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Laymert Garcia dos Santos
O Relatório Lugano - Susan George - Editora Boitempo
“Deus movimenta-se por caminhos misteriosos para realizar os seus milagres”, declarou William Cowper, um poeta inglês do século XVIII, em Light Shining out of Darkness [ que irradia da escuridão]. Os caminhos de Deus podem parecer duros, e até mesmo cruéis, mas, para nossa felicidade, deveríamos aceitar as provações que Ele nos impõe, quaisquer que sejam. “Talvez o broto tenha um gosto amargo, mas doce será a flor.” A fé que o poeta deposita na providência divina assemelha-se à confiança depositada pelo laisser-faire na “mão invisível”.
Não queremos ofender nem blasfemar: o fato é que, nos negócios terrenos, o mercado, em seu sentido mais amplo, mais abrangente, é, entre as coisas que o homem produziu, aquilo que está mais próximo da sabedoria do Todo-poderoso. Sim, o mercado acarreta o sofrimento de alguns; suas decisões podem parecer duras e cruéis, mas não nos esqueçamos da comparação teológica com o mercado segundo a qual “Deus, o bem supremo, não permitiria a presença do mal em suas obras a menos que Ele fosse tão pode roso e tão bom que do próprio mal pudesse fazer o bem”.
Pode-se dizer que o capitalismo possui uma ontologia, uma essência, sem dúvida alguma pelo fato de que o mercado, considerado em toda a sua ex tensão e em tudo o que ele abrange, é harmonioso e sábio. Como Deus, ele também pode criar um bem a partir de um mal aparente. Da destruição, extrai a melhoria do destino da humanidade e o mais alto equilíbrio possível do todo.
Chegou o momento de colocar à prova sua ontologia. É hora de perguntar aos beneficiários do capitalismo e do sistema liberal, inclusive aos nossos Grupos de instruções, se estão preparados para aceitar as conseqüências aparentemente embaraçosas de suas convicções.
A biosfera e a sociedade civilizada podem suportar os níveis atuais e futuros da população? Poderá a cultura ocidental estar representada por 15%, depois 10% e depois 5% da humanidade? As pessoas e as nações mais produtivas devem sacrificar o seu bem-estar em nome de lucros problemáticos para os menos produtivos? Os países poderosos do momento renunciariam voluntariamente à sua autoridade? Essas são as perguntas que a nossa análise nos obriga a formular e a formular aos nossos Grupos de instruções; para nós, contudo, a resposta é negativa.
Nós examinamos longamente a probabilidade de uma catástrofe ecológica e os riscos da anarquia social. Falamos da miragem de um Estado previdenciário universal, e dissipamos a ilusão de uma humanidade sem excluídos. Advertimos para a loucura que seria o Ocidente renunciar, nesse quadro, ao seu poder e à sua cultura. Como Maquiavel dizia aos Médici há muito tempo, é necessário permanecer príncipe e, para isso, fazer o que for necessário, ou renunciar a permanecer príncipe. Não temos nenhuma dúvida de que os nossos Grupos de instruções decidirão permanecer príncipes. Então, a grande pergunta que se coloca é: o que é necessário para atingir esse objetivo?
۩ Estratégias equivocadas
Se no século XXI o capitalismo não puder continuar a se reproduzir em condições normais ou mesmo se perder simplesmente sua capacidade de reprodução, nos padrões demográficos previsíveis, estas condições terão então de ser alteradas.
Admitamos que uma declaração como esta caia nas mãos de moralistas assumidos: eles a denunciariam muito provavelmente como uma tentativa de promover um “genocídio”. Não se trataria apenas do uso impróprio da linguagem, pois não é isso que temos em mente.
O termo “genocídio” provém do grego genos, que significa “raça” ou “espécie”; designa exterminação sistemática dos membros de um grupo étnico ou lingüístico em particular. A história estendeu essa definição às tentativas de extermínio fundamentadas na religião, na cultura, nas convicções políticas e, em pelo menos um caso, na orientação sexual.
Neste século, aconteceram genocídios em grande escala. Diversas vezes, fanáticos dominados pelo poder obrigaram um grande número de contemporâneos a se submeter a suas concepções de pureza étnica ou política. Os nazistas colocaram a raça e o ódio aos judeus no centro de sua crença, o que não os impediu de se ocuparem também dos ciganos, dos homossexuais e dos comunistas.
