Esse tal movimento estudantil
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Publicado no Portal Universia em 20/04/2005 - 16:00
Na década de 60, participar do movimento estudantil era, acima de
tudo, correr riscos. Risco de perder a vida, perder a esperança, e,
especialmente, perder a liberdade. Em uma época onde jovens morriam
lutando por seus ideais, a união de estudantes era o caminho
encontrado por muitos para dar força a suas idéias e reivindicar uma
sociedade mais justa e igualitária.
Hoje, com as mudanças no cenário político-econômico nacional, muitos
dos ideais originais do movimento estudantil se perderam e a maioria
dos estudantes parece "aprisionada" dentro de um sistema que não
prioriza o coletivo. Porém, jovens considerados por muitos como
obstinados e idealistas se sobrepõem às dificuldades e continuam
lutando, mostrando que a história do movimento estudantil está
ligada, sobretudo, à resistência à criação de uma sociedade
individualista.
"Nossa contribuição com o movimento é muito importante,
especialmente para a área de educação", conta a estudante do 2º ano
de Enfermagem da Uniararas (http://www.uniararas.br/ - Centro
Universitário Hermínio Ometto) Ellen Cristina Reis, 19 anos. Para
ela, os estudantes desempenham papel fundamental porque enxergam a
educação de perto, vivenciando seu dia-a-dia. "Os estudantes
conhecem melhor os problemas porque se deparam com eles o tempo
todo. Assim, é muito mais fácil identificar e levar as problemáticas
para o governo, como foi o caso da reforma universitária, por
exemplo", destaca.
Outro exemplo de questão abordada pelo Movimento Estudantil - neste
caso, na área da saúde - era a deficiência da relação do ensino
universitário com o SUS (Sistema Único de Saúde). "A criação do
projeto VER-SUS foi uma iniciativa que partiu do Movimento
Estudantil que, em parceria com o Governo Federal, possibilitou uma
aproximação dos estudantes com o sistema através de um estágio de
imersão", explica.
Ellen conta ainda que, embora muitos acreditem que instituições
privadas não dêem abertura para a criação de movimentos estudantis,
existe espaço para que os jovens possam se unir, batalhar por
melhorias no ensino e, também, discutir sobre políticas públicas.
"Existe uma abertura para isso. Depende apenas da vontade dos
estudantes de se organizar, algo que aqui na universidade não via
com tanta força", conta.
Para ela, um dos principais obstáculos para que os estudantes de
instituições privadas se organizem é a falta de compromisso social.
"Acho que, no caso das privadas, muitos estudantes pensam que porque
pagam mensalidade não têm obrigação com o social. Acreditam que este
é apenas compromisso de estudantes de universidades públicas, e não
é bem assim", declara.
Importância do Movimento para os jovens
Muito além do compromisso social que é dever de todos, o movimento
estudantil ainda aquece discussões permitindo que o jovem amadureça
suas idéias e as compartilhe, o que possibilita o desenvolvimento de
uma consciência política muito importante para o país. "Dentro do
movimento estudantil você conhece muitas pessoas de vários lugares
que passam por experiências diferentes. Esse cruzamento de idéias e
informações permite um crescimento muito importante para a juventude
do país", afirma Ellen.
Para o estudante do quinto ano de Farmácia da Unesp (Universidade
Estadual Paulista) Marcos Fernando Rosalen Lima, 24 anos, o
movimento vai ainda mais longe. Ele permite que o jovem tenha uma
discussão sobre a parte crítica que envolve sua profissão, muitas
vezes esquecida na grade curricular dos cursos. "Em meu curso de
Farmácia sentia falta de uma discussão sobre saúde popular.
Participar do movimento foi uma maneira que encontrei para aplicar
os conhecimentos adquiridos ao longo do curso construindo algo junto
à população. E não simplesmente permitir uma invasão do conhecimento
científico", declara.
Lima destaca que, além das discussões sobre educação como a reforma
universitária e o programa Universidade para Todos, temas discutidos
dentro do Movimento Estudantil da Unesp, o C.A de Farmácia da
instituição propõe discussões sobre saúde pública, o modelo do SUS e
outros temas relacionados à área, como Ato Médico e o futuro da
saúde pública no Brasil. Ele cita como exemplo a questão do programa
Farmácia Popular, criado pelo Governo Federal. "Em nossa opinião,
esta medida contraria os princípios do SUS que estabelecem o
compromisso de fornecer medicamento gratuitamente para a população
de baixa renda", explica.
Em meio a tantas discussões, muitas vezes é difícil conciliar os
estudos com as atividades do movimento. Porém, o anseio de reunir
cada vez mais estudantes na luta por uma causa conscientizando-os do
papel fundamental que exercem para a construção de uma sociedade
melhor é a principal motivação de ambos os jovens.
"Em determinados momentos, conciliar as duas coisas ficou um pouco
pesado. Mas eu buscava movimentar a massa de estudantes e fazer com
que eles acreditassem no movimento", diz Lima, que no último ano
optou por trancar seu curso e continuar com as atividades do C.A.
Para Ellen, muitas vezes o mais complicado é comparecer aos eventos
do movimento estudantil e não perder o pique com as tarefas da
universidade. "Temos prazo para entregar trabalhos e as faltas
continuam contando independente de sua ausência estar relacionada às
atividades do movimento. Isso dificulta bastante, mas, sem dúvida, a
força de vontade é maior", afirma.
Contribuição do Movimento para a universidade e o país
Para o diretor da Faculdade de Economia da UFRGS (Universidade
Federal do Rio Grande do Sul), Carlos Schmidt, que na juventude
participou de movimentos estudantis, inúmeras são as contribuições
para a educação, universidade e o próprio país quando se participa
de um movimento estudantil. "A juventude tem certo desprendimento
natural que ultrapassa, muitas vezes, o que é o corporativismo dos
funcionários e professores de uma universidade. Eles trazem os
problemas cotidianos com uma visão de futuro o que é muito generoso
para a universidade e sociedade", esclarece.
Schmidt, que pertence ao Conselho Universitário da UFRGS, conta que,
em geral, os estudantes têm trabalhado no sentido de manter a
universidade pública e gratuita. Muito embora algumas políticas
públicas adotadas pelo Governo Federal - como o ProUni, o programa
Universidade para Todos - contribuam para a desmotivação dos
estudantes. "Projetos como este provocaram uma espécie de
perplexidade que se reflete no movimento estudantil, incentivando um
retrocesso para questões pretensamente acadêmicas, como a discussão
da assistência estudantil e o pensamento da universidade como um
conjunto", diz.
Por fim, Schmidt destaca que para que o movimento estudantil
continue sendo uma organização representativa dos estudantes é
necessário que mais e mais jovens saiam de seu "mundo particular" e
participem com novas idéias. "É importante que os estudantes olhem a
sua volta e, dentro de uma nova perspectiva, acreditem que possam
intervir na realidade de forma a construir uma sociedade mais humana
e igualitária para todos", conclui.