se que o totalitarismo não é apenas um regime político ou de governo, mas um sistema que modifica e uniformiza todas as instâncias coletivas, sociais, políticas e econômicas, de acordo com a orientação dos controladores do sistema. Contudo, os próprios controladores não estão acima ou fora do sistema, eles também são peças da máquina que criaram. Por exemplo, Hitler sozinho não é o sistema totalitário. Mas ele e os demais oficiais nazistas, reunidos, formam uma parte do sistema. Cada um com a sua especialidade, sua inteligência e seus métodos. Ilustrativamente, um é a cabeça (Hitler), o outro é o pescoço, outro o braço, um quarto a barriga, outro a perna, outro a mão, etc...

Hitler é o representante máximo do sistema totalitário falando para pessoas comuns. Mas não é só isto, ele é a voz e a inteligência do sistema. O que ele expressa e pede não está ligado à sua vontade pessoal, mas sim à vontade do sistema. É um pedido do sistema. Talvez o mais correto fosse considerar que o sistema usa a voz e a boca de Hitler para falar ao povo. Por isso Hitler diz: "Tudo o que vocês são são-no através de mim; tudo o que eu sou sou-o somente através de vocês". Já os jovens e o povo alemão, a massa, principalmente aqueles que ingressavam nas fileiras militares, integravam as engrenagens do sistema. Tinham um papel relevante entre as massas e não enxergavam além do papel que desempenhavam. Ilustrativamente, exerciam a atividade de abrir covas, mas não tinham as informações sobre a serventia daquilo, ou se tinham as informações, concordavam com o fato. Aceitavam, sem questionar, a idéia de que abrir covas era uma atividade essencial para o sistema, ou seja, para o III Reich.

O sistema totalitário fragmenta suas ações e seus objetivos em mil pedaços, em mil árvores. Cada um tem um pedaço, cada um cuida de uma árvore. Quem tem o pedaço ou cuida da árvore não vê o todo, não vê a floresta, pois não tem e não recebe todas as informações. Simplesmente tem o pedaço e cuida da árvore, nada mais do que isto. Inegavelmente, isto era um sintoma do vazio de pensamento e da presença de uma consciência artificial e superficial no indivíduo.

Além disso, os dogmas e as aberrações sociais sempre existiram na sociedade. Sempre existiram e existirão indivíduos que cultuam e acreditam nestes dogmas e nestas aberrações sociais. Porém, a sociedade sempre soube controlá-lo e, raramente, tais dogmas, principalmente as aberrações sociais, conseguiram dominar a maioria de uma nação. Inclusive, existem travas sociais que impedem o domínio de dogmas, por exemplo, é o caso do Estado laico, etc. Resumindo, o domínio totalitário começa quando os dogmas assumem o poder e a força do Estado e começam a se disseminar, de cima para baixo, em toda a sociedade, visando, como objetivo final, dominar todo o mundo.

Voltando à questão dos dogmas e à fase pré-totalitarismo observamos que a reunião e a solidificação de dogmas fomentam a aglutinação de pessoas e a formação de grupos maiores, institucionalizando uma crença fanática. Esta crença fanática, localizada até então na consciência coletiva, encontrando um ambiente social e econômico propício, ganha força e se dissemina para as demais consciências, tomando de assalto, numa ação em conjunto dos fanáticos,  a consciência política, logo, os poderes do Estado e do governo passam a trabalhar em função da crença estabelecida. Com estes novos poderes os dogmas, agora uma crença, ganham força e se transformam em política pública do Estado.

 O próximo passo dos fanáticos é formatar a consciência social de acordo com a crença que possuem (os dogmas viram regras e normas do direito positivo ou costume a ser aplicado e passam a valer, são impostos, para toda a sociedade, gerando uma uniformidade social, uniformidade coletiva nas crenças que possuem). Não ser anti-semita na sociedade nazista, era trair o sistema, ou então, não ser comunista na URSS, era ser um traidor. E, por último, a crença fanática busca assimilar cada pessoa individualmente, assimilar  cada consciência individual, atingindo todas as pessoas da sociedade.

Enquanto os dogmas totalitários estão na consciência coletiva de alguns indivíduos ou grupos, eles podem ser ignorados, não causam grandes estragos na sociedade. Quando eles entram na consciência política, o perigo cresce enormemente, pois, a partir de agora, o poder do Estado está a serviço daqueles dogmas. E o perigo cresce, exponencialmente, se os dogmas constituem aberrações sociais, pois serão aplicados como política pública. Contudo, na consciência social, mesmo sendo lei, eles ainda podem ser ignorados, descumpridos, violados, etc. Exemplo: a lei me obriga a acreditar, mas eu não acredito. Apenas finjo que acredito.

Porém, a partir do momento que a ação dos fanáticos é direcionada para a consciência individual, o mal começa a assumir o controle dos indivíduos e de suas vidas. Exemplo: se você acredita, então terá que dar provas de sua fé. No caso do anti-semitismo, executando as sentenças de mortes, vigiando o campo de concentração, delatando amigos e parentes, etc. Este é um sintoma da consciência totalitária substituindo a consciência individual. Isto é potencializado pela propaganda, pelo terror, pelo medo, pela mentira, etc. O domínio total começa a se disseminar.

Um exemplo disso é dado por Hannah Arendt na obra "Origens do Totalitarismo". Diz ela:

Mas o que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo dos seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazi ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra os inimigos do movimento, mas o facto espantoso é que ele não vacila quando o monstro começa a devorar os próprios filhos, e nem mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão, quando é incriminado e condenado, quando é expulso do partido e enviado para um campo de concentração ou de trabalhos forçados. Pelo contrário: para assombro de todo o mundo civilizado, estará até disposto a colaborar com a própria condenação e tramar a própria sentença de morte, contanto que o seu "status" como membro do movimento permaneça intacto.

Seria ingênuo pensar que essa obstinada convicção, que sobrevive a todas as experiências reais e anula todo o interesse pessoal, seja mera expressão de idealismo ardente. O idealismo, tolo ou heróico, nasce da decisão e da convicção individuais, mas forja-se na experiência. O fanatismo dos movimentos totalitários, ao contrário das demais formas de idealismo, desaparece no momento em que o movimento deixa em apuros os seus seguidores fanáticos, matando neles qualquer resto de convicção que possa ter sobrevivido ao colapso do próprio movimento.

Mas, dentro da estrutura organizacional do movimento, enquanto ele permanece inteiro, os membros fanatizados são inatingíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parece ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte. (p. 394-395)

Portanto, o primeiro passo na construção da consciência totalitária é a fixação dos principais dogmas que constituem os alicerces do totalitarismo. Dogmas (sentenças prontas ou respostas prontas) que serão transformados  em verdades absolutas, ou então, já são tidos como verdades absolutas, porém ainda não se encontram disseminados pela sociedade. Portanto, antes da instalação da consciência totalitária existe um conjunto de dogmas que baliza as ações e movimenta o espírito dos construtores do sistema, ou seja, existem idéias inquestionáveis dominando a cabeça das lideranças totalitárias: anti-semitismo, raça ariana, espaço vital, comunismo, coletivização, etc. Assim, todas as informações e conhecimentos, na cabeça dessas pessoas, devem ser justificadas ou moldadas por estes dogmas.

Por isso a consciência totalitária é artificial (dogmas, valores, normas e regras estabelecidos por um indivíduo ou por um grupo de indivíduos) e superficial (não são passíveis de questionamento).  Estes dogmas, cristalizados na consciência totalitária, é que movimentarão o monstro, dando-lhe personalidade e ditando suas ações. A consciência totalitária fundamenta-se nestas sentenças prontas. É, inegavelmente, uma consciência fanática.

Inclusive, já tivemos períodos da história em que a consciência totalitária, porém não o sistema totalitário, foi parcialmente estabelecida por uma religião. Estou pensando no período da inquisição, no fanatismo que o acompanhava e na forma como agia. Porém, a consciência totalitária, neste período, se restringiu aos religiosos fervorosos e não teve força suficiente para assimilar as consciências individuais, pois encontrou uma série de barreiras, principalmente territoriais, para impor o poder que detinham. Se, naquele momento da história, a inquisição tivesse obtido força suficiente para disseminar a consciência totalitária, teria dominado e controlado todas as pessoas, teria exterminado na fogueira todos os hereges. A meta, certamente, não era obter uma raça pura e usar esta raça para dominar o mundo, mas sim um povo crente, obediente e dócil a uma única religião. A religião que governaria todo o planeta, o domínio total de todas as pessoas, de suas vidas e de suas crenças.

Inclusive Alcir Lenharo, na obra "Nazismo: o triunfo da vontade" (1998. p. 39-46), faz considerações pertinentes para este ponto. Diz ele:

A chave da organização dos grandes espetáculos era converter a própria multidão em peça essencial dessa mesma organização. Nas paradas e desfiles pelas ruas ou nas manifestações de massa, estáticas, em praças públicas, a multidão se emocionava de maneira contagiante, participando ativamente da produção de uma energia que carregava consigo após os espetáculos, redistribuindo-a no dia-a-dia, para escapar à monotonia de sua existência e prolongar a dramatização da vida cotidiana. (...)

Hitler atribuía grande importância psicológica a tais eventos, pois reforçavam o ânimo do militante nazista, que perdia o medo de estar só diante da força da imagem de uma comunidade maior, que lhe transmitia gratificantes sensações de encorajamento e reconforto. O uso de uniforme, comum entre os militantes nazistas, servia à dissimulação das diferenças sociais e projetava a imagem de uma comunidade coesa e solidária. O impacto da política na rua em forma de espetáculo visava diminuir os que se encontravam fora do espetáculo, segregá-los, fazê-los sentirem-se fora da comunidade maravilhosa a que deveriam pertencer.  (...)

Dentre os grandes templos construídos pelo nazismo para a política em forma de espetáculo, o maior de todos concebido para abrigar cem mil pessoas, é Zeppelinfeld, em Nuremberg, construído por Speer, em 1935. Uma imensa tribuna com colunatas cingia o horizonte. (...)