O domínio de classe (ditadura do proletariado) foi o cerne teórico do stalinismo e dos gulags. Com o Grande Salto para o Futuro e a Revolução Cultural, os maoístas procuraram forçar a industrialização e obter a pureza e a uniformidade de um pensamento político “correto”. O Khmer Vermelho pretendia uma sociedade agrária fundamentalista da qual os intelectuais se riam excluídos. Os indonésios eliminaram os comunistas e os habitantes do Timor Leste em nome do nacionalismo. Na Ruanda superpopulosa, os hutus serviram-se do pretexto étnico para desapropriar as terras e os recursos de seus rivais, os tútsis.
Todos esses sistemas de genocídio basearam-se na discriminação, e os mais elaborados, como o nazismo e o stalinismo, apoiaram-se em uma ampla burocracia destinada a colocar em funcionamento uma complexa máquina de destruição. Contudo, eram primitivos, provincianos e incapazes:
• Esses sistemas eram custosos em termos de horas, pessoal, dinheiro e material. Poder-se-ia argumentar que, por felicidade, os nazistas per deram a guerra por terem destinado muitos recursos vitais à eliminação dos judeus, e que foram vencidos por suas obsessões racistas.
• Eram ineficientes. A responsabilidade de selecionar as vítimas pertencia aos administradores do Estado, o que implicava inevitavelmente corrupção, decisões individuais, incapacidade de organização, falhas burocráticas, e tudo o que se possa imaginar. Isso criou múltiplas vias de escape.
• Conferiam muito poder e responsabilidade ao Estado, exigindo o desenvolvimento de um aparelho administrativo terrível que apenas o objetivo do genocídio justificaria.
• Não passaram despercebidos. Apesar de uma cegueira voluntária amplamente difundida e dos solenes protestos de ignorância por parte dos cidadãos locais e estrangeiros, essas empresas de genocídio já eram bem conhecidas, e o seriam muito mais após os acontecimentos.
• Levaram os seus autores à ruína e à ignomínia. Seus subordinados, seus cúmplices passivos e todos aqueles que tiveram relação, em qual quer nível, com a empresa de genocídio foram indiciados como criminosos e condenados.
• Fracasso por completo. Os judeus não dispõem hoje de um Estado? Não conseguiram de maneira brilhante, em vários países, ocupar pos tos de prestígio e de grande responsabilidade em diferentes campos, tanto no setor público como no privado? Em que lugares, além de na Coréia do Norte e em Cuba, os stalinistas continuam no poder? A União Soviética ainda existe? Colocar essas questões significa respondê-las. Nem o Holocausto, nem o Gulag, nem a Revolução Cultural, nem o Khmer Vermelho sobreviveram, mesmo se levarmos em conta os seus próp ri os critérios.
۩ Uma balbúrdia diferente
Não temos nada parecido em mente. Em primeiro lugar, as nossas motivações não são ideológicas e não temos ódio por nenhum grupo em particular, seja ele étnico, racial ou religioso. Esses sentimentos são pueris e indignos. Além disso, não estamos falando aqui de uma utopia lunática (“o mundo será perfeito quando todos os judeus/inimigos de classe forem eliminados e o povo/indivíduo purificado”). Nossos objetivos são de preferência:
• criar um ambiente econômico que amplie as oportunidades individuais de sucesso e de se alcançar a felicidade;
• proteger um hábitat que proporcione as condições de vida necessárias para os seres humanos e para as outras espécies;
• manter a sociedade civilizada e a cultura ocidental.
O primeiro objetivo, a criação de um ambiente econômico favorável, exige que comecemos por determinar em quais condições será possível não instituir um modelo ideal de sistema definitivo, mas proporcionar o maior conforto possível para o maior número possível de pessoas. Se o capitalismo não estiver em condições de garantir a busca da felicidade mais do que qual quer outro sistema, ele não merece conservar seu lugar de superioridade. Um sistema fundado na concorrência não deveria temê-lo!
