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EUA de Bush seguem 10 passos para virar ditadura, diz pensadora americana |
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Daniel Buarque do G1, em São Paulo
30/04/2007 - 10h05 - Atualizado em 30/04/2007 - 10h37
G1 entrevistou Naomi Wolf, principal nome do feminismo contemporâneo. Ela vai lançar o livro ‘O fim da América - Uma carta alerta a um jovem patriota’.
Há semelhanças entre os Estados Unidos de George W. Bush e a Alemanha de Hitler? E com a ditadura chilena de Pinochet?
Sim, e são várias, responde a pensadora
norte-americana Naomi Wolf, principal nome do feminismo
contemporâneo e referência em filosofia política progressista.
Em entrevista ao G1, por telefone, de Nova York, ela disse que os
Estados Unidos estão seguindo dez passos semelhantes aos que
seguiram todos os outros regimes que deixaram a democracia e se
tornaram ditaduras, de direita ou de esquerda, de Hitler a Pinochet.
Seu próximo livro, que vai ser lançado em setembro nos Estados
Unidos, tem já no título este diagnóstico, vai se chamar “O fim da
América – Uma carta alerta a um jovem patriota”.
Entre as coincidências, Wolf cita a referência a uma ameaça
permanente (o terrorismo para Bush e os judeus para Hitler), a
criação de um gulag (a prisão de Guantánamo para Bush e as prisões
russas de Stálin) e perseguições e prisões arbitrárias (o Patriot
Act de Bush, que suprimiu direitos civis, e as mais de 3.000 mortes
da ditadura de Pinochet).
G1 – O título do seu livro fala em “fim da
América”. O que a leva a considerar esta possibilidade?
Naomi Wolf – Meu livro é uma análise apartidária e objetiva de
evidências reais de que o país que se proclama a mais perfeita
democracia do planeta está cada vez menos democrático. Quero mostrar
que há um padrão histórico para fechamento de democracias seja no
comunismo da União soviética, da China, na Alemanha nazista, na
América Latina nos anos 60 e 70, todos seguiram os mesmo passos ao
deixar de lado a democracia e se tornarem ditaduras. São processos
bizarramente similares na história, e está começando a acontecer nos
Estados Unidos. Não estou fazendo retórica ou oposição política.
Os dez passos são: a referência a uma ameaça permanente (no caso, o
terrorismo); criação de um gulag (a prisão de Guantánamo); formação
de uma casta violenta (republicanos radicais); montagem de um
sistema de vigilância interno (espionagem de cidadãos); opressão de
grupos cidadãos (grupos contra a guerra são ameaçados); perseguição
e permissão de prisões arbitrárias; ameaça a cidadãos; controle da
imprensa; tratamento de dissidência como traição; suspensão do
Estado de Direito. Isso é o que o governo Bush está fazendo com o
país.
G1 – A sra. diz que não seria diferente se
Hillary Clinton se tornasse presidente agora. Acha que seria
diferente se Al Gore tivesse vencido as eleições em 2000?
Wolf - Acho que seria bem diferente, se Gore tivesse se tornado
presidente, mas agora pode ser tarde demais.
É muito perigoso desmontar o delicado sistema de freios e
contrapesos que faz com que exista um equilíbrio entre os três
poderes, necessário para o funcionamento de uma democracia. Quando a
democracia norte-americana foi fundada, os "founding fathers" (“pais
fundadores”, membros da assembléia constituinte que criou os Estados
Unidos em 1787) sabiam que a natureza humana é falha e que qualquer
ser humano se corrompe quando tem poderes ilimitados. No ano 2000 o
país ainda funcionava plenamente com equilíbrio entre os três
poderes, e Al Gore teria respeitado este sistema, se tivesse sido
eleito em 2000, por acreditar neste sistema. A estrutura de então
garantia que nem o Executivo, nem o Judiciário nem o Legislativo
tinha poderes em excesso. Se qualquer outra pessoa assumir a
Presidência agora, depois que o sistema de freios e contrapesos foi
destruído pelo governo Bush, vai se sentir completamente tentada
pelo excesso de poder, que corrompe.
G1 – Essa é a idéia central do seu
trabalho, a corrupção do poder?
Wolf - É um exemplo histórico que se repetiu dezenas de vezes em
todo o mundo. Pessoas bem-preparadas, bem-intencionadas, chegam ao
poder, mas ,se não há um sistema democrático equilibrado, cede à
tentação de poder sem controles. O sistema falho corrompe facilmente
qualquer pessoa. Isso aconteceu na Europa, na América Latina, no
próprio Brasil. É responsabilidade desse equilíbrio do sistema
manter todos os líderes na linha. Manter a democracia precisa não
apenas de eleição e votos. É preciso ter pessoas que acreditam na
democracia, mas também um sistema equilibrado de freios e
contrapesos.
G1 – Como a população norte-americana vê
esse processo de desequilíbrio na democracia?
Wolf - Os norte-americanos têm o que chamo de ‘vício em democracia’.
Eles acham que só porque estão nos Estados Unidos, o sistema não
pode ser corrompido. O problema é que até mesmo os fundadores do
país, os homens que votaram a nossa Constituição, pensavam
diferentemente, sabiam da delicadeza e da fragilidade da democracia.
Eles vinham de um sistema que não era democrático, por isso tinham
medo de perder este equilíbrio. Acho que precisamos ficar
aterrorizados com o que está acontecendo atualmente com nosso país.