As músicas cantadas pela multidão e a presença constante das fanfarras ampliavam consideravelmente o entusiasmo de todos. Ao cantar Deutschland über alles e Horst Wessel Lied, os hinos oficiais do nazismo, a multidão era tomada pelo sentimento de formar um todo único, um bloco coeso e inquebrantável. (...)

O modo como a multidão se comportava durante esse tipo de espetáculo, e a maneira ritualística com que ele era organizado, acentuavam o caráter de culto religioso desses acontecimentos, a ponto de levar um observador francês a denominar o congresso anual de Nuremberg como o "concílio anual da religião hitlerista". Ali eram definidos os dogmas, e eram lançadas as encíclicas. O militante nazista é visto como um crente, um apóstolo e um fanático. No ano de 1937 - diz a mesma fonte -, circulava uma estampa representando o Führer de pé diante de uma mesa, tendo a seu lado, sentados, seus extasiados companheiros. E como legenda, as palavras: "No princípio era o Verbo" (Richard, Lione. Le nazisme & la culture. Paris, Maspero. 1978, p. 157).

Se o massacre das lideranças das SA lembra o ritual de um batismo de sangue, os autos-de-fé, ou as cerimônias públicas de queima de livros, lembram também uma mistura de caça às bruxas com o ritual do exorcismo católico, em que a queima de diferentes obras incluídas num novo Index Librorum simbolizava a purificação do espírito nacional. Numa atmosfera de fanatismo e histeria, Goebbels e os estudantes pediam em altos brados que as chamas devorassem, entre outros escritores, Marx e Trotsky, em favor da 'comunidade do povo', pela 'filosofia idealista' e contra 'a luta de classes e o materialismo'; que devorassem Freud, em favor da 'nobreza da alma humana' e contra o 'exagero destrutivo da via instintiva'; Tucholsky e Ossietzky, em favor do 'respeito e da veneração do imortal espírito popular alemão', e contra a 'insolência e a pretensão' (Idem, p. 212). (...)

Conservado como relíquia, o estandarte passou então a ser utilizado para batizar as bandeiras das novas unidades das SA e SS. Segundo a descrição de um observador, Hitler tomava em uma de suas mãos a bandeira-relíquia, e na outra as novas bandeiras a consagrar. Com sua intermediação circulava um fluido desconhecido e a bênçãos dos 'mártires' se estendia daquele momento em diante aos novos símbolos da pátria alemã. Para esse observador, aquilo não era pura simbologia. O ritual se referia a uma 'transfusão mística', semelhante à da benção da água e à transformação eucarística do catolicismo. "Quem não vê na consagração das bandeiras o análogo da consagração do pão, uma espécie de sacramento alemão, corre o risco de não compreender nada do hitlerismo" (Guyot, Adelin & Restellini, Patrick. L'Ar nazi. Bruxelas, Éditions Complexe, 1983.)

Na esplanada Luitpolhain, toda a organização espacial convergia para o monumento aos mortos da Primeira Guerra. Na celebração das honras fúnebres, Hitler desfilava entre milhares de homens das SA e SS, em meio a bandeiras inclinadas. No ponto alto do espetáculo, o grande sacerdote mantinha-se imóvel, silencioso, de luto, em meditação, acompanhado do silêncio impressionante da multidão. Diante dos heróis mortos, Hitler homenageava aqueles que haviam se dispostos, pelo seu gesto, a ficar ao lado da grandeza do Führer, sacrificando-se por ele e por sua missão redentora.

À reatualização da memória heróica dos mártires, o discurso hitlerista encadeia a ansiedade dos vivos, para formar a comunidade mística do Reich. Nesse transe não há mais lugar para a razão: "Fostes vós os primeiros que acreditaram em mim... não foi a inteligência que tudo analisa, que tirou a Alemanha do abismo em que se encontrava, mas a vossa fé... (Discurso de Nuremberg - 1935)".

Hitler se apresenta como o grande guia condutor da fé, o grande arquiteto da comunhão nacional: "Nós nos encontramos todos aqui e o milagre desse encontro enche nossa alma. Cada um de vocês pode me ver e eu não posso ver a cada um de vocês, mas eu os sinto e vocês me sentem. É a fé em nosso povo que, de pequenos, nos tornou grandes, de pobres, nos fez ricos, de homens angustiados, desencorajados e hesitantes que éramos, fez de nós homens corajosos e valentes, aos homens errantes que éramos, nos deu a visão e nos reuniu a todos." (Discurso de 1936).

O significado mais amplo da teatrologia política aponta a demonstração do Führer como forjador da vontade coletiva, apropriador de vontades, a quem se obedece cegamente, diz Speer, 'sem mais ter vontade própria'. "Este homem guiará o povo alemão sem preocupar-se com as influências terrestres", afirma Hess. "Sua vontade é efetivamente a vontade de Deus", dirá Darré. É o "novo Redentor", assegura Röhm.

Em tom de oração, Goebbels assim se dirige ao Führer: "Em nossa profunda desesperação temos encontrado em vós o que mostra o caminho da verdadeira fé... Tendes sido para nós a realização de um misterioso desejo. Tendes curado nossa angústia com palavras de liberação. tendes forjado nossa confiança no milagre que virá." (Guérin, Daniel. Fascismo Y gran capital. Madrid, Editorial Fundamentos, 1977 p. 103).

O culto da personalidade de Hitler assume traços de pura idolatria. Robert Ley aprecia-o como o único homem que jamais havia se enganado. O poeta Hans Frank o vê solitário como Deus Pai. A teatralização agressiva dos grandes encontros apanhava-o como ponto central do cenário feito de luz, de multidão e de ordem. Cercado da maior solidão em meio à massa, a liturgia teatral realça sua condição de Führer, posto acima de todos, inatingível. Não por acaso, comentam Guyot e Restellini, Hitler tinha por costume chegar aos locais das festividades de avião. Sobrevoava lentamente sobre a esplanada para aparecer aos olhos de seus fiéis "como um Deus descendo sobre a Terra".

Certamente, os dogmas, valores, normas e regras totalitárias podem ser modificados ou adaptados ao longo do tempo, visando facilitar a sua disseminação ou aplicação. Contudo, dentro da crença fanática há um núcleo duro, um núcleo que não é passível de mudança, e que constitui a razão de ser da ordem totalitária. E, conforme o totalitarismo avança, novos dogmas podem aparecer,  novos valores, normas e regras são aglutinados aos existentes. Porém, nenhum deles é tão forte quanto aqueles que fundamentam o sistema totalitário e que movimenta os agentes totalitários, quanto o núcleo duro.

Outra questão importante é o fato do totalitarismo, no desenvolvimento da consciência do sistema, exacerbar algo que já existe na consciência natural dos indivíduos. Temos crenças, temos dogmas, falsas verdades absolutas e, muitas vezes, a mentira faz parte de nós. Porém, em uma consciência comum estas características são postas a prova e questionadas, seja internamente, dentro da consciência pelos nossos pensamentos, seja externamente, pelas demais pessoas. Logo, nossos processos mentais (pensamentos) inibem e controlam a proliferação e a exacerbação dos dogmas e dos vícios que estão na parte superficial da consciência individual, buscando a essência das coisas, a raiz daquilo que estamos fazendo.

Os dogmas, as falsas verdades e as mentiras são exacerbados pela consciência totalitária e passam a dominar e a ditar as regras de funcionamento da consciência instalada no indivíduo. Não os dogmas, as falsas verdades e as mentiras que cada um possui e esconde em sua consciência pessoal, mas sim, as crenças de um grupo de pessoas, ou de um partido, que foram disseminadas na sociedade e implantada na cabeça de todos. Estas crenças, certamente, podem ser as mesmas dos indivíduos, havendo, portanto, uma identidade e uma identificação imediata entre ambos. Porém, isto nem sempre acontece.

De acordo com Alcir Lenharo, na obra "Nazismo: o triunfo da vontade":

É muito perturbador que o regime nazista contasse com o apoio das massas, comenta Hannah Arendt, a propósito de pesquisas de opinião pública, realizadas pelas SS, para os anos de 1939-44, e trazidas a conhecimento público em 1965. Em tais relatórios, fica patente que a população alemã estava notavelmente bem informada sobre o que se passava com os judeus e a política de guerra, e dava seu aval às iniciativas do regime.

O escritor protestante Ernest Wiechart descreve com clareza a participação popular contra os prisioneiros que eram levados para Buchenwald. O trem parava em todas as estações e as pessoas se acossavam para insultar os deportados e cuspir neles - se estavam sendo transportados para um campo de concentração, eram merecedores de tal castigo. (p.8)

Wajda, no filme Um amor de Alemanha, mostra pelos olhos de uma pequena cidade alemã, como a população se envolvia ativamente no jogo de vigilância e punição aos transgressores da ordem nazista. havia muita inveja e interesse tecendo as relações pessoais, e necessidade de reprimir o desejo sexual de mulheres afastadas de seus maridos. No entanto, isso tudo não levaria a heroína à execração pública nem o jovem polonês, seu amante, à morte, se fossem confirmados traços germânicos naquele "eslavo desqualificado"... Em outras palavras, a ideologia racial oficial era de fato acatada e subassumida, e servia de ponto norteador da conduta individual e coletiva da população.  (p.9)

(...) Participava-se da experiência nazista de maneiras diversas: por trás de aparente postura de passividade, alinham-se testemunhos de verdadeira concordância, quase sempre cinicamente formulados. Krupp, por exemplo, industrial do aço e presidente do Sindicato Patronal Alemão, quando da tomada do poder pelos nazistas, afirmou claramente que os industriais precisavam ser dirigidos por uma "mão forte e dura" e por um sistema que "funcionasse bem", para que se pudesse trabalhar tranquilamente. Quanto à questão judaica, dizia, sem receios, desconhecer que houvesse matança, mesmo porque, "a cavalo dado não se olham os dentes."