O sistema liberal, baseado na economia de mercado, não propicia atual mente felicidade, conforto e segurança suficientes para a maioria da humanidade; e não fará mais para as populações do futuro tal como se previa:
trata-se de informar o que não se pode ignorar. Nós duvidamos de que um outro sistema pudesse consegui-lo, mas essa dúvida não nos compete, no contexto deste Relatório. Mesmo nos países em que houver um equilíbrio maior, não serão todos os cidadãos que poderão possuir e acumular capital ou saberão, na qualidade de empreendedores, aceitar os riscos. Ao contrário, o mercado de trabalho é exatamente isto, um mercado, que obedece às regras do mercado.
Segundo o princípio fundador da concorrência, o mercado mundial aceita os melhores e rejeita os demais. Hoje, embora ninguém o saiba com segurança, é quase certo que os “demais” são muito mais numerosos do que aqueles que graças aos seus talentos, aptidões, educação, qualidades morais e nascimento tiveram a oportunidade de ocupar um lugar no sistema. A própria Organização Mundial do Trabalho estima em mais de um bilhão o número dos que não fazem parte da força de trabalho; se acrescentarmos a isso todas as pessoas que dependem destes, podemos imaginar a importância dessa categoria.
Nosso segundo objetivo, defender a qualidade do hábitat, está curiosa- mente próximo dos caminhos mostrados por aquilo que chamamos movimento de “ecologia profunda”. Se estamos longe de aprovar todas essas premissas, ressaltamos com interesse a seguinte declaração, que aparece no seu programa.
O florescimento da vida humana e das culturas é compatível com uma diminuição substancial da população humana. O florescimento da vida não humana exige essa diminuição [ nossos]. Devemos então modificar as estratégias políticas.
A “ecologia profunda” não nos diz como obter essa diminuição substancial, nem quais estratégias políticas seria necessária modificar para consegui-la. Ela se satisfaz com ressaltar a evidência. Até onde sabemos, ninguém colocou ainda esses ecologistas na prisão por advogarem o genocídio.
Hoje, não podemos realizar o terceiro objetivo, ou seja, o da manutenção da sociedade civilizada e da cultura ocidental, empregando os mesmos métodos usados no decorrer da maior parte da história registrada. Durante séculos, a política e as guerras consistiram em tomar o maior controle possível de grande parte da população. A integração das numerosas populações estrangeiras em um imperium não ameaçava a sociedade civilizada, mas a reforçava. Mesmo se as hordas dos bárbaros ou dos mongóis só procuravam violar ou pilhar e se às vezes era necessário destruir uma cidade para dominar, a melhor estratégia consistia em “permitir aos povos conquistados continuar vivendo segundo suas próprias leis, submetidos a um tributo regular, e instituir nas suas casas um governo de poucos, os quais manteriam as nações conquistadas amigas do conquistador”.
Da época dos gregos e dos romanos às conquistas coloniais do século XIX, os conquistadores mais inteligentes sempre procuraram não apenas monopolizar a terra e os recursos dos países conquistados, mas também integrar as suas populações, pois elas representavam posses importantes. A mão-de-obra, freqüentemente sob a cruz e a espada dos colaboradores locais constituídos em oligarquias, era, de fato, uma fonte suplementar de riqueza e poder. Hoje, a idéia de possuir colônias é um tanto cômica: primeiro porque a posse pode ser adquirida mais facilmente por outros métodos e, segundo, porque as populações coloniais são, além de inúteis, um fardo.
O Enclosure Movement* na Grã-Bretanha foi o sinal. Espoliou milhares de pequenas fazendas e criou uma população flutuante. Contudo, até que as máquinas da Revolução Industrial deixassem uma massa de artesãos tradicionais desempregados, o problema de uma população numerosa demais nunca foi colocado.
Até os dias de hoje, a sociedade sempre pôde contar com diferentes válvulas de escape, e sobretudo com os célebres “controles” malthusianos, como a fome. Além disso, a mão-de-obra em excesso e os desajustados sociais podiam ser mandados para as novas terras que vinham sendo descobertas na América do Norte e na Austrália; foi o que fizeram 50 milhões de europeus no século XIX. Em outros lugares, as colônias, em particular na África e no subcontinente indiano, contribuíram também para atenuar esse problema.
Os exércitos nacionais se propuseram a alistar e disciplinar um número de jovens cujo comportamento, de outra forma, teria sido anti-social. Esperava-se que as famílias cuidassem dos membros indigentes. A caridade organizada se desenvolveu ao mesmo tempo em que a Revolução Industrial se desenvolvia, assumindo as conseqüências mais desagradáveis.
