A desocupação violenta da Casa da Juventude em Copenhague
Copenhague, contracultura e repressão
A desocupação violenta da Casa da Juventude
Ungdomshuset, em março, foi marcada por uma articulação incomum das
polícias européias. Terá sido um ensaio sobre como conter os
movimentos sociais e o altermundialismo no continente?
René
Vásquez Díaz - Le Monde Diplomatique
http://diplo.uol.com.br/2007-04,a1549
De manhã bem cedo, no dia 1º de março, com uma imponente precisão
militar, uma grande demonstração de forças da lei bloqueia o setor
da Casa da Juventude (a Ungdomshuset) num bairro popular de
Copenhague. O alvo é um prédio de quatro andares – lugar da
contracultura européia cedido pela cidade em 1982, mas revendido
pela nova prefeitura a uma seita cristã, sem o consentimento de seus
ocupantes. Em algumas horas, o local foi ocupado como se um grupo de
terroristas estivesse lá — e não 40 jovens sem armas, cuja faixa
etária média não passava dos vinte anos.
A evacuação começa. A polícia utiliza novos equipamentos. Possantes
canhões aspergem nas portas e janelas uma estranha goma, que
endurece instantaneamente e impede os ocupantes de abri-las.
Simultaneamente, os membros de elite da brigada anti-terrorrista,
armados até os dentes, chegam pelo teto, em um helicóptero. Ao que
tudo indica — as autoridades confirmarão depois — a operação foi
minuciosamente preparada por longo tempo.
Após o assalto e a evacuação de Ungdomshuset, passeatas de protesto,
num primeiro momento pacíficas, tomaram as ruas. A polícia cerca os
manifestantes, perde o sangue-frio, e rapidamente deflagra a
violência. Prisões em massa, às cegas, traumatizantes, se sucedem.
Por todos os lados, vemos jovens, para não dizer crianças, algemados
nas calçadas: cenas que lembravam situações de guerra, com
helicópteros sobrevoando sem parar a zona de operações.
Ao som de Manu Chao, a resistência dribla a repressão
Logo, os contestadores começam a contra-atacar. Ao grito de “a rua é
nossa!”, automóveis são virados e incendiados. Com a ajuda de
contêineres, latas de lixo e bicicletas, os jovens formam
barricadas. Lançam, de início, pedras do calçamento e garrafas.
Depois, com a gasolina dos veículos revirados, fazem coquetéis
Molotov, que atiram contra as filas compactas das forças da "lei". A
cena, com os berros, as chamas, os choques, a fumaça, fazia alusão à
guerrilha urbana vista no Oriente Médio.
Cada vez que as investidas brutais da polícia chegavam a dispersar
grande parte dos manifestantes, pequenos grupos se juntavam em ruas
adjacentes, colocando fogo em latas de lixo e incendiando carros. As
ações espontâneas e descentralizadas, que surpreenderam
continuamente os policiais, foram coordenadas por mensagens enviadas
via telefones celulares. Em matéria de ação psicológica, os jovens
deram, igualmente, provas de imaginação. Fizeram-se ouvir, com muito
sucesso, no meio da violência do conflito: usaram um caminhão
equipado com enormes auto-falantes, canções de Manu Chao e outros
artistas altermundialistas.
Enquanto isso, oito fileiras de policiais e veículos anti-motins vão
bloquear o acesso à Ungdomshuset. Sem motivos legais precisos, a
polícia procura os estrangeiros implicados na desordem. A batida
policial dura seis dias e seis noites, todo o tempo das
hostilidades. Elas acontecem, por exemplo, na Casa da Solidariedade
(Solidaritetshuset) e em numerosas residências particulares em
diversos bairros de Copenhague. É assim que mais de 140 estrangeiros
são presos, não acusados de um delito ou de um crime qualquer, mas
com base em uma “presunção de periculosidade” e a fim de evitar que
participem de ações futuras [1].
Brutalidade policial e clara presença de reforços estrangeiros
Ao lado do uso excessivo da força, os estratagemas da polícia
surpreenderam pela sua ilegalidade: uma multidão de menores, daqui
em diante fichados, foram interrogados, mas seu número exato não foi
divulgado. Controle das fronteiras. Grande número de corpos
policiais e veículos anti-motim mobilizados. Gás lacrimogêneo,
Brutalidade dos ataques contra os manifestantes, com equipamento
especial, Prisões maciças e arbitrárias. Tudo isso fez uma imagem da
polícia militarizada que -– como na Itália, em julho de 2001, contra
o Fórum Social de Gênova -– mostrou uma tendência preocupante de
agir fora do âmbito democrático.
Para esta batalha de Copenhagem, foram chamados reforços de outros
países. Por exemplo, cerca de 20 veículos policiais suecos, chegaram
de Malmö, do outro lado de Oresund. Cinco altos responsáveis das
forças de ordem suecas foram deslocados para observar os métodos
repressivos de seus colegas dinamarqueses. Testemunhas revelam que
agentes civis, equipados com fones de ouvido característicos, iam e
vinham no meio do conflito, comunicando-se em outras línguas
(alemão, francês e inglês).
