Como bloqueamos a Conferência da OMC em Seattle:
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Starhawk - Ativista
Duas semanas já passaram desde aquela manhã em
que me levantei antes de me juntar ao bloco que impediu o encontro
inaugural da Organização Mundial do Comércio. Desde a minha saída da
prisão que leio as revistas de imprensa para tentar compreender o
que é que realmente se passou e o que foi relatado pela imprensa.
Durante a manifestação de protesto tivemos a rara ocasião de sentir
que aquilo que dizíamos - "o mundo inteiro olha-nos" - era realmente
verdade.
E realmente não me lembro de nenhuma acção política que tenha
atraído tanta atenção dos media como aquela em que fomos
protagonistas. Mas o que foi relatado pelo mundo fora através dos
media continha tantas incorrecções que eu ainda agora me pergunto se
os jornalistas não deveriam ser acusados de conspiração ou, muito
simplesmente, de incompetência. Ninguém dúvida que foram partidas
algumas montras de lojas, mas tal não se deveu ao "Direct Action
Network" (DAN) que foi o grupo que organizou a acção directa não
violenta e que conseguiu reunir alguns milhares de pessoas. A
verdadeira história que explica o sucesso da nossa acção nunca foi
contada.
A polícia, que reagiu de maneira brutal e estúpida à situação,
desculpou-se que não se encontrava preparada para a violência. Mas,
na realidade, o que não estavam preparados era realmente para a
não-violência e ao grande número de activistas não-violentos - e
tudo isto muito embora todas as nossas reuniões tivessem sido
abertas, públicas e sem segredo algum.
Suspeito que a nossa maneira de organização e tomada de decisões era
de tal forma estranha para o entendimento habitual da polícia sobre
o que é uma manifestação ou a direcção de um movimento que eles não
compreenderam absolutamente nada do que estava a passar.
Os polícias quando pensam numa organização imaginam logo uma pessoa
ou um pequeno número de pessoas a dizer aos outros o que deviam
fazer. Estão habituados ao poder centralizado que exige uma
obediência cega. Mas o nosso modelo de organização é muito
diferente. Vejamos em quê.
Durante semanas inteiras que precederam a manifestação em Seattle,
centenas e milhares de activistas receberam treino acerca da
não-violência - cursos de três horas que abrangiam desde história à
filosofia da não-violência, incluindo práticas de "role-playing"
(=jogo teatral) que pretendiam preparar as pessoas para se manterem
calmas, tranquilas e serenas nos momentos de maior tensão, treino de
tácticas não-violentas face à brutalidade, e sensibilização e
preparação para os processos de decisão colectivos. Alguns seguiram
ainda uma preparação específica relativamente à provável curta
estadia nas prisões com estratégias e tácticas diversas de
solidariedade e ajuda mútua, sem esquecer os aspectos judiciais.
Houve também treinos de primeiros socorros, tácticas de bloqueio,
teatro de rua, simulação de confrontos, e de outras eventualidades.
Durante a manifestação, enquanto milhares de pessoas se manifestavam
e enfrentavam situações imprevistas sem qualquer preparação, as
pessoas que tinham recebido aquele treino foram as que melhor
souberem fazer face à brutalidade policial tendo conseguido gerar
instantaneamente uma rede de resistência. Até na prisão assisti a
situações copiadas das que nos tínhamos preparado no "role-playing".
Os nossos activistas foram capazes de proteger todos os elementos do
grupo que corriam o risco de serem isolados ou separados dos
restantes utilizando as tácticas previamente treinadas para o feito.
Estas tácticas de solidariedade foram imensamente úteis para evitar
a consumação dos actos de abuso do poder.
Recorde-se que foi exigido a cada activista-voluntário aceitar os
princípios básicos da não-violência: abster-se de violência física e
verbal, não possuir armas, não andar com drogas ilícitas nem beber
álcool, nem destruir bens privados. Estas exigências apenas diziam
respeito às manifestações a serem realizadas em 30 de Novembro, e
não pretendiam ser os ingredientes de qualquer filosofia de vida ou
de grupo a que se pedisse adesão. Tanto mais que havia opiniões
muito divergentes acerca dessas matérias entre os vários activistas
envolvidos.
Os participantes da acção estavam organizados em grupos de
afinidade. Cada grupo estava habilitado (empowered) a tomar as suas
próprias decisões quanto ao modo de participação. Houve grupos que
realizaram teatro de rua, outros prepararam-se para se prenderem a
edifícios com correias, outros ainda trouxeram gigantones e
caricaturas gigantes, e os restantes aprontaram-se muito
simplesmente para de braço dado se postarem frente aos carros
oficiais a fim de impedirem de modo não-violento a sua circulação.
Em cada grupo havia geralmente pessoas que estavam já preparadas
para irem parar à prisão, outras que cá fora lhes prestariam apoio,
e ainda alguém qualificados em matéria de primeiros socorros.
Os grupos de afinidade estavam organizados em clusters. A área
envolvente ao Centro de Convenções foi dividida em 13 secções, os
grupos de afinidade e o seu cluster foram repartidos por cada
secção.