Sabia-se da experiência de horror e desumanidade, mas ela não era noticiada o bastante e, qual pecadores que no pecado secreto encontram maior prazer, os assassinos e a população civil estabeleciam um sinistro pacto de cumplicidade. Vivia-se uma experiência trágica, de extrema tensão psicológica, de limite tênue, a ameaçar permanentemente com o desabamento de uma crença mítica, cuja construção pode ser apanhada nestas palavras de Himmler, dirigidas a altos escalões das SS, em outubro de 43:

"Nós, os alemães, os únicos no mundo que temos uma atitude decente frente aos animais, adotaremos ante os animais humanos a devida atitude. Mas é um crime contra nosso preocuparmo-nos com sua sorte e inculcar-lhes ideais, para que nossos filhos e netos tenham maiores dificuldades com eles. Se alguém chega a mim e me diz: 'Com crianças e mulheres não posso construir a trincheira antitanque; é inumano, porque morrerão' , eu lhe responderei: 'És um assassino do teu próprio sangue, porque se não se constrói a trincheira, soldados alemães morrerão, filhos de mães alemãs. São nosso sangue.'" (p. 10-11)

Além de não se identificar com os dogmas ou com a crença totalitária, em alguns casos, a consciência individual pode recusar a consciência do sistema. Neste caso, o que fazer ? Como convencer as pessoas comuns, indiferentes às coisas do mundo, a aderirem ao sistema, a adotarem a consciência totalitária, a se tornarem instrumentos do totalitarismo e a agirem a favor do sistema ? Como os nazistas conseguiram dominar as pessoas, principalmente, vencer a indiferença ?

Hannah Arendt, citada por Giacoia Júnior, responde esta questão falando de Himmler:

Para ela (Hannah Arendt), a figura de Himmler exemplificaria justamente um determinado tipo de personalidade, desprovida de crenças, convicções e valores pessoais, cuja especial habilidade consiste numa extraordinária capacidade de organização de massas.

Para Hannah Arendt, Himmler "construiu conscientemente sua mais nova organização de terror, cobrindo todo país, sob a conjectura de que a maior parte das pessoas não são boêmios ou fanáticos, nem aventureiros, maníacos sexuais ou sadistas, mas antes e em primeiro lugar empregados (jobholders) e bons pais de família (...) Tornou-se claro que, por sua pensão, seu seguro de vida, a segurança de sua mulher e filhos, tal homem estava pronto a sacrificar suas crenças, sua honra e sua dignidade humana."

Ilustrativo do tipo de fanatismo pela organização e pela eficiência que caracterizava tanto Himmler como Eichmann é o fato de que este último teria declarado que não hesitaria em despachar os próprios pais, toda a família para os campos da morte, se assim o determinasse sua obrigação funcional.

Essa idéia de fusão absoluta na impessoalidade do coletivo e essa propensão a reduzir à condição de mero ser natural tanto a si mesmo quanto a todos os outros homens constituem o genuíno produto de uma educação para dureza, a frieza e a incapacidade de ligar-se aos outros por vínculos libidinosos. Trata-se do burocrata, do funcionário impessoal e incapaz de reflexão acerca dos fins últimos das funções que executam. (Oswaldo Giacoia Júnior - Ética, Técnica, Educação - p. 50)

É válido observar, nesta citação, que Himmler é o   típico indivíduo controlado, quase completamente, pelas crenças, valores e convicções do sistema. É um dos instrumentos mais eficientes do totalitarismo alemão. Além disso, não podemos esquecer dos pensadores e intelectuais:  como estas pessoas letradas reagiram à instalação da consciência totalitária ?  Poderíamos aplicar a eles o mecanismo de Himmler, ou seja, por sua pensão, seu seguro de vida, a segurança de sua mulher e filhos, eles também estariam dispostos a sacrificar crenças, honras e dignidade humana ?

Para analisar a questão, acho que devemos dividi-los em grupos. O primeiro grupo reúne os pensadores e intelectuais fanáticos que integram o sistema totalitário, ajudando a construí-lo. O segundo grupos englobam os pensadores e os intelectuais que se opõem ao sistema, porém, que não ousam enfrentá-lo, preferindo tolerar e colaborar com o mal do que combatê-lo. Deste grupo também fazem parte os conselhos judeus que toleravam e colaboravam, mesmo que indiretamente, com os nazistas. E o terceiro grupo são aqueles que se opõem ao sistema e lutam para destruí-lo. Certamente, neste último grupo estão os mártires.

No primeiro e segundo caso a consciência totalitária é instalada no indivíduo. No terceiro caso, a consciência não atinge a pessoa. Certamente, no primeiro e no segundo caso, diante de pensadores e intelectuais, a questão é muito mais complexa, do que pode explicar o termo "vazio de pensamento", aqui ocorre o que é muito comum hoje em dia: a tolerância e a colaboração com o mal. Nestas pessoas o pensamento ainda consegue vencer a redoma totalitária e se enraizar. Eles vêem o mal, porém não agem, suportam, toleram e colaboram com aquilo que devem destruir.

Na obra "Origens do Totalitarismo",  Hannah Arendt diz que:

Por outro lado, para fazer justiça àqueles da élite que uma vez por outra se deixavam seduzir pelos movimentos totalitários e que, devido à sua capacidade intelectual, são às vezes acusados de haver inspirado o totalitarismo, é preciso que se diga que nada do que esses homens desesperados do século XX fizeram ou deixaram de fazer teve qualquer influência sobre o totalitarismo, embora tivesse muito a ver com as primeiras e bem sucedidas tentativas dos movimentos de fazerem o mundo exterior levar a sério as suas doutrinas.

Sempre que os movimentos totalitários tomavam o poder, todo esse grupo de simpatizantes era descartado antes mesmo que o regime passasse a cometer os seus piores crimes. A iniciativa intelectual, espiritual e artística é tão perigosa para o totalitarismo como a iniciativa de banditismo da ralé, e ambos são mais perigosos que a simples oposição política. (p. 431)

Outro ponto importante refere-se ao ambiente no qual ocorre a instalação do domínio totalitário. Antes da ordem totalitária ser instalada, existe um ambiente social propício, um ambiente social que faz as idéias radicais, ou seja, os dogmas proliferarem e encontrarem ecos ou respostas sociais. Os dogmas já existem na sociedade, porém, como foi dito, não se desenvolvem, seja por causa de travas sociais, seja por causa de dispersão daqueles que o cultuam e alimentam. Quando estas travas são rompidas, por razões sociais ou econômicas, e os dogmas liberados ou justificados as peças começam a se juntar para formar o grande Leviatã totalitário, incluindo a consciência totalitária.

De acordo com Nerone, na obra "Hannah Arendt e o declínio da esfera pública":

O totalitarismo, ponto de partida para o pensamento de Hannah Arendt em busca do sentido da política, é por ela conceituado como um fenômeno distinto das tiranias antigas e das ditaduras, posto que almeja impor o domínio total sobre a sociedade e cuja ideologia pretende, numa segunda etapa, açambarcar toda a população mundial. Mediante a hipertrofia da política, "na qual toda a vida humana foi politizada por completo", e a destruição da esfera pública mediante o fim da liberdade, o governo totalitário objetiva controlar todas as dimensões da vida das pessoas através do terror. Para tanto, os movimentos totalitários tentaram abolir a separação entre as esferas públicas e privadas, e eliminar a própria essência da política: a liberdade.

Para Arendt, o totalitarismo, nas suas formas stalinistas e nazistas, foi conseqüência da conjugação dos seguintes fatores: por um lado, o surgimento da sociedade de massas, a dissolução de classes sociais e a atomização dos indivíduos sob a Revolução Industrial; por outro, a crise socioeconômica e do sistema partidário decorrente da Primeira Grande Guerra. (...) (p. 87)

Essas massas, desesperançadas pelo advento das altas taxas de infração e desemprego que se seguiram ao fim da Primeira Guerra, tenderam para o nacionalismo especialmente violento e foram arregimentadas e organizadas pelos movimentos totalitários, que delas exigem lealdade total e irrestrita, base psicológica do domínio total e subjugação internalizada.

O movimento totalitário aproveitou-se do ódio popular  com relação aos partidos políticos para destruir esse sistema de representação. No entender de Hannah Arendt, tais episódios comprovariam que as liberdades democráticas necessitam de alguma forma de organização institucionalizada ou de hierarquia social e política para que possam funcionar adequadamente, afirmação que se coaduna com sua concepção de que a política é fruto da ação coletiva e que exige um espaço organizado para que a liberdade possa ser exercida, a esfera pública.

A atomização dos indivíduos sob o sistema produtivo industrial, acirrado pelo individualismo politicamente apático da sociedade de consumo, esta pautada pela concorrência interpessoal, teria reduzido a conexão dos indivíduos com seus semelhantes e eliminado a solidariedade comunitária. O individualismo da ideologia liberal, para quem a mera soma dos interesses individuais constitui o milagre do bem comum, incitava uma indiferença, e até mesmo uma hostilidade com relação à participação nas atividades da esfera pública, considerada como perda de tempo e energia; sob o totalitarismo, nada foi tão fácil de destruir quanto a privacidade e a moralidade pessoal de homens que só pensavam em salvaguardar suas vidas privadas. (p.88)

O domínio totalitário teria se instaurado mediante três etapas: a destruição dos direitos civis (a morte da sua pessoa jurídica), a destruição da pessoa moral do homem (corrupção da solidariedade) e por fim a destruição da individualidade (singulariedade e espontaneidade humana). O isolamento dos indivíduos atomizados teria sido a base para o domínio totalitário, concebido exclusivamente como força, que objetivou a abolição da liberdade e até mesmo a eliminação de toda espontaneidade humana em todos os aspectos da vida.

Para Hannah Arendt, a destruição do mundo comum e o isolamento dos indivíduos no âmbito de uma esfera privada controlada são as precondições para a instalação do governo totalitário, pois anulariam a capacidade de iniciativa de novas ações políticas. (p.89)

Nesta citação percebe-se claramente que o ambiente anterior à instalação do domínio totalitário, ou seja, o ambiente propício para a instalação desse domínio, é marcado pela fragilização da consciência, de todas as consciências. A consciência política estava fragilizada e enfraquecida pelo ódio popular com relação aos partidos políticos, pelo desejo dos cidadãos de destruírem o sistema de representação e pelo individualismo politicamente apático.