Em resposta à pergunta de um jornal, o porta-voz da polícia de
Copenhague negou categoricamente a presença de unidades ativas
vindas de outros países. Entretanto, reconheceu que “se houve”, eram
“na qualidade de observadores”. Outros analistas puderam constatar
que as forças de lei dinamarquesas utilizaram uma tática policial
francesa colocada em prática em 2006, nas grandes manifestações
parisienses contra o projeto de Lei do Primeiro Emprego [2].
Os jovens militantes coordenaram suas ações por meio de uma rede
sofisticada de sites da Internet, por meio dos quais pode-se
acompanhar a evolução dos confrontos hora após hora, com informações
detalhadas dos movimentos da polícia. Uma das novas prioridades das
forças de lei será piratear essas comunicações.
Metonímia: destruir o lugar para enterrar a luta
Em 5 de março, no meio de um bloco policial de ferro, a Casa da
Juventude foi finalmente demolida por operários munidos de máscaras
e que utilizavam buldôzeres e escavadoras. O nome da companhia
proprietária foi dissimulado. Com a destruição da Ungdomshuset, uma
parte essencial da história do movimento operário dinamarquês
desaparece. A mídia não explicou suficientemente as razões do ódio
que esse lugar inspirou em certos círculos. A vontade de colocar fim
a um conflito que opôs jovens às instituições durante de 24 anos não
constitui o único motivo da intervenção.
Desde sua construção, em 1897, este edifício foi a sede da Casa do
Povo (Folket Hus), importante local de agitação política do mundo
operário pobre de Norrebro. Personalidades como Lenin e Rosa
Luxemburgo passaram por lá. Em 26 de agosto de 1910, uma conferência
internacional de mulheres socialistas tilintou no local, na ocasião
em que Clara Zetkin lançou a idéia de criar um Dia Internacional da
Mulher. A partir desta perspectiva histórica, compreende-se a pressa
quase desesperada das autoridades dinamarquesas em destruir o
imóvel.
Em 1982, após quase dois anos de conflito, a prefeitura de
Copenhague terminou por autorizar os jovens a utilizar a casa. No
entanto, em 1999, novos governantes decidiram seu fechamento. A
classe política estimava que as atividades não “eram satisfatórias”
e que o imóvel estava em mau estado por causa de um incêndio em
1996. Por seu lado, os jovens “anti-sistema”, defendiam seu direito
de expressão, com sua tradição de luta, e porque dispunham de quatro
andares e um subsolo alojando uma livraria, sala de concertos, salas
de ensaio, estúdio de gravação, imprensa, numerosas salas de reunião
e cozinha coletiva.
Com mais de quinhentos visitantes por semana, a Ungdomshuset
constituía uma forma radical de pensamento alternativo. Esse centro
de atividades culturais, sociais e políticas, repousado na
tolerância, responsabilidade e solidariedade, sem discriminação
racial nem sexual, ostentava um desprezo total pela sociedade de
consumo. Os jovens, independentes, não esperavam particularmente
mudar a sociedade. Portanto, não representavam um perigo para o
Estado. Apenas exigiam que os deixassem desenvolver sua cultura à
sua maneira.
Em vez da comunidade tolerante e responsável, os fundamentalistas
Em 2000, o governo municipal de tendência social-democrata vendeu o
imóvel à seita Faderhuset (Casa do Pai). Esse grupo religioso
fundamentalista, cujo dirigente (Knut Evensen) escuta somente as
indicações que chegam a ele “diretamente de Deus”, sustenta a
cruzada contra os muçulmanos da Dinamarca. A venda constituiu um ato
de guerra simbólico, tornando o conflito insolúvel. Os jovens
rejeitaram todas as propostas de mudança, recusando a intervenção de
educadores e assistentes que enquadrariam seu tempo livre, assim
como seu modo de pensar. O conflito foi então deslocado para o
terreno do direto à propriedade privada e a evacuação requerida pela
seita obteve cobertura legal.
Aos violentos protestos seguiram-se repetidas manifestações
pacíficas. Em 8 de março, uma marcha de mulheres juntou mais de três
mil pessoas. A polícia efetuou controles de identidade
generalizados. A Dinamarca jamais havia conhecido esse tipo de
estado de sítio policial. Mais de 750 pessoas foram detidas — dentre
elas, aproximadamente 140 estrangeiros.
A zona metropolitana de Copenhague reúne pouco mais de um milhão de
habitantes. A polícia não tem meios de abrigar, nem de interrogar
tal quantidade de detidos. Muitos dentre eles foram transportados
para a ilha de Fyn e Jylland. Um estabelecimento penitenciário de
Copenhague teve que ser parcialmente esvaziado para poder alojar os
jovens detidos. De 10 a 19 de março, Norrebro e Christianshavn foram
decretadas zonas nas quais todos cidadãos estavam expostos a ser
revistados e fichados, mesmo na ausência de qualquer suspeita. A
medida, única em tempos de paz, seria suficiente para testemunhar a
incapacidade das autoridades de controlar a situação. No entanto,
segundo a polícia, a operação “foi um sucesso”, pois graças ao
grande número de detenções, e apesar da violência dos conflitos,
contaram-se poucos feridos.
