Temas de Política Externa Brasileira

Prof. Celso Lafer e Gelson Fonseca Jr.

Seminário de Sociologia - Turma de 2000

Professor Mourão

 

 

A situação do sistema internacional, tanto no âmbito da política como no econômico e de valores, é de transição. Os países têm tido que se adaptar a cada dia, modificando o próprio modo de fazer diplomacia. E essas mudanças estão ocorrendo tanto nas grandes potências quanto nos países médios como o Brasil.
Por esse motivo fazer uma análise e uma previsão sobre o futuro das relações internacionais torna-se uma tarefa bastante complicada. “o melhor levantamento das forças que comandam o presente nem sempre indicará com firmeza os rumos do futuro, até o mais imediato.” Mas, esse fato não desqualifica o esforço analítico, mas deve fazer, entretanto, com que ele seja mais cuidadoso.

Classicamente, para fins analíticos, o estudo das relações internacionais distingue três campos básicos: O estratégico militar, o econômico e o dos valores. O campo estratégico militar lida com com os temas da paz e guerra e cuida da sobrevivência como unidades independentes. O econômico, por sua vez, releva a significância de um país em termos de ganho e perda no plano dos interesses internacionais. E, finalmente, o dos valores analisa a forma com que cada país encara a vida em sociedade, e traz o tema dos modelos de organização social.
Esses três campos, porém, não possuem uma linha clara e definida que os separe. Eles se interpenetram freqüentemente e de diversos modos.

Uma das características, entretanto, da Guerra Fria era a de que esses campos tinham uma dinâmica clara, comandada por um processo global de rivalidade. Um mundo de polaridades definidas é mais previsível, o que favorece as escolhas estratégicas para longo prazo. Mas é também um mundo mais perigoso e, devido a isto, existe uma constante atuação para o acordo, o alinhamento diplomático.

Como Paz e Guerra são instância última do sistema internacional, o problema do desenvolvimento e risco nuclear, e o controle do terror acabavam por interferir e, de certa forma modelar os conflitos e tensões periféricas, além de limitar a autonomia da economia.

Havia, porém, uma certa lógica, uma coerência entre a capacidade de gerar poder econômico e militar e a de produzir sentido no campo de valores. Ou seja, novamente os campos se interpenetravam, quanto maior o poderio econômico e militar, maior a influência ideológica.

A história das teorias de relações internacionais no pós-guerra pode ser resumida em três etapas: a da formulação “moderna” do modelo realista; a de sua afirmação hegemônica no campo da teoria; e a de sua crítica.

O modelo realista era uma boa forma para análise do período da Guerra Fria. Ele começa por identificar pólos de poder e suas questões de segurança. Durante a Guerra Fria havia uma certa estabilidade quanto aos pólos e as questões de segurança.
Mas, agora, não existem mais paradigmas claros que permitam o início de uma análise segura. Na verdade existe uma disputa de modelos. de um lado os que defendem ainda as premissas realistas e, de outro, aqueles que procuram ver, como principal característica dos tempos modernos, o aumento da tendência de erosão da soberania do Estado.

A solução buscada pelo texto de Celso Lafer para a análise do sistema pós Guerra Fria foi a de tentar identificar o que seriam “forças básicas” e procurar, em seguida, examinar de que maneira estas afetariam o exercício da diplomacia.

Há, atualmente, no sistema internacional duas tendências opostas: a que vai no sentido da globalização, e a que vai no sentido da fragmentação. Esses dois movimentos (fragmentação e globalização) ocorrem simultaneamente e não devemos dar a eles valores positivos ou negativos. o que é essencial é saber qual deles rege hoje a ordem mundial.

 

Primeiro pós Guerra Fria

 

Dois acontecimentos marcaram o primeiro pós Guerra Fria. Foram eles a queda do muro de Berlim e a Guerra do Golfo. Esses fatos trouxeram um certo otimismo devido à idéia de que se formavam no mundo, dentro do campo dos valores, grandes unaminidades.

Tal otimismo vinha da idéia de que, agora, os valores do liberalismo, unindo democracia e mercado, tendiam à inevitável universalização. As forças econômicas globalizantes passariam a formar agora um mundo de paz e desenvolvimento. haveria afinidades naturais e amplas entre a vida interna das nações.

Porém, por diversos fatores, ocorre um enfraquecimento do poder da ação diplomática do sul. O que era encarado como pontos positivos dos países do sul , que estariam em desenvolvimento, foi substituído por pontos negativos. O sul passa a ter uma conotação de ameaça e descontrole; ineficiência econômica; violadores dos direito humanos; destruidores do meio ambiente; originadores do narcotráfico; ameaçA à segurança internacional.