A consciência coletiva que nos une aos grupos pequenos, à família, aos amigos e à comunidade, estava desgastada e corroída pela "atomização dos indivíduos sob o sistema produtivo industrial, acirrado pelo individualismo politicamente apático da sociedade de consumo, esta pautada pela concorrência interpessoal, teria reduzido a conexão dos indivíduos com seus semelhantes e eliminado a solidariedade comunitária. O individualismo da ideologia liberal, para quem a mera soma dos interesses individuais constitui o milagre do bem comum, incitava uma indiferença, e até mesmo uma hostilidade com relação à participação nas atividades da esfera pública, considerada como perda de tempo e energia."

Além disso, a consciência individual era abalada pela exacerbação do individualismo e da competição, pela atomização, pelas altas taxas de infração, desemprego, pobreza e miséria. Por que ? Porque a sobrevivência do indivíduo estava em risco, obrigando-o a buscar saídas e soluções que eliminassem este risco. Saídas e soluções apresentadas pelos movimentos radicais e violentos que afirmavam possuir a panacéia.

De acordo com Alcir Lenharo, na obra "Nazismo: o triunfo da vontade":

Karl Radek, um militante comunista espantado com os resultados eleitorais do partido nazista em 1930, chamou a atenção para o fato de que se tratava de um "partido sem história" desconhecido da literatura burguesa e da socialista, uma ilha isolada na vida política alemã. Na realidade, novo enquanto partido, o NSDAP estava agrupando muitas das propostas que nacionalistas, conservadores e até mesmo esquerdistas vinham levantando há tempos na Alemanha. O resultado final desse amálgama redundou num projeto contra-revolucionário que deu certo, até que a "máquina" ficasse louca, sem controle, no dizer de Félix Guattari.

Uma das armas dessa escalada foi reaproveitar a forma e o conteúdo das palavras de ordem e das diretrizes dos esquerdistas. A esse respeito, Hitler diria no Mein Kampf (Minha luta) que havia aprendido muito com os métodos dos comunistas e não com sua doutrina. Muitos dos 25 pontos do programa do partido nazista, de 24 de janeiro de 1920, eram consagrados a fins nacionalistas e racistas - o 3o ponto já se referia à necessidade do "espaço vital" e o 5o exigia a exclusão dos judeus da comunidade alemã. O 12o ponto falava no confisco dos lucros de guerra; o 13o, na nacionalização das indústrias monopolistas; o 14o, na participação dos trabalhadores nos lucros das grandes empresas; o 17o, na reforma agrária, o 18o, na punição dos usurários, açambarcadores e especuladores. (p.17-18)

Resumindo o que dissemos até agora, a consciência totalitária é uma consciência construída com dogmas (valores, normas e regras) que formam sentenças prontas. Sentenças inquestionáveis estabelecidas por uma pessoa ou por um grupo de pessoas. Esses dogmas, valores, normas e regras são transformados em crenças e verdades absolutas e disseminados para toda a sociedade. E, as pessoas que não aceitam estes dogmas, mesmo sendo amigas e parentes, são automaticamente eliminadas/descartadas pelo sistema. Com isto, a consciência totalitária vai sendo instalada e disseminada. Uma consciência artificial e superficial, uma consciência fanática, que encontra no vazio de pensamento o lugar adequado para se instalar e reproduzir. O vazio da consciência individual é o ambiente ideal para a consciência totalitária.

Além disso, as consciências individuais que resistem ou questionam a ordem que está se disseminando são apagadas nas prisões ou nos campos de concentração. Logo, é função da propaganda, do terror, do medo e da morte suprimirem as consciências individuais naturais, dissolverem a liberdade natural dos indivíduos, e instalarem a nova consciência, a consciência da nova ordem, a consciência totalitária. Na consciência do sistema não há questionamento, não há pensamentos próprios, não há criatividade. Há apenas os dogmas, os valores, as normas e as ordens do sistema. Há apenas pensamentos induzidos implantados pelo sistema. Pensa-se aquilo que o sistema quer que pensem.

A consciência totalitária passa a observar, filtrar, controlar e validar todas as demais informações e conhecimentos que as pessoas buscam, recebem e aplicam. Faz isto com a finalidade de impedir a reativação da consciência natural individual e a volta do pensamento próprio, a volta da liberdade natural. Por isso, a dominação e o controle são extremamente rígidos e as pessoas são completamente isoladas. A consciência do sistema totalitário funda-se em dogmas inquestionáveis. Pessoas reunidas podem questionar, discutir, pensar. Podem reativar suas consciências naturais, descartando a consciência artificial e superficial do sistema. Portanto, a propaganda, o terror, o medo e a morte pairam como uma espada sobre a cabeça de todos os indivíduos, sobre a sociedade.

Inclusive na obra "Origens do Totalitarismo",  Hannah Arendt diz que:

A iniciativa intelectual, espiritual e artística é tão perigosa para o totalitarismo como a iniciativa de banditismo da ralé, e ambos são mais perigosos que a simples oposição política.

A uniforme perseguição movida contra qualquer forma de atividade intelectual pelos novos condutores da massa deve-se a algo mais que o seu natural ressentimento contra tudo o que não podem compreender. O domínio total não permite a livre iniciativa em qualquer campo de ação, nem qualquer atividade que não seja inteiramente previsível.

O totalitarismo no poder substitui invariavelmente todo o talento, quaisquer que sejam as suas simpatias, pelos loucos e insensatos cuja falta de inteligência e criatividade é ainda a melhor garantia de lealdade. (p. 431)

Um outro aspecto que é importante analisar aqui é: a consciência de um sistema, além da personalidade fanática, tem personalidade psicopata. Isto, inclusive, aplica-se aos sistemas atuais, por exemplo, às corporações. Inclusive, no documentário "The Corporation" esta idéia, da personalidade psicopata das corporações, é explicada detalhadamente. Aqui, eu alargo a idéia, dizendo que é uma característica de todos os sistemas físicos, criações humanas, inclusive das consciências construídas artificialmente, possuírem personalidades fanática e psicopata. São sistemas construídos pelo homem com objetivos específicos, logo, seguem dogmas (só vê os objetivos). E para alcançar estes objetivos, dependendo dos homens que dirigem o monstro, não há limites ou restrição nas ações (os fins justificam os meios). E, inegavelmente, a coisa piora ainda mais quando pessoas psicopatas e fanáticas dominam e dirigem organizações que são, naturalmente, psicopatas.

Do documentário "The Corporation", as seguintes idéias são pertinentes neste ponto:

Para determinar o tipo de personalidade que faz com que as corporações se comportem como uma máquina de externalizações, nós podemos analisá-las como um psiquiatra faria com um paciente.  Nós podemos até formular um diagnóstico, baseando-se em casos de danos que infligiram em outras pessoas, selecionados de um universo de atividades corporativas. Danos aos trabalhadores: demissões, acusação de cartel, incêndios em fábricas, etc.

Dr. Robert Hare, Ph.D (Consultant to the FBI on psychopaths): Uma das perguntas que surgem, periodicamente, é se as corporações podem ser consideradas como psicopatas. E se olhamos a corporação como uma pessoa jurídica não é muito difícil comparar a loucura de um indivíduo com a loucura de uma corporação. Nós podemos analisar, uma a uma, através das características que definem esta desordem,  e ver como elas podem se aplicar às corporações.  Elas tem todas as características de fato. E, em muitos aspectos, as corporações representam o típico psicopata. 

Joel Bakan:  Bakan lembra que sempre ensinou a seus alunos que as corporações são como pessoas e que elas operam sempre para se auto-beneficiar. Da pergunta “Que tipo de pessoa é programada apenas para seguir os seus próprios interesses?”, o professor teve a idéia de simular uma análise psiquiátrica das corporações. A partir disso, os autores do documentário chegam à conclusão que essas instituições têm uma série de características comuns: são interessadas apenas em si mesmas, manipulam, são irresponsáveis, sofrem de falta de empatia e não têm capacidade de sentir remorso ou culpa. “Em outras palavras, a corporação é psicopata”, afirma Bakan.

Se a instituição dominante de nossa era foi criada com a imagem de um psicopata quem leva a responsabilidade moral por suas ações?

Milton Friedman: Pode um edifício ter opiniões morais? Pode um edifício ter responsabilidade social? Se um edifício não pode ter responsabilidade social porque as corporações seriam capazes disto? Uma corporação é simplesmente uma estrutura legal artificial, mas existem pessoas trabalhando lá, sejam os acionistas, sejam os gerentes, sejam os empregados, todos tem responsabilidade moral.

Noam Chomsky: É uma suposição justa que todo ser humano seres humanos reais aqueles de carne e osso não corporativos mas todo ser humano de carne e osso é uma pessoa moral. Vocês sabem que temos os mesmos genes nós somos mais ou menos iguais mas nossa natureza nossa natureza humana permite todo tipo de comportamento. Quero dizer que cada um de nós sob certas circunstâncias poderia ser um operador de câmara de gás ou um santo. (...)Quando você olha para uma corporação como você olharia para um proprietário de um escravo, você tem que distinguir entre a instituição e o indivíduo. A escravidão por exemplo, ou qualquer outra forma de tirania, tem a natureza de monstros, mas os indivíduos que participam dela podem ser os caras mais legais que você pode imaginar, benevolentes, amigáveis, bom com as crianças e mesmo legais com seus escravos, se importando com o sentimento dos outros. Como todo indivíduo deveria ser. Mas no plano institucional eles são monstros porque sua instituição é monstruosa.

Por isso, não podemos esquecer jamais que os sistemas são criações humanas. São coisas inanimadas. São os homens que criam os sistemas e não os sistemas que criam os homens. O totalitarismo se esquece completamente deste ponto e busca construir um sistema que, após a eliminação dos descartáveis e indesejáveis, passe a produzir homens totalitários, homens ideais produzidos pelo sistema.

