Rascunho da Teoria da Consciência e Liberdade

Leonildo Correa - Instituto OCW Br@sil

Este trabalho está em construção, mutação e correção.

Hannah Arendt diz que: "Onde quer que haja divórcio entre o conhecimento e a ação, deixa de existir espaço para a liberdade." E quem faz a ponte entre o conhecimento e a ação é, justamente, a consciência.

1. Introdução

A história humana é a história da evolução da consciência humana.  O homem evoluiu porque a sua consciência evoluiu. Foi  a consciência humana, entendida como sistema analítico de informações e conhecimentos, que criou, reconheceu, interpretou, fixou e passou de geração para geração,  a arte, a religião, a cultura e as civilizações. Também foi a consciência humana que criou e definiu as instituições, as teorias, os conceitos, as tecnologias, etc. Não são os olhos que vêem o mundo e as coisas. Quem vê, interpreta e analisa o mundo e as coisas é a consciência. Isto porque é a consciência que capta, interpreta e analisa as informações, elaborando e disseminando os conhecimentos, gerando novas informações e novos conhecimentos.

Antes de tudo vem a consciência. Depois vem a ação. Geralmente, há um processo mental, um pensamento, antes de cada ação. E onde há pensamento, há consciência, pois pensamentos são processos mentais primários do sistema analítico consciência.

Certamente,  o fato da consciência interpretar todas as informações e conhecimentos, atuando antes de cada ação, não significa que cada ação é realizada de acordo com a consciência. Um exemplo claro disso, são os casos onde a consciência, analisando as informações e os conhecimentos, manda a pessoa fazer uma coisa e, por outros motivos e variáveis, a pessoa faz outra, ou seja, a pessoa desobedece a própria consciência. Isto porque, geralmente, a consciência está contaminada pelo mal, pelo fanatismo,  pela cobiça, pelo interesse, pela ambição, pela paixão, dependência, etc...

Em uma consciência contaminada os vícios falam mais alto, cobrem os pensamentos, sufocam os processos mentais, as demais virtudes e os conhecimentos. Logo, a sentença oriunda da consciência pode ser completamente ignorada, ou então, pode derivar destes vícios (informações e conhecimentos viciados, deturpados, manipulados, falsos, etc) e a ação concretiza-os, ou ainda, a sentença emitida pela consciência vem com uma parcela de vício.

Um exemplo disso é o fanatismo. Um vício que contamina a consciência com uma versão única de informação e conhecimentos. Um vício que inibe o sistema analítico da consciência, emitindo respostas únicas e fixas. Consciência sadia é aquela na qual o sistema analítico de informações e conhecimentos, funciona perfeitamente. As informações e conhecimentos são, predominantemente, puras, sem mácula, e os preceitos da consciência são seguidos a risca. Logo, as virtudes, definida como uma ação consciente, dominam e contaminam os atos praticados. Esta é uma consciência na qual a liberdade do indivíduo se concretiza e se expressa. Cada ato, cada ação, concretiza aquilo que é definido, social e culturalmente, como justo e reto.

Inegavelmente, todas as consciências, principalmente as adultas, estão contaminadas por vícios. Contudo, o aparecimento destes nas ações praticadas depende do nível de contaminação. Quanto mais intensa e extensa for a contaminação, maior será a quantidade de ações  derivadas de vícios, ações que concretizam vícios. Isto porque os vícios, as deturpações, os fanatismos, etc,  emperram a reflexão, inibem o sistema analítico, prejudicando e desvirtuando as análises da consciência.  Por isso, a formação da consciência dos indivíduos, principalmente na família, nas escolas e demais instituições sociais, buscam disseminar e cristalizar, através do ensino, informações e conhecimentos que concretizam virtudes e comportamentos sociais adequados, combatendo os vícios apreendidos no ambiente social.

Contudo, virtudes e vícios, dentro da consciência, são também  informações e conhecimentos. Isto porque a consciência só vê e trabalha com informações e conhecimentos. Sendo os sentidos e as percepções mecanismos que captam a realidade, fragmentando-a e transformando-a em informações e conhecimentos que serão analisados e fixados na consciência. Portanto, informações e conhecimentos são matérias-primas utilizadas nos processos mentais, cabendo ao indivíduo decidir, quando analisa ou pensa, o que irá prevalecer, o que será transformado em ação. Se quer usar o joio ou o trigo.  Certamente, em alguns casos, dada a quantidade e a disseminação do joio no ambiente social, é impossível ao indivíduo diferenciá-lo do trigo. Sem contar que a definição de vício, assim como, a indicação do que é ou não vício, também depende da consciêncial. Mais especificamente das subconsciências: coletiva, social, política.

Além disso, é preciso considerar que o ambiente social potencializa o aparecimento e a cristalização de alguns vícios na consciência humana. Isto porque muitas das informações captadas e retidas pela consciência são apreendidas pela observação e interação com o ambiente sócio-cultural no qual se está inserido. Os costumes, os comportamentos, enfim, a cultura, passa do grupo para o indivíduos, de uns para outros. Assim, determinados comportamentos, vistos com normalidade pela comunidade de um local, tende a se espalhar  e ser praticado por todos, mesmo sendo considerado vício por outras sociedades.  Um exemplo disso, é a poligamia em algumas tribos indígenas. Outro exemplo é o fanatismo e o fundamentalismo que caracterizam algumas sociedades.

É válido citar também o fato de que a compreensão da estrutura funcional da consciência exige o entendimento de seu processo de formação, ampliação e modificação. Logo, entra em cena, neste caso, a Psicologia Educacional que possui modelos explicativos para a aprendizagem humana. A aprendizagem é o mecanismo que realiza a formação, ampliação e