G1 – O governo Bush tem consciência de
estar desmontando o sistema democrático ou está sendo um processo
natural e impensado?
Wolf - Não estou tentando fazer nada além de reunir evidências de
que isso de fato está acontecendo a fim de mostrar a realidade para
a sociedade e os líderes da nossa nação e do mundo para que as
pessoas tenham consciência do que está acontecendo. Não podemos
saber quais as intenções do nosso governo atual são. O que podemos
fazer, entretanto, é reunir o povo e olhar para a história, para que
todos tenham noção real do que está acontecendo e saibam o quão
perigoso é este processo.
G1 - O quanto a sra. acha que os Estados
Unidos estão próximos, ou distantes, de deixar a democracia de lado
permanentemente e se tornar uma ditadura?
Wolf - Isso depende de nós. Essa é a beleza de uma democracia e a
tristeza de uma sociedade fechada. Ainda vivemos numa democracia,
por mais que haja problemas, e a nação ainda pode ser mudada por
seus cidadãos. Se amanhã a população acordar e decidir mudar este
processo, é fácil fazê-lo. Isso vai além de partidarismo e depende
de nós.
Pelo outro lado, se a população dos Estados Unidos preferir ignorar
o que está acontecendo na política e, em vez disso, ficar focada
apenas no American Idol, ou na Britney Spears, podemos mais uma vez
olhar para a história e ver que estamos seguindo o exemplo de países
que chegaram a uma situação tão fechada à sociedade que não havia
mais retorno. A hora de acordar é esta.
G1 – Qual a responsabilidade da mídia com
esta situação?
Wolf – Ela tem responsabilidade nessa hora de acordar a população,
por isso acaba sendo uma pás primeiras a sofrer com o fechamento da
liberdade social. Um dos capítulos do meu livro se chama “Punição à
imprensa”, e trata da forma como os jornalistas se tornam alvo
sempre que aparece algum sistema mais fechado, ditatorial, que se
sente ameaçado pela liberdade de imprensa.
G1 - A sra. se sente ameaçada por fazer
críticas ao sistema?
Wolf - Claro que me assusta. Sei que, ao fazer este tipo de
críticas, entro numa lista de opositores, que descobri já ser
imensa, e que pode ser atacada, no caso de um fechamento total do
sistema. Não quero dizer que me sinto pessoalmente mais apreensiva
de que o resto da sociedade deveria ficar. Acho que há o perigo, e
se olhamos mais uma vez o exemplo histórico, os primeiros a serem
perseguidos são os mais altos líderes oposicionistas e os
intelectuais que criticaram o governo, e os jornalistas. É um
padrão. Não acho que temos o direito de nos dar o luxo de esperar
para ver.
G1 - Que conseqüências sentiria o resto do
mundo, se os Estados Unidos se tornassem uma ditadura?
Wolf - Não poderia ser bom. Concordo plenamente com uma frase que [o
democrata] Barack Obama usou, para falar do governo Bush: O papel de
líder do planeta ficou vago ao longo dos últimos anos, porque Bush
não o assumiu. O mundo precisa que os Estados Unidos sejam uma nação
livre. Os Estados Unidos são a nação mais poderosa do planeta, e
deveriam ser um modelo a ser seguido.
Mas a partir do momento em que estamos torturando pessoas, não temos
moral para lutar para que o mundo seja um lugar livre de tortura. Os
Estados Unidos não estão se comportando como um modelo para o
planeta. Acho que se o mundo perder isso definitivamente, chegaremos
a uma situação de barbárie globalizada.
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Fascismo eterno
Em texto publicado no “New York
Review of Books” em junho de 1995, o filósofo italiano Umberto Eco
elencava as 14 características fundamentais de todos os regimes
fascistas da história.
“Estas caractErísticas não podem ser organizadas num sistema; muitas
delas contradizem umas às outras, e também podem ser exemplos de
outros tipos de despotismo ou fanatismo. Mas é a presença de um
deles é suficiente para que o fascismo se forme em torno dele”,
dizia Eco.
A versão de Eco é muito mais filosófica, profunda e idealizada de
que a de Naomi Wolf, que se baseia em exemplos reais para analisar
os Estados Unidos, mas mesmo aqui é possível reconhecer algumas
características comuns ao que se vê atualmente na maior potência do
mundo.
As características são:
1 - Culto à tradição
2 - Rejeição à modernidade
3 - Culto da ação pela ação (descrédito da atividade intelectual)
4 - Ataque ao espírito crítico
5 - Medo da diferença, racismo e ataque à diversidade
6 - O fascismo eterno deriva de frustrações individuais ou sociais
7 - Entre pessoas sem identidade social, o fascismo ressalta o
privilégio comum de nascimento num mesmo país
8 - Os seguidores devem se sentir humilhados pela ostentação,
riqueza e força dos seus inimigos
9 - Não há luta pela vida, mas a vida é vivida pela luta
10 - Desprezo pelos mais fracos
11 - Todos são educados para se tornarem heróis
12 - Levado pelo heroísmo e pela guerra, o fascismo universal
reforça o sentimento machista
13 - Populismo seletivo, dando a impressão de que o povo tem voz,
enquanto é governado com mão de ferro
14 - “Novilíngua”: empobrecimento do vocabulário e da sintaxe para
limitar o pensamento.