Também são pertinentes aqui as considerações de Henry Thoreau, apresentadas no texto "A Desobediência Civil". Diz Thoreau:

"Deve o cidadão por um momento sequer, ou num grau mínimo, renunciar à sua consciência em prol do legislador ? Então por que terá cada homem uma consciência ? Acho que devemos em primeiro lugar ser homens, e só depois súditos. Não é desejável que se cultive um respeito à lei igual ao que se cultiva pelo que é correto. A única obrigação que tenho direito de assumir é a de fazer a todo momento o que julgo correto. Diz-se, é bem verdade, que uma corporação não possui consciência; mas uma corporação de homens conscienciosos é uma corporação que possui consciência."

Isto se aplica, portanto, à consciência totalitária, aos partidos políticos e sistemas políticos. Sistemas que são, naturalmente, fanáticos e psicopatas. Sistemas que agem sob comando humano e que não hesitam, um segundo sequer, em destruir todos os seres humanos para alcançar seus objetivos finais e estabelecer a dominação total. Basta olhar para as ações dos sistemas artificiais para se ver isto: as corporações destruindo vidas e o meio-ambiente, sistemas políticos (nazismo, stalinismo, maoísmo, etc) destruindo milhões de pessoas para aplicar dogmas políticos, etc.

E, no último ponto deste item, vem a pergunta: atualmente, existem países (Irã, por exemplo) nos quais os dogmas assumiram o poder do Estado, porém não são sistemas totalitários... Em outros países, nunca houve um sistema totalitário, porém ocorreram matanças generalizadas, por exemplo, em Ruanda, na ex-Iugoslávia, etc... Como podemos explicar isto ?

(....................)

3. Consciência totalitária e o vazio de pensamento

Quer conhecer um tipo de pessoa parecida com Eichmann ? Então, procure um fanático religioso. Um daqueles bem fanático mesmo !!! E tente manter com ele uma discussão sobre religião, diferente das concepções que ele prega. Aqui você terá um exemplo vivo de consciência parecida com a totalitária, uma consciência artificial e superficial, uma consciência dominada por dogmas e falsas verdades absoluta. Um exemplo concreto de vazio de pensamento. Um exemplo de dogmas refletindo os pensamentos da mesma forma que um espelho reflete a luz. Certamente, o fanático religioso é fanático quando o tema é religioso. Por isso, nesta temática, a sua consciência é limitada, atrofiada, próxima da consciência totalitária. Porém, em outras questões ele é uma pessoa normal.

Contudo, a partir do momento que este fanático religioso começar a reunir pessoas para tomar o poder do Estado e implantar, na sociedade, a sua visão unilateral, a sua consciência, como um todo, começa a convergir para a totalitária. No momento em que ele assumir o poder do Estado e usar este poder para exterminar aqueles que tem uma visão diferente daquela que ele prega, agindo para implantar a sua fé em todo o planeta, neste momento a sua consciência é a consciência totalitária.

Discutindo com este fanático religioso você verá que o pensamento dele não se enraíza, não aprofunda, não faz as conexões lógicas que unem informação, conhecimento e experiência. A consciência dele é superficial e baseada em verdades prontas, em respostas prontas, em clichês religiosos. A questão que buscaremos responder é: por que isto ocorre ? O que significa o vazio de pensamento ? Como o vazio de pensamento se relaciona com a consciência totalitária ?

Antes de avançar vamos analisar a questão do vazio de pensamento. O que é vazio de pensamento ? Observo que vazio de pensamento pode significar ausência de consciência. Um bebê que ainda não desenvolveu sua consciência possui vazio de pensamento, pois a sua consciência ainda não possui matéria-prima para ser processada pelos pensamentos. Conforme ele se desenvolve e cresce a sua consciência amplia a quantidade de informação e conhecimento. Também uma pessoa que está em coma é caracterizada pelo vazio de pensamento, ao menos exteriormente.

Há ainda o caso de pessoas que tem consciência, porém, seus pensamentos não se desenvolvem, por causa de inibições/barreiras criadas para impedir o ato de pensar.  Barreiras que não deixam o pensamento questionar. Uma das barreiras mais comuns, que impedem o ato de pensar, refletindo os pensamentos, são os dogmas aliados ao fanatismo. Dogmas formatam a consciência. O fanatismo põe a consciência formatada em ação. O fanatismo gera uma liberdade cega e sem limites.

Há também os casos nos quais a consciência natural da pessoa é atrofiada/bloqueada por lavagem cerebral ou por excesso de exposição ao terrorismo, ao medo e à morte. Este último caso é muito utilizado nos interrogatórios militares.

Dissemos, no tópico anterior, que a consciência totalitária é mais parecida com um processador de um computador do que com um cérebro humano, ou seja, é uma consciência que, predominantemente, reproduz e aplica sentenças prontas. Sentenças advindas de outro lugar, produzida por outra pessoa, etc. Isto significa que a consciência totalitária, ao invés de informações e conhecimentos, é dominada por dogmas, falsas verdades absolutas e mentiras. É um processador de dogmas, de falsas verdades e mentiras. Além disso, é uma consciência fanática e psicopata. Logo, a questão que surge é: a consciência totalitária realiza processos mentais ? A consciência totalitária pensa ?

A resposta é: sim, a consciência totalitária realiza processos mentais. Ela pensa, mas não como pessoa comum. Ela não usa a base cognitiva da mesma forma que uma pessoa comum, pois a consciência humana, para produzir uma sentença, busca/enraíza informações, conhecimentos, experiências, etc. Não só isto, ela pesquisa, testa e questiona. Pesa os dados, confronta com seus valores, moral, ética, etc. Já a consciência totalitária, dominada por dogmas, fica na parte superficial. Os dogmas filtram os processos mentais e limitam/refletem o pensamento, da mesma forma que um espelho reflete a luz.

O pensamento enraíza na consciência humana comum e natural. Na consciência totalitária o pensamento é refletido. Isto porque enquanto na consciência de uma pessoa comum, que se desenvolveu naturalmente, unem-se informação, conhecimento e experiência e tudo isto está sujeito a testes e questionamentos, a valorações, etc. Na consciência totalitária a informação e o conhecimento são substituídos por sentenças prontas, respostas prontas, clichês, enfim, dogmas e instruções do sistema totalitário; não há experiências sobre aquilo que se diz ou se faz. Como são falsas verdades absolutas, impostas pelo sistema, não há teste e nem questionamentos. É porque é. E se o Führer ou o Stálin dizem que é, é. 

 

Inegavelmente, o totalitarismo é um sistema que não admite questionamentos. Quaisquer questionamentos põe o sistema em risco, podendo romper os dogmas, romper a estrutura e mostrar as reais intenções e os objetivos da coisa. O todo é visto apenas por quem estrutura e controla o sistema. E o homem da massa, o homem atomizado, é caracterizado pelo vazio de pensamento, não questiona nada, apenas executa ordens, normas e regras de superiores hierárquicos ou emanadas do sistema. Logo, é o homem ideal para o ambiente totalitário. É o instrumento ideal para o totalitarismo,  para assumir a função de agente totalitário. É o indivíduo totalitário natural, precisando apenas de treinamento básico para o posto que irá assumir.

De acordo com Bethânia Assy, no texto "Eichmann, Banalidade do mal e pensamento em Hannah Arendt":

"A primeira reação de Arendt para com the man in the glass booth, em Jerusalém, foi "nem ao menos amedrontador", nada funesto ou sinistro: "Os feitos eram monstruosos, mas o executante (...) era ordinário, comum, e nem demoníaco nem monstruoso."

A percepção de que Eichmann era um homem comum, possuidor de uma superficialidade e de uma mediocridade transparentes, deixou Arendt atônita ao avaliar a proporção do mal incalculável por ele cometido, qual seja, a organização das deportações de milhões de judeus. Na realidade, era algo inteiramente negativo, não era estupidez, mas irreflexão, thoughtlessness.

Eichmann tornar-se-ia o protagonista de uma experiência aparentemente tão cotidiana, a ausência de um pensamento reflexivo. "Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência."

Eichmann se comunicava por meio de um linguajar próprio, do qual ele se escusava, afirmando que era fruto do seu trabalho, a linguagem burocrática oficial, cuja principal característica fora um traço de incomunicabilidade com a pluralidade do convívio social, incapacitando-o para a fala comum. Por vezes, recordava-se com clareza de determinados pontos estratégicos de sua carreira que, no entanto, não coincidiam necessariamente com os pontos básicos do extermínio do povo judeu, ou, como conseqüência, com o próprio relato histórico.

Sua mente parecia repleta de sentenças prontas, baseadas em uma lógica auto-explicativa, desencadeada em raciocínios dedutivos, mas que todavia, andavam em descompasso com o percurso da própria realidade. Eichmann fora o locus ideal das languages rules do Reich." (p. 138-139)

Como os dogmas estão na superfície da consciência, o pensamento não se enraíza. Os dogmas totalitário agem como um piso na consciência. Abaixo do piso estão informações, conhecimentos e experiências. Está a consciência comum. Acima do piso está a consciência totalitária com suas instruções. Quando a consciência é acionada pelo exterior, automaticamente, surge um pensamento. E o pensamento busca uma resposta. A primeira resposta é dada pelo dogmas. Se a pessoa não se satisfaz, o pensamento busca mais informações, conhecimentos e experiências. Porém, o piso de dogmas refletem o pensamento de volta.

Mas não é só por isto, o pensamento não se enraíza também porque sem questionamento e sem teste não é possível enraizar o ato de pensar. Quanto mais dogmas existem na consciência, mais superficial é a pessoa. Quanto mais clichês, frases feitas, etc maior é a evidência de que  a consciência tem uma estrutura meramente superficial. Além disso, os dogmas satisfazem a preguiça intelectual. Se há uma resposta pronta, não há nenhuma necessidade de se comprová-la ou de construir outra resposta. Os pensamentos não se enraízam na consciência totalitária.