Desses luxos, não desfrutamos mais. O mundo está cheio, e não existem mais espaços vazios para onde enviar emigrantes, onde instalar colônias. A maior parte das forças armadas tornou-se profissional e não cumpre mais uma missão disciplinar em relação à juventude. No Norte, as famílias são nucleares, alojadas em um espaço estreito e sem tempo para cuidar de seus parentes pobres, doentes ou idosos. A idéia de que a caridade privada ou mesmo as ajudas públicas pudessem vencer o conjunto de males atuais da sociedade é absurda.
O problema, portanto, não é saber se devemos diminuir considerável mente a população, mas como fazê-lo. Em vista disso, comecemos por definir alguns princípios gerais, fazendo referência explícita (e seguindo a mes ma ordem) aos erros dos velhos métodos de genocídios que identificamos anteriormente e que qualificamos de “primitivos, provincianos e incapazes”.
• As estratégias modernas para reduzir a população terão forçosamente um custo. Deverá ser o menos elevado possível, pois elas não necessitam de nenhum equipamento especial e praticamente não utilizam a força humana. O modelo Auschwitz é o contrário do que é necessário para se atingir o objetivo. Por isso, é muito mais importante redirecionar os custos do que obter novos fundos.
• A seleção das “vítimas” não deverá ser preocupação de ninguém a não ser das próprias “vítimas”. Elas mesmas se escolherão pelos critérios de incompetência, incapacidade, pobreza, ignorância, preguiça, criminalidade e assim por diante; quer dizer, elas se encontram no grupo dos pobres.
• O Estado deveria ter relativamente poucas responsabilidades na administração da população e, de qualquer forma, muito menos tarefas para assumir, como a administração das prisões, dos seguros de desemprego, da administração geral de diferentes ajudas sociais etc. So mos partidários de uma redução do aparelho de Estado e da diminuição de seu papel nos negócios individuais. Insistimos assim que o Estado tome o exemplo do setor privado também na área do controle populacional.
• Em relação à visibilidade e à percepção pública, sugerimos dois tipos de estratégias. Controle “preventivo” da população, fundamentado em um planejamento familiar: isso será visível e encarado como parte de um programa político normal. Além disso, sugerimos estratégias de “tratamento” ou “saneamento” para se encarregarem dos que já nasce ram, sem que pareça que há uma administração particular por trás disso. Não há nenhum vilão nesse cenário.
• Naturalmente, não se levantará o problema da ignomínia.
• Ponderadas com precisão, com suficiente energia moral e compromissos financeiros por trás, essas estratégias, utilizadas simultaneamente, poderão ter êxito. A tarefa do Grupo de trabalho é analisá-las; a energia e as contribuições devem vir dos Grupos de instruções e de seus aliados.
O século XXI deverá escolher entre a disciplina e o controle, de um lado, e a desordem e o caos, do outro. A única maneira de assegurar um máximo bem-estar a um maior número de pessoas, preservando o capitalismo, é diminuindo a população. Chegamos a essa conclusão antes de ter avaliado cuidadosamente as soluções alternativas. Se não fizermos nada, um Grupo de trabalho semelhante ao nosso continuará se reunindo para saber se a anarquia social precederá, seguirá ou acompanhará o aniquilamento ecológico, mas as questões fundamentais serão colocadas de forma pouco positiva para a civilização. Pedimos aos Grupos de instruções que tenham consciência de que a nossa mensagem não consiste simplesmente em dizer que “os fins justificam os meios”, embora isso pudesse ser verdade. E é melhor que a cultura ocidental e o sistema liberal decidam, no século XXI, o que é melhor: os fins ou o Fim.
۩ A população atual e os objetivos para o futuro
O primeiro objetivo é determinar, para o próximo século, qual será o melhor nível populacional a permitir um funcionamento o mais flexível possível da economia de mercado mundial que assegure a harmonia ecológica e social e o bem-estar para a grande maioria.
Em função das hipóteses baixas, médias, altas ou constantes
das taxas de natalidade escolhidas, as Nações Unidas estimam que em 2020 a
população mundial deverá se situar entre 7,2 e 8,5 bilhões. Visto que a
natalidade parece efetivamente declinar em quase todos os lugares, não levaremos
em consideração a hipótese de natalidade constante, cujo resultado numérico
seria de 8,5 bilhões de habitantes no ano 2020. A hipótese das Nações Unidas,
contudo, com sua estimativa de 7,2 bilhões, nos parece muito otimista, pois
seria necessário que em duas décadas a taxa de nascimentos nos países pobres
diminuísse voluntariamente 40% em relação à de hoje!