Que dose de violência pode suportar uma democracia?
Como se explica essa repressão desmesurada? Para o professor Lars
Dencik, da Universidade de Roskilde, a Dinamarca preparava-se para
enfrentar terroristas perigosos em seu território. Como nada do tipo
acontece, viu-se na evacuação da Casa da Juventude uma ocasião de
ouro para testar suas forças de elite. Mikael Rothstein, da
Universidade de Copenhague, estima que alguma coisa grave aconteceu.
Conhecida como um dos países mais tolerantes e livres da Europa, a
Dinamarca tornou-se “retrógrada”, “de espírito limitado”.
O atual governo, uma coalizão liberal-conservadora (dirigida pelo
primeiro-ministro Anders Fogh Rasmussen desde 2001 e sustentada pela
extrema direita xenófoba e ultranacionalista) entregou a essa
ocasião uma batalha política e sobretudo cultural contra todo tipo
de oposição.
Pouco a pouco impõe-se um nivelamento das escolhas ideológicas.
Mesmo em matéria de literatura, as autoridades tendem a impor uma
regra dogmática. Hoje na Dinamarca, muito mais do que no resto da
Europa, a rejeição a tudo que pode ser diferente ou que pode sair de
uma certa docilidade social se transplanta sob a afirmação de um
discurso “étnico dinamarquês” que se opõe aos imigrantes. Em um
clima de intolerância que se adensa, o Estado considerou que era
possível combater os valores da contracultura solidária e
anti-consumista da Ungdomshuset pela repressão.
A evacuação e a demolição rápida da Casa da Juventude pode ser
entendida como um acerto de contas com um grupo difícil de dominar.
Mas a atitude das autoridades dinamarquesas pode ser recebida como
uma “experiência de laboratório” em termos de repressão policial,
própria de um sistema que pressente que precisará cada vez mais da
violência. Em Copenhague, técnicas de tipo semi-militar foram
colocadas em prática. As forças da lei de outros países europeus
dispõem agora de um precedente estudo in situ, que poderá
responder-lhes a essa questão: que dose de repressão pode suportar
uma democracia?
Tradução: Elisa Buzzo
elisabuzzo@gmail.com
[1] A Associação de Pais contra a Brutalidade Policial, que exerce
um papel importante como testemunha, denunciou esses atentados aos
direitos civis.
[2] Os agentes das unidades especiais estavam vestidos como os
ativistas. Misturaram-se a eles, lançando-se subitamente sobre
aqueles que pareciam ser os mentores, para imobilizá-los e detê-los
a força...
------------------------------------------------------
Só para completar... Demônio Maniqueu agostiniano.
(...)
Os fenômenos sociais, ao contrário, são demônios maniqueus, pois o
fluxo de informações pode fazer a sociedade ou grupos mudarem de
comportamento. Como um jogador de pôquer, a sociedade muda seu
comportamento e suas estratégias.
As investigações de Karl Marx sobre a sociedade capitalista foram
muito acuradas, mas não servem para nossos dias, pois o capitalismo
se utilizou dessas mesmas análises para se transformar e, portanto,
sobreviver.
(...)
É o que ocorre, por exemplo, nos casos de dominação política: uma
vitória do dominador transforma-se em perda para o dominado.
Sabe-se que a dominação política e econômica é baseada no
conhecimento do homem sobre o homem. Em especial o conhecimento
sobre como a sociedade dominada age. Nesse caso, interessa aos
dominados agirem como demônios maniqueus, o que torna inútil esse
conhecimento.
O melhor exemplo desse tipo de comportamento é a guerrilha. A
guerrilha não respeita as regras dos conflitos armados: ataca de
surpresa, em pequenos grupos que escapam rapidamente de uma
posterior perseguição.
Os terroristas também agem como demônios maniqueus.
O ataque às torres gêmeas do Word Trade Center é um exemplo perfeito
de demônio maniqueu.
Os EUA estavam muito preocupados com a criação de um escudo
anti-mísseis, que tornasse inviável qualquer ataque aéreo às cidades
americanas.
Os terroristas atacaram justamente de onde os militares
norte-americanos não esperavam nenhum ataque. Eles seqüestraram
aviões comerciais, de transporte de passageiros, e os jogaram sobre
os alvos.
Para seqüestrarem os aviões, os terroristas usaram facas. Um
comportamento absolutamente imprevisível e, portanto, maniqueu:
atacar a maior potência militar do planeta utilizando apenas facas!
O inusitado da ofensiva foi justamente a característica que tornou o
ataque possível.
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