Inclusive Alcir Lenharo, na obra "Nazismo: o triunfo da vontade" conta que:

Hitler considerava que a propaganda sempre deveria ser popular, dirigida às massas, desenvolvida de modo a levar em conta um nível de compreensão dos mais baixos. "As grandes massas", dizia ele, "têm uma capacidade de recepção muito limitada, uma inteligência modesta, uma memória fraca". Por isso mesmo, a propaganda deveria restringir-se a pouquíssimos pontos, repetidos incessantemente.

Se eram muitos os inimigos a serem atacados, para não dispersar o ódio das massas seria preciso mostrar que eles pertenciam à mesma categoria, não ficando assim individualizado o adversário.

O essencial da propaganda era atingir o coração das grandes massas, compreender seu mundo maniqueísta, representar seus sentimentos. A massa seria como as mulheres, cuja sensibilidade não captaria os argumentos de natureza abstrata, mas seria tocada por uma "vaga e sentimental nostalgia por algo forte que as complete".

Tudo interessa no jogo da propaganda: mentiras, calúnias; para mentir, que seja grande a mentira, pois assim sendo, "nem passará pela cabeça das pessoas ser possível arquitetar uma tão profunda falsificação da verdade".  (p.47-8)

Portanto, os líderes totalitários conhecem o vazio de pensamento que caracteriza as massas. Não só conhecem, como exploram esta característica em seus mecanismos de dominação. Por isso, os pensamentos, na consciência totalitária, são travados/paralisados pelos dogmas introjetados nos indivíduos. Logo, o raciocínio das vítimas do totalitarismo se desenvolve até o ponto em que encontrar um dogma. Encontrou uma sentença pronta, um teorema, não há mais nenhuma necessidade de pensar ou refletir sobre aquilo.  É só aplicar a sentença e o teorema que já estão prontos. Inclusive, quando há tentativa de pensar em algo, a consciência totalitária já parte buscando um dogma, uma verdade absoluta, que resolverá todas as questões. Como os dogmas estão na superfície da consciência, a tentativa de enraizar o ato de pensar acaba rapidamente.

Imaginem o tamanho do estrago que um indivíduo questionador, por exemplo Sócrates, causaria em  sistema totalitário. Imaginem Sócrates chegando em Berlim, na época do nazismo. Imaginem as perguntas, as indagações, os questionamentos. A primeira pergunta, certamente, seria dirigida ao grande construtor e arquiteto do sistema, Adolf Hitler: Por que este bigodinho ridículo ? Depois viriam as outras: o que é ariano ? O que é raça ? Por que exterminar ?  Por que isso ? Por que aquilo ? Etc... A minúscula "doxa" dos nazistas, assentada em dogmas falsos,  seria arrancada e triturada. Todas as mentiras totalitárias seriam questionadas, confrontadas, reveladas e quebradas. Os dogmas seriam postos a prova. As falsas verdades absolutas seriam testadas. E Sócrates daria ao monstro totalitário um espelho para mirar sua própria imagem. Indubitavelmente, o sistema seria minado e, mais uma vez, iriam fazer Sócrates beber cicuta ou algo pior...

Neste sentido, Bethânia Assy assinala que:

A própria Arendt não evitaria a questão de como seria possível que tal atividade (faculdade de pensar), tão sem resultados, tivesse alguma relevância sob nossas ações: "Só da atividade de pensar poderia, se tanto, advir uma resposta - somente do próprio desempenho dessa atividade, o que significa que temos que buscar experiências, em vez de doutrina," o que implicaria na busca pela experiência do pensamento.

Arendt busca um modelo para a atividade de pensar, alguém que tenha pensado sem ter se tornado um "pensador profissional", que tenha sido capaz de dar significado a uma dupla tão agonística na história da tradição filosófica e da metafísica, qual seja, pensamento e ação, que implica em uma relação imbricada entre filosofia e política. Um modelo que não assentasse seu pensamento na nossa tradição filosófica mas sim, cujo próprio construto descrevesse um fluxo contínuo de perguntas e respostas, possibilidade a leitura das experiências, a reflexão por excelência: Sócrates.

Este homem que questionava "simplesmente pelo direito de examinar as opiniões alheias, pensar sobre elas e pedir aos seus interlocutores que fizessem o mesmo." O pensamento socrático, uma arraia-elétrica, seguia seu curso aporético, cuja argumentação não pretendia chegar a um conceito ou a uma definição do objeto investigado.

Quando se trata do movimento da faculdade de pensar, do exame do significado, todos os conceitos começariam a mover-se, como um bailado dos "logoi". Arendt cita Heidegger, que usa a metáfora do tufão do pensamento, referindo-se a Sócrates. (p. 146)

A consciência totalitária não suporta questionamentos, pois eles exigem a capacidade de pensar, a busca de respostas, a reflexão. Uma consciência que somente reproduz, na maior parte do tempo, coisas prontas, dogmas e ordens, diante de Sócrates, desmorona completamente. Se existem sentenças prontas, não há necessidade de pensar, refletir sobre aquilo. É só aplicar aquilo que está pronto. Nada mais.

Bethânia Assy assinala que:

"Eichmann costumava afirmar repetidamente o mesmo chavão, "Minha honra é minha lealdade." Esta honra implicava uma lealdade absoluta, levando-o a nunca tomar decisões por si só, "tinha sempre extremo cuidado em estar 'coberto' por ordens, (...) não gostava de oferecer sugestões e sempre exigia diretrizes." Quando ele afirmava que cumprira seu dever, estava implícito que obedecera a todas as ordens, conforme o exigia seu juramento, e não admitira o descumprimento da regra.

Hannah menciona o fato de se ter nublado a diferença entre lei e ordem, aspecto substancial no cumprimento da regra do Regime de Hitler, como se a nova lei do país fosse baseada nas ordens do Führer, onde os burocratas agiam como cidadãos tementes à lei.

Eichmann repetira várias vezes à Corte que cumprira seu dever, e que obedecera não apenas às ordens, mas às leis. No labirinto burocrático do terceiro Reich, as palavras do Führer tinham a tal ponto força de lei, que quaisquer atos de descumprimento eram considerados atos ilegais e criminosos.

Reuben Garner apresenta um dos fatores que corroboraram para a construção da obediente máquina burocrática, qual seja, o peso da doutrinação capaz de suprimir os sentimentos pessoais e de conduzir à aceitação das premissas hitlerianas sem sequer questioná-las. vem desta atitude a convicção de que o escopo da lei é o próprio chamado ao dever.

Também Henry Feingold enfatiza que essa inversão podia ser observada através de um novo protótipo de funcionário burocrático, o veículo direto da "encarnação" das ordens do Führer. "Essa burocracia descontrolada, liberta pelas sanções da lei e intocável para o ser humano comum, à semelhança de uma máquina automática, é a marca de todos os sistemas totalitários." Eichmann, um cidadão temente à lei, racionava sempre dentro dos restritos limites do que as normas e os decretos lhe permitiam, atitude que acabou por nublar os aspectos de virtudes e vícios de uma obediência cega, ou a chamada obediência de cadáver, como o próprio Eichmann costumava mencionar com orgulho.

De fato, não era apenas Eichmann que era normal, enquanto todos os outros eram monstros sádicos. Estava-se diante de uma compacta massa burocrática de homens perfeitamente normais, desprovidos da capacidade de discernimento, de submeterem os acontecimentos a juízo.

Do ponto de vista de nossas instituições legais, e de nossos padrões morais de julgamento, essa normalidade era muito mais aterrorizadora do que todas as atrocidades juntas, pois implicava que, (...) esse novo tipo de criminoso, que é em realidade hostis generis humani, cometesse crimes sob circunstâncias que tornam praticamente impossível para ele saber ou sentir que está fazendo algo errado. (...)

A questão acerca daqueles que não aderiram ao regime está repleta de implicações quanto à capacidade de discernimento, isto é, à capacidade de pensar, e à moralidade; ao mesmo tempo em que analisa a responsabilidade, a autora aponta indicadores de como a capacidade de pensar pode evitar que se cometa erros, pelo menos em se tratando das chamadas "situações-limite". (p. 140-141)

Portanto, o vazio de pensamento é uma característica fundamental da consciência totalitária. Esta ausência de pensamento se relaciona com a predominância de dogmas, falsas verdades absolutas e mentiras girando e dentro da consciência. Logo, a superficialidade da consciência induz o vazio de pensamento que, por sua, reforça a superficialidade, gerando um círculo vicioso difícil de ser quebrado. Contudo, o vazio de pensamento não começa a existe depois da instalação da consciência totalitária. Ele existe antes, apenas não é explorado intensamente por um sistema político. Algumas vezes a religião, ou algum outro sistema, usa o vazio de pensamento para inserir e estabelecer os seus dogmas, as suas falsas verdades ou mentiras. Porém, como a maioria dos indivíduos da sociedade não estão submetidos a estes restritos sistemas, o fanatismo não é tão devastador quanto no totalitarismo. Inclusive, não chega, na religião por exemplo, a ser constituída uma consciência totalitária.

Certamente, é preciso considerar os argumentos de  Bethânia Assy :

A atividade de pensar provoca essencialmente a perplexidade ao colocar os valores e os padrões estabelecidos em movimento, como se tivesse o poder de desalojar os indivíduos dos seus dogmas e das suas regras de conduta; um movimento que os colocasse diante de uma tela vazia, sem bem nem mal, sem certo nem errado, mas simplesmente lhes ativassem a condição de estabelecer um diálogo consigo próprios, refletirem e emitirem seus próprios juízos sobre qualquer princípio, valor ou evento.

Se o pensamento detém alguma propriedade capaz de evitar a banalidade do mal, essa deve ser inerente à própria atividade de pensar, não sendo dependente dos objetos, pois "o pensamento não cria valores, não irá descobrir, de uma vez por todas, o que é 'o bem', e não confirma as regras aceitas de condutas, mas antes dissolve-as." (p. 147)

Outro ponto que deve ser ressaltado é: o vazio de pensamento pode existir antes do sistema totalitário,  ou pode ser induzido/construído durante a instalação do sistema, ou, em último caso, pode ser imposto à sociedade, através da propaganda, do terror, do medo e da morte, depois da instalação do governo que tem intenções totalitárias.  Em outras palavras, o governo começa como um ditadura ou tirania e, ao longo do tempo, vai instalando o sistema totalitário. É o caso, por exemplo, da URSS. 