Havia igualmente «grupos móveis» que se deslocavam aonde a sua
presença era mais requisitada. Tudo isto foi coordenado nos
encontros do Conselho dos porta-vozes de cada grupo de afinidade que
enviava um(a) representante que falava em nome do seu grupo.
Na prática, este tipo de organização significava a possibilidade dos
grupos se deslocarem e reagirem com grande facilidade. Caso fosse
necessário mais gente num determinado local, um grupo de afinidade
podia avaliar a situação e decidir a sua deslocação, ou não, em
função das informações que lhe chegavam. Nos momentos em que se
tinha de aguentar os gazes lacrimogéneos, os jactos de água, as
balas de borracha, e as arremetidas dos cavalos, cada grupo tinha
capacidade de avaliar até que ponto podia oferecer resistência à
brutalidade desencadeada.
No terreno, o que aconteceu foi que os grupos encontraram uma
inacreditável violência policial, mas quando um grupo estava em
dificuldade derivadas do gaz lançado, ou dos ataques de
bastões,outro grupo imediatamente se posicionava para o seu lugar.
Havia obviamente que contar com os grupos de afinidade que reuniam
os activistas de mais idade, alguns com problemas de saúde (pulmões,
ou de coluna), cujo papel estava reservado para as áreas mais
tranquilas, ou então para fazer a interligação com os delegados de
cada grupo, o que lhes poupava meio caminho, ou ainda para apoio à
marcha do trabalho que conseguiu reunir milhares de pessoas no
principal dia.
Nenhuma direcção centralizada poderia ter alguma vez coordenado toda
as acções perante o caos que se instalou, tendo o nosso modo de nos
organizar mostrado maior maleabilidade que a toda poderosa polícia.
Nenhum líder teria conseguido convencer aquelas milhares de pessoas
a enfrentarem as arremetidas policiais sob o efeito do gaz.
lacrimogéneo, tendo isso só sido possível graças ao facto das
pessoas tiverem livremente optado em adoptar as atitudes melhor
apropriadas face à situação.
Os grupos de afinidade, os cluster e os conselhos de porta-vozes
abrangidos pela DAN sempre tomaram as suas decisões por consenso -
um procedimento que permite a cada um fazer-se ouvir e que obriga
todos a respeitarem as opiniões dos minoritários. De facto, o
consenso faz parte da sensibilização aos processos e procedimentos
de não-violência.
Para nós, frise-se, consenso não significa o mesmo que unanimidade.
O único princípio obrigatório era realmente as regras próprias da
não-violência. Para além disso, foi dado ênfase à autonomia e à
liberdade e à coordenação e não aos procedimentos conformistas nem
às pressões de uns sobre outros.
Um exemplo bastará para ilustrar tudo isto. Uma das nossas
estratégias de solidariedade foi justamente deixarmo-nos prender a
fim de podermos utilizar a força do número para proteger as pessoas
mais fragilizadas por inculpações mais graves, ou então terem por
sido vítimas de um tratamento mais brutal.
Acontece
que ninguém foi pressionado para se deixar prender, e ninguém foi
culpabilizado pelo facto de ter escolhido pagar uma caução para sair
mais cedo da prisão. Todos sabemos que cada um tem as suas próprias
necessidades, e a sua própria situação de vida, e o que era
importante é que cada qual tivesse participado na acção de protesto
segundo o nível e as modalidades que achasse mais convenientes. Se
tivéssemos pressionado para que todos ficassem na prisão
provavelmente haveria quem resistisse, outros que experimentariam
algum ressentimento, e outros ainda
sentir-se-iam manipulados.
Tal como fizemos, as pessoas sentiram-se livres e não manipuladas,
tendo a grande maioria delas decidido elas próprias permanecer na
prisão, e até alguns foram muito mais longe do que seria imaginável.
Escrevo este texto por duas razões. Em 1º ligar para mostrar a
importância do DAN. Os seus coordenadores realizaram um difícil mas
brilhante trabalho. Com efeito, aprenderam a aplicaram as lições dos
últimos 20 anos de acção directa não-violenta, conseguindo gerar
toda uma poderosa dinâmica contra uma não menos poderosa oposição.
Uma tal dinâmica foi susceptível de transformar a vida mudando
radicalmente o panorama político mundial, além de ter contribuído
para a radicalização de toda uma nova geração. Em 2º lugar porque a
verdadeira história do modo como as coisas se passaram permite
apresentar e propor agora um novo modelo de acção a partir do qual
os activistas se podem inspirar. Seattle não foi senão um começo.
Diante de nós fica a imensa tarefa de construir um movimento global
que incomode e a finança e a indústria e contribua para a sua
substituição por uma outra economia baseada na honestidade (fairness)
e a justiça, uma economia saudável e um ambiente salubre, que
garanta a protecção dos direitos humanos e esteja ao serviço da
liberdade. Muitas campanhas estão à nossa frente. Devemos ter o
direito de aprender com as lições dos nossos
êxitos.
Starhawk
Internet: www.reclaiming.org