Como já vimos, as Nações Unidas estimam que a população mundial aumenta em torno
de 81 milhões de pessoas por ano (aproximadamente 133 milhões de nascimentos
para 52 milhões de mortes). Para se ter uma imagem mais concreta, isso significa
que nascem 15 mil crianças por hora, ou 250 por minuto, e que morrem 6 mil
pessoas por hora, ou 100 por minuto.
Da mesma forma, ressaltamos que numerosos especialistas se dizem céticos diante desses números e consideram que eles subestimam sistematicamente a população mundial, e que a ONU é obrigada a acreditar (e publicar) o que os diferentes governos dizem. Segundo esses especialistas, o crescimento atual da população estaria mais bem situado entre 90 e 100 milhões por ano.
Definitivamente, não estamos em condições de contestar esses números, nem de concordar com eles (ninguém está), mas escolhemos fundamentar nossos cálculos nas cifras mais altas da ONU, considerando que sejam mais próximas da realidade. Essas previsões nos falam de 8 bilhões de pessoas em 2020.

Nesse mundo de 8 bilhões de indivíduos, se nada interferir com as tendências atuais, a população das regiões menos desenvolvidas atingirá quase 7 bilhões em 2020: ou seja, 50% mais que em 1995. Essas regiões representarão 84% da humanidade, contra os 79% atuais. Ao contrário, a população das regiões mais desenvolvidas praticamente não terá mais aumentado.
As dinâmicas internas das regiões mais e menos desenvolvidas contrastarão também intensamente. A densidade da população dos países ricos, para começar, se estabilizará na média de 23 pessoas por quilômetro quadrado, em 2020: número potencialmente idêntico ao de 20 em 1975 e ao de 22 em 1995. Os países pobres, por outro lado, contarão, em 2020, com uma mé dia de 78 pessoas por quilômetro quadrado (e eles contavam com 37 em 1975 e 55 em 1995).
Naturalmente, enormes disparidades de densidade populacional
existem nessas duas regiões; há 4 habitantes por quilômetro quadrado no Canadá,
24 no Brasil, 387 na índia, 396 nos Países Baixos e 524 na Coréia. Mas apenas
uma pequena parte das terras no mundo é fértil. A superpopulação e a degradação
do meio ambiente, na maior parte do Sul, apresentam um crescimento vertiginoso.
Os habitantes procurarão inevitavelmente escapar a essas condições.
A distribuição das faixas etárias terá também uma profunda influência.
Os números da Tabela II apontam os futuros conflitos. No mundo rico do ano 2020, menos de um quarto da população terá mais de 60 anos (18%, quase uma pessoa em cinco, terão mais de 65 anos). Uma grande parte do poder político se encontrará nas mãos de indivíduos relativamente idosos.

Os que estiverem na idade mais produtiva, entre 24 e 59 anos, constituirão bem menos da metade da população dos países desenvolvidos. Contudo, serão responsáveis pelo mesmo número de crianças que em 1995, enquanto lutarão para permitir que seus filhos mais velhos continuem os estudos até o curso superior, o que será indispensável para que eles se saiam bem em um mundo competitivo globalizado. Ao mesmo tempo, serão pressionados a cuidar dos pais idosos ou a pagar por isso. A idade média, nesses países ricos, será de 41 anos. Entre pais, filhos e trabalhos cada vez mais exigentes, esses indivíduos estarão submetidos a uma pressão constante, e é pouco provável que venham a ter o tempo e o desejo de responder aos chamados de desespero vindos dos 84% restantes da humanidade.
No mundo subdesenvolvido, onde mais da metade da população tem hoje menos de 24 anos de idade, o número de jovens terá declinado ligeiramente em 2020 para se fixar em torno de 46%. E 43% da população total estará entre os anos mais produtivos; terá, certamente, muitos filhos para educar, mas não terá problemas com pessoas idosas: apenas 10% da população terá mais de 60 anos, e 6,8%, mais de 65 anos, o que é quase três vezes mais do que nos países ricos.