Certamente, a questão do vazio de pensamento se aplica aos perpetradores do mal e não às vítimas do mal, ou seja, estou falando das pessoas que integram, normalmente, o sistema totalitário e que serão as peças que o movimentarão. Estou dizendo isto porque existem grupos de pessoas, no âmbito totalitário, que são inimigas naturais do sistema. Pessoas que devem ser destruídas pelo sistema. Estas pessoas não são engrenagens do sistema. Elas são vítimas. No caso do nazismo, por exemplo, os judeus, os ciganos, etc.

Olhando para Eichmann, vemos que ele tinha vontade, que ele seguia a sua vontade, mas ele não era livre, pois a sua consciência estava contaminada pelo nazismo. Os pensamentos que circulavam na consciência de Eichmann e que emitia ordens, formando a sua vontade, eram pensamentos do sistema totalitário. Logo, a liberdade de Eichmann era a liberdade do sistema totalitário. Isto porque a vontade dele era formada por uma consciência movida por dogmas (informações e conhecimentos) introjetados pelo movimento nazista.

A consciência de Eichmann era a consciência do sistema, pois os pensamentos de Eichmann eram sentenças prontas, formulas prontas emitidas pelo nazismo. Eichmann não questiona as sentenças e nem as fórmulas. Não processava informações e nem os conhecimentos. Apenas executava as ordens que recebeu da consciência totalitária.

Eichmann chama este comportamento de obediência cadavérica (Kadavergehorsam). Isto é contado por  Hannah Arendt na obra Eichmann em Jerusalém:

Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncios Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei. (...)

Como além de cumprir aquilo que ele concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens - sempre o cuidado de estar "coberto" -, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a "obediência cadavérica" (kadavergehorsam), como ele próprio a chamou. (p. 152)

E como dissemos anteriormente, aceitar sentenças prontas significa não processar nada, apenas executar aquilo que veio pronto. Este é o truque do sistema: introjetar sentenças prontas nos indivíduos que integram o sistema. Por isso, fala-se em vazio de pensamento. Vazio de pensamento de um ser humano normal. Porém consciência repleta de dogmas, normas e ordens do sistema totalitário: anti-semitismo, extermínio, ordens do Führer, câmara de gás, etc.

4. A consciência totalitária e a banalidade do mal

 

Hannah Arendt conta, na obra "Eichmann em Jerusalém" que:

O membro da hierarquia nazista mais dotado para resolver problemas de consciência era Himmler. Ele cunhava slogans, como aquele famoso lema da SS, tirado do discurso de Hitler diante da SS em 1931 - "Minha honra é minha lealdade" -, frases de efeito que Eichmann chamava de "palavras aladas" e os juízes chamavam de "fala vazia", e divulgava-as, como Eichmann se lembrava, "por volta da passagem do ano", presumivelmente junto com um bônus de Natal.

Eichmann lembrava só uma dessas frases, que ficava repetindo: "Estas batalhas as futuras gerações não terão mais de lutar", referindo-se às "batalhas" contra as mulheres, crianças, velhos, e outras "bocas inúteis".

Há outras frases assim, tiradas de discursos que Himmler fez aos comandantes superiores da SS e da polícia, como por exemplo: "Ter chegado ao topo e, a não ser pelas exceções causadas pela fraqueza humana, ter permanecido decentes, isso é o que nos enrijeceu. Esta é uma página gloriosa de nossa história que nunca foi escrita e jamais será reescrita". Ou: "Sabemos que o que esperamos de você é sobretudo, é ser sobre-humanamente desumano".

Tudo o que se pode dizer é que suas expectativas não foram frustradas. vale a pena notar, porém, que Himmler quase nunca tentava se justificar em termos ideológicos e, se o fazia, aparentemente esquecia-se depressa. O que afetava as cabeças desses homens que tinham se transformado em assassinos era simplesmente a idéia de estar envolvidos em algo histórico, grandioso, único ("uma grande tarefa que só ocorre uma vez em dois mil anos"), o que, portanto, deve ser difícil de agüentar.

Isso era importante, porque os assassinos não eram sádicos ou criminosos por natureza; ao contrário, foi feito um esforço sistemático para afastar todos aqueles que sentiam prazer físico com o que faziam. As tropas dos Einsatzgruppen tinham sido convocados da SS armada, uma unidade militar que não tinha em seu histórico nada além da cota normal de crimes de qualquer unidade do Exército Alemão, e seus comandantes foram escolhidos por Heydrich entre a elite da SS, gente com diplomas acadêmicos.

Por isso, o problema era como superior não tanto a sua consciência, mas sim a piedade animal que afeta todo homem normal em presença do sofrimento físico. O truque usado por Himmler - que aparentemente sofria muito fortemente com essas reações instintivas - era muito simples e provavelmente muito eficiente; consistia em inverter a direção desses instintos, fazendo com que apontassem para o próprio indivíduo. Assim, em vez de dizer "Que coisas horríveis eu fiz com as pessoas !", os assassinos poderiam dizer "Que coisas horríveis eu tive de ver na execução dos meus deveres, como essa tarefa pesa sobre os meus ombros !".

A memória deficiente de Eichmann em relação às frases engenhosas de Himmler pode ser indicação de que havia outros métodos, mais eficazes, para resolver o problema de consciência. Acima de tudo estava, como Hitler previra acertadamente, o simples fato da guerra. Eichmann insistiu muitas vezes na "atitude pessoal diferente" diante da morte quando "se via mortos por toda parte", e quando todo mundo olhava a própria morte com indiferença: "Não nos importava se morreríamos hoje ou só amanhã, e havia momentos em que amaldiçoávamos a manhã que nos encontrava ainda vivos". (p. 121-122)

(...)

 

6. A consciência totalitária e a atomização dos indivíduos

A retirada de consciência, assim como a substituição das consciência individuais é muito mais fácil onde existe massa. Isto porque, de acordo com Hannah Arendt:

Os movimentos totalitários são possíveis onde quer que existam massas que, por um motivo ou outro, desenvolveram certo gosto pela organização política. As massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta-lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. O termo massa só se aplica quando lidamos com pessoas que, simplesmente devido ao seu número, ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não se podem integrar numa organização profissional ou sindicato de trabalhadores. Potencialmente, as massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem o poder de voto. (p. 399)

Percebemos, portanto, que o homem da massa é um homem que não desenvolveu a sua consciência política e pouco exercita a sua consciência social, que também é atrofiada. Logo, não tem um pensamento crítico evidente e pode ser facilmente controlado, seguindo a voz de quem grita mais alto. Este homem, que integra a massa de iguais, é o modelo ideal para a ação da mão invisível do totalitarismo.

É um sistema que não admite questionamentos. Quaisquer questionamentos põe o sistema em risco, podendo romper a estrutura e mostrar as reais intenções e os objetivos da coisa. O todo é visto apenas por quem estrutura e controla o sistema. E o homem da massa não questiona nada, apenas executa as ordens. Logo, é o homem ideal para assumir a função de agente totalitário. É o indivíduo totalitário natural, precisando apenas de treinamento básico para o posto futuro.

O método totalitário de retirada de consciência dos indivíduos, acompanhados pela instalação da consciência dos sistema totalitário em cada pessoa, nas palavras de Hannah Arendt, é a produção/construção de uma massa atomizada e amorfa.  A mão totalitária invisível ataca toda a sociedade de uma vez. E o registro mais preciso do uso desse método é descrito, por Hannah Arendt, no Stalinismo:

Desde os tempos antigos, a imposição da igualdade de condições aos governados constituiu um dos principais alvos dos despotismos e das tiranias, mas essa equalização não basta para o governo totalitário, porque deixa ainda intactos certos laços não políticos entre os subjugados, tais como laços de família e de interesses culturais comuns. Se o totalitarismo encarar seriamente as suas pretensões, deve considerar sem desvio a questão em que tem de "acabar de uma vez para sempre com a neutralidade de xadrez", isto é, com a existência autônoma de qualquer espécie de atividade. Os amantes do "xadrez por amor do xadrez", adequadamente comparados pelo seu liquidatário com os amantes da "arte pela arte", ainda não são de maneira absoluta elementos atomizados numa sociedade de massas cuja uniformidade completamente heterogênea constitui uma das condições primárias do totalitarismo.

Do ponto de vista dos governantes totalitários, uma sociedade dedicada ao xadrez por amor ao xadrez é apenas diferentes e menos perigosa em grau do que uma classe de agricultores por amor à agricultura. Hitler definiu muito adequadamente o membro da SS como o novo tipo de homem que em nenhuma circunstância jamais fará qualquer coisa "por ela mesma".

A atomização de massas na sociedade soviética foi realizada através do hábil uso de sucessivos expurgos que invariavelmente precediam uma verdadeira liquidação em grupo. A fim de destruir todos os laços sociais e familiares, os expurgos eram realizados de modo a ameaçar com o mesmo destino o réu e todas as pessoas que privavam com ele, desde os simples conhecidos aos amigos mais íntimos e aos familiares. A conseqüência do singelo estratagema de "culpa por associação" reside no seguinte: logo que um homem é acusado, os seus velhos amigos são transformados imediatamente nos mais implacáveis  inimigos; para salvarem a própria pele, oferecem informações e apresentam-se diligentemente com denúncias que corroborem as provas não existentes contra ele; obviamente, esta é a única maneira de comprovar a sua lealdade.

Retrospectivamente, tentarão provar que as suas relações ou a sua amizade com o acusado constituíam apenas pretexto para o espiar ou para o denunciar  como sabotador, trotskista, espião estrangeiro ou fascista. Sendo o mérito "aferido pelo número de denúncias feitas por velhos camaradas" , é óbvio que a cautela mais elementar exige que uma pessoa evite todos os contactos íntimos, se possível - não para evitar a descoberta dos pensamentos próprios, mas para eliminar, nos casos quase certos de futuros incômodos, todas as pessoas que possam ter não só um ínfimo interesse em denunciá-la, mas também a necessidade irresistível de provocar a sua ruína simplesmente porque a própria vida do provável denunciante corre perigo.