Essa imagem, extremamente negativa e superficial, acaba por reforçar a idéia de hegemonia do Norte e de que o Sul melhoraria à medida que se tornasse semelhante ao Norte.
Nesse primeiro momento também, prevalece o otimismo a respeito do movimento de globalização, poucos têm dúvidas de que a lógica da unificação será a vencedora.

 

Segundo pós Guerra Fria

 

Houve também acontecimentos marcantes no segundo pós Guerra Fria. O mais marcante foi, sem dúvida, a derrocada da URSS e a conseqüente decomposição da estrutura interestatal que articulava o socialismo soviético. Após esse fato percebe-se rapidamente o nacionalismo instaurado onde antes formava-se a URSS. E, importante, um nacionalismo que surge em locais em crise aguda. Em economias distorcidas e conflituosas. Os modelos de democracia propostos não parecem resolver os enormes conflitos , e as escolhas populares encontram resistências que se baseiam em setores ideológicos e étnicos.

Outro acontecimento de grande importância foi a decomposição da Iugoslávia. Aí, as rivalidades étnicas chegaram a um ponto extremo. Grande violência e guerras foram geradas ao extremo das limpezas étnicas.

Esses fatos trazem à tona uma outra força, uma outra tendência: a da fragmentação, de desagregação. A lógica da fragmentação retorna para lembrar que ainda tem força suficiente para dar fim ao otimismo de 1989.

E é importante ressaltar que, diante desses conflitos, a comunidade internacional pouco pode fazer. Até porque, ela raramente se move por valores universais e muito mais por interesses específicos, oportunidades, fatores de interesses nacionais. Diante de conflitos e crises de afronta aos valores universais a comunidade internacional tende a permanecer como está. Apenas diante de ameaças muito concretas e reais instaura-se a urgência e o sentido de uma ação comum.

Deve-se ainda lembrar que os nacionalismos que se afirmam não têm apenas um caráter étnicos, mas, muitas vezes também monetário, econômico, ideológico.

Obviamente a força desses movimentos nacionalistas não dão fim ao movimento de globalização, mas o abalam. Forma-se, então, uma situação dicotômica. Fazendo com que o sistema internacional se encontre em uma nítida fase de transição, sem um paradigma definido. Uma situação instável e ambivalente. Tivemos, portanto, três períodos: primeiramente um com polaridades definidas, passamos para um momento em que as polaridades não importavam e, agora, estamos em uma situação na qual têm-se as polaridades indefinidas.

 

Conseqüências do Processo de Polaridades indefinidas

 

A principal conseqüência é que é preciso partir da idéia de que estamos lidando com um processo complexo para podermos rumar os estudos sobre o sistema internacional.
Complexo por ser contraditório e pouco previsível.

No campo econômico é preciso lembrar que existe uma forte e importante relação entre a economia e o clima político. A governabilidade torna-se mais complexa tendo em vista as duas forças opostas que regem o sistema internacional. A princípio as condições gerais de governabilidade não se deterioraram ao ponto de afetar o fluxo econômico. O problema é saber se, futuramente, o grau de governabilidade irá se manter, reforçar ou fragilizar-se. E , infelizmente, ainda não há resposta para essa questão.

Um outro ponto positivo é o fato de que, mesmo possuindo visões diferentes, as potências não entraram em disputas acirradas em relação aos conflitos regionais. Sendo assim, as crises regionais não vêm sendo agravadas por conflitos globais, diferentemente do que ocorria durante o período da Guerra Fria.

Mas, mesmo não podendo afirmar que que existam reais ameaças no plano global da governabilidade, notamos que há uma limitação no que se refere aos mecanismos de segurança coletiva. O que diminui a ameaça militar globalizada, mas aumenta a insegurança localizada.

 

Conclusão

 

É importante saber, ao fim, que as tendência, as forças de globalização e fragmentação, com a indeterminação de pólos são o que, por algum tempo ainda, irão reger o sistema internacional. É preciso, apesar de complexo e incerto, prever onde se encontrará o equilíbrio dessas duas tendências. Para Celso Lafer e Gelson Fonseca Jr. a melhor postura é a tolerância, valor que traz consigo a idéia de prudência, metodologia, ética e a pluralidade de verdades, Idéias que permitem uma organização do sistema internacional de forma que prevaleça a persuasão sobre a imposição, trazendo uma maior segurança.