Nesse mundo pobre e com um baixo nível de educação, a energia sem freio da juventude terá a oportunidade de prevalecer: a idade média que hoje é de 24 anos será então de 27. Desejarão que suas exigências sejam satisfeitas por seus governos e por todo o mundo. Todos esses fatos e números apontam na mesma direção: segundo nosso ponto de vista, o objetivo para 2020 deveria ser a redução de um terço das cifras atuais, isto é, passar de 6 para 4 bilhões. Para apresentar de outro modo, devemos procurar reduzir pela metade a hipótese das c mais elevadas das Nações Unidas, que prevêem 8 bilhões de pessoas em 2020.
Essa é a razão por que, nas últimas etapas da preparação deste Relatório, adotamos a abreviação “2020 — 2” (2020 menos 2), pois o ponto de parti da, hoje, situa-se em 6 bilhões. Poderíamos também escrever “2020 : 2” (2020 dividido por 2), ou seja, de 8 para 4 bilhões; mas, qualquer que seja a fórmula, o esforço do empreendimento é monumental.
Esse objetivo representa um retorno à situação em que nos encontrávamos em 1975, quando o planeta contava com 4 bilhões de indivíduos, dos quais um quarto vivia no mundo chamado desenvolvido. Foi um período relativamente de paz e de prosperidade: o trauma provocado pela Guerra do Vietnã havia passado, os países menos desenvolvidos encaravam o futuro com otimismo e as pessoas comuns dos países mais desenvolvidos desfrutavam um nível de vida sem precedentes. O meio ambiente não havia ainda sofrido os choques terríveis que sofre hoje. Em resumo, o mundo talvez não fosse perfeito, mas era possível administrá-lo.
Para que possamos de novo controlá-lo, a curva da Figura 1 exprime o cenário ideal; ela exige que os preparativos para encaminhar as nossas recomendações comecem imediatamente. Partindo de 6 bilhões de habitantes no ano 2000, a nossa meta é restabelecer a cifra de 4 bilhões em vinte anos. A curva continuaria a subir no início, mas no estágio final teria um declínio anual de 280 bilhões de unidades. Nosso calendário prevê que a população mundial atingirá o valor máximo de 6,4 bilhões em 2005. Cinco anos mais tarde, em 2010, ela deverá ter reencontrado o seu nível atual de 6 bilhões. E seguirá em um declínio absoluto e mais rápido até 2020.

Onde ocorrerão essas diminuições? No momento, o mundo desenvolvi do “contribui” mundialmente com menos de 10% dos nascimentos e com 23% das mortes. Ou seja, dos 81 milhões de pessoas que são somados a cada ano à população mundial (usando ainda uma vez as cifras da ONU), os países desenvolvidos contribuem com apenas um milhão. Em alguns casos raros, como na Alemanha, a população nativa encontra-se na verdade em declínio. Podemos atribuir exclusivamente às comunidades de imigrados o crescimento populacional.
A cifra que nos interessa é a dos 80 milhões de pessoas que os países pobres acrescentam à população mundial, segundo as estimativas mais cautelosas. Se nada mudar, esses 80 milhões serão 90 em 2005 e 100 em 2020. Se as cifras da ONU para o presente se revelam muito baixas, imaginemos os resultados catastróficos que terão em 2020, se nada mudar durante esse período.
Para alcançar nossa meta de quatro bilhões em 2020, é necessário reduzir a população em cem milhões por ano, aproximadamente, no decorrer de duas décadas. Nove décimos, ou mais, dessa redução deverão ocorrer nos países menos desenvolvidos. Os esforços devem se dar no sentido de aumentar a mortalidade e diminuir a natalidade em proporções que devem variar de acordo com o momento e as circunstâncias.
Por razões óbvias, podemos fornecer apenas uma orientação geral e não certezas matemáticas. Muitos dos fatores envolvidos estão além do controle de qualquer um: obstáculos e oportunidades surgirão sem aviso. Reconhece mos que a tarefa é hercúlea, mas isso não será desculpa para não a levarmos adiante. Se ela tem de ser cumprida, exigirá todas as energias e todos os meios à disposição dos Grupos de instruções.
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O Mercado da Fome: as Verdadeiras Razões da Fome no Mundo Susan George |
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O Relatório Lugano Susan George |