Em última análise, foi através do desenvolvimento deste estratagema até aos seus mais fantásticos extremos que governantes bolcheviques conseguiram criar uma sociedade atomizada e individualizada, como nunca se viu igual e que eventos ou catástrofes só por si dificilmente poderiam originar. (p. 412-413)

(...) Os movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados e isolados. Distinguem-se dos outros partidos e movimentos pela exigência de lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável de cada membro individual. Essa exigência é feita pelos líderes dos movimentos totalitários mesmo antes de tomarem o poder e decorre da alegação, já contida na sua ideologia, de que a organização abrangerá, no devido tempo, toda a raça humana. Contudo, onde o governo totalitário não é preparado por um movimento totalitário, o movimento tem de ser organizado depois, e as condições para o seu crescimento têm de ser artificialmente criadas de modo a possibilitar a lealdade total, que é a base psicológica do domínio total. Não se pode esperar essa lealdade a não ser de seres humanos completamente isolados que, desprovidos de outros laços sociais - de família, amizade, camaradagem - só adquirem o sentido de terem lugar neste mundo quando participam de um movimento ou pertencem a um Partido.(p. 414)

Portanto, esta atomização das massas, citada por Hannah Arendt, é um método eficiente para eliminar a consciência individual das pessoas. Este método elimina a consciência individual através da eliminação das partes, das outras consciências que compõem a consciência individual. Primeiro, ataca a consciência política, em seguida a consciência social. Logo após a consciência coletiva e, por último, assimila a consciência individual como um todo. 

Ao mesmo tempo que destrói a individualidade da pessoa, a consciência individual, o totalitarismo insere a consciência do sistema totalitário no indivíduo. Na descrição, isto aparece no fato dos velhos amigos serem transformados em delatores ou nos mais implacáveis inimigos. Transformados em zumbis que protegem o sistema totalitário detectando e denunciando a existência de pessoas que ainda não foram assimiladas pelo sistema, ou seja, de pessoas que ainda possuem intactas a consciência individual natural. Logo, pessoas que podem questionar e destruir o sistema por dentro, exercendo a liberdade natural, oriunda da consciência individual natural.

No rodapé da página 413 desta obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism",  Hannah Arendt cita o relato de Nadiedja Mandelstam que viveu o horror da ação totalitária na URSS e assistiu de perto a mão invisível do sistema totalitário eliminando as consciências, uma por uma, até destruir a consciência principal e a individualidade de cada pessoa:

Ninguém confiava em ninguém, e cada conhecido era um possível informador da polícia. Às vezes, parecia que todo o país estava a sofrer de mania de perseguição - uma doença de que ainda hoje não estamos curados. A nossa aflição não era sem fundamentos: sentíamos-nos como se estivéssemos constantemente expostos a uma câmara de raios-X, pois a espionagem mútua era o principal instrumento de controle do Estado.

"Não há que ter medo", havia dito Stálin, "é uma tarefa como todas as outras". Nas escolas, um sistema de "autogoverno" na sala de aula, com monitores e representantes do Komsomol, possibilitava aos professores extrair dos alunos as informações de que necessitavam. Os estudantes tinham ordem de espiar os professores.

(...) Tudo isto era parte da nossa vida diária, e acontecia numa vasta escala e afetava a todos indiscriminadamente. Cada família reexaminava constantemente o seu círculo de relações, procurando determinar quais eram os provocadores, os informadores e os traidores. Depois de 1937, as pessoas simplesmente deixaram de se encontrar umas com as outras: a polícia secreta havia atingido o seu objetivo final. Além de garantir a existência de um constante fluxo de informações, a polícia secreta havia isolado completamente os indivíduos.

Ao tomar conhecimento da última prisão, nunca perguntávamos: "Por que ele foi preso ?" Mas nós éramos uma exceção. Para muita gente aturdida pelo medo, fazer essa pergunta era um modo de alimentar alguma esperança: se os outros estavam a ser presos por algum motivo, então eles não seriam presos porque nada haviam feito de errado.

Cada um procurava encontrar um motivo mais engenhoso que o outro para justificar essas prisões: "Bom, ela é contrabandista mesmo, você sabe"; "não se pode negar que ele foi além dos limites"; "eu mesmo ouvi quando ele disse..." Ou então "não se podia esperar outra coisa - aquele sujeito não presta"; "sempre achei que havia algo errado nele"; "ele não é um de nós". Isto era motivo suficiente para prender e destruir uma pessoa: "não é um de nós", "fala demais", "é mau sujeito".

Estas afirmações nada mais eram que variações de uma cantiga que havíamos escutado pela primeira vez em 1917. A opinião pública e a polícia inventavam sem cessar novas variações mais ilustrativas, alimentando o fogo sem o qual não há fumo. Por isto, no nosso círculo era proibido fazer a pergunta: "porque foi ele preso ?"  " Por que ?" exclamava Akhmatova, indignada, sempre que algum de nós, contagiado pelo clima reinante à nossa volta, fazia essa pergunta "Você já devia saber há muito tempo que as pessoas são presas por nada !" (Nadiedja Mandelstam).

7. A novidade totalitária

A única forma de se retirar completamente a liberdade de um indivíduo é retirando a sua consciência. Não basta apenas criar normas que inibam ou impeçam a consciência de se manifestar, pois a consciência pode, perfeitamente, contrariar a norma ou ignorá-la, ou seja, as normas não retiram a liberdade do indivíduo, pois não podem e não conseguem retirar a consciência. As normas simplesmente reorientam ou condicionam a consciência do indivíduo exteriormente, limitando a liberdade.

Retirar a consciência do indivíduo significa contaminar o funcionamento natural da consciência, modificando a base de análise. É uma espécie de lavagem cerebral que modifica o banco de dados analítico da consciência. O banco de dados formado com informações, conhecimentos, costumes, valores, etc, que o indivíduo captou ao longo da vida naturalmente é substituído por um banco de dados artificial, introjetado pelo sistema, dentro da consciência da pessoa. Assim, a consciência, ao invés de analisar o banco de dados natural, analisa o banco de dados artificial. E é em cima deste último banco de dados que a consciência passa a operar, emitindo sentenças (vontade). Logo, a liberdade oriunda desta vontade viciada e contaminada não é a liberdade do indivíduo, mas sim a liberdade do sistema.

E é justamente nesse ponto que entra a novidade totalitária. O totalitarismo faz uma coisa que nenhum outro sistema tinha conseguido fazer antes. E que coisa é essa ? O totalitarismo retirou a consciência dos indivíduos. Logo, retirou completamente a liberdade dos Seres Humanos que pertenciam àquele sistema. Todos os movimentos anteriores atingiam o indivíduo criando regras e normas que condicionavam as consciências e limitavam a liberdade, mas nenhum sistema jamais havia retirado a consciência das pessoas. Retirando a consciência, ele retirou completamente a liberdade dos indivíduos.

Mas o totalitarismo foi além, muito além disso, ele não só retirou a consciência, mas a substituiu por outra consciência: a consciência do sistema totalitário. As pessoas perderam a sua consciência individual, logo, perderam a sua liberdade individual; e receberam, em troca, a consciência do sistema, logo, passaram a ter a liberdade do sistema (poder de agir de acordo com a consciência do sistema). A consciência do sistema gera a liberdade do sistema.

De acordo com Francisco Xarão, na obra "Política e Liberdade em Hannah Arendt":

Nunca antes um regime de opressão política conduziu-se desta forma. Todos os regimes de opressão conhecidos até então (ditadura, tirania, despotismo) haviam apenas criado barreiras para cercear a liberdade, mas nunca exterminá-la, como ocorre no totalitarismo. Portanto, em se tratando desse regime o que é incrível não é a existência do terror, recorrente em todos os sistemas de despotismo político, mas o fato de que o mesmo foi erigido em princípio de governo. Sua função não é mais, como foi em outras formas de opressão, impedir a ação contra o governo, mas sim fazer com que as massas se comportem de acordo com um padrão definido pela ideologia.

O que os campos de concentração tentam provar, através do terror e da ideologia, é a possibilidade de transformar a "natureza humana". Pode-se dizer, então, que os campos de concentração são o "ideal social que rege a dominação total em geral", pois neles todos os homens são igualados à condição biológica de sobrevivência, a um tipo de espécie humana que se assemelha a outras espécies de animais.

Para que seja possível essa transformação, é necessário que todo o vestígio de cidadão seja apagado do indivíduo. Esse processo de aniquilamento do cidadão começa, no século XX, com os apátridas e continua com a perda dos Direitos do Homem, até encontrar sua forma mais cruel e definitiva nos campos de concentração dos regimes totalitários

 

Mas o que exatamente quer dizer perda de consciência, seguida de substituição de consciência ? Em termos excessivamente genéricos é uma espécie de lavagem cerebral em massa. Retira a consciência do indivíduo, fazendo-o perder a sua identidade e individualidade, imergindo-o em uma multidão de iguais.

Por isso, em um sistema totalitário a mídia, a propaganda e o terror são tão importantes. Por isso, o vazio de pensamento, a mediocridade e a indiferença são essenciais para o sucesso inicial do sistema. São características comuns no homem da massa, características que facilitam e garantem o sucesso de substituição de consciência dos indivíduos. Pessoas com tais características tem suas consciências facilmente arrancada e substituída por outra. São pessoas dóceis, facilmente controladas e dominadas. Pessoas que não percebem que seus pensamentos são pensamentos do sistema, que suas idéias e ideais são idéias e ideais do sistema, que suas ações são ações do sistema. A consciência que possuem é a consciência do sistema. Pensam igual o sistema. Falam igual o sistema. Agem igual o sistema. Fazem o que o sistema faz.

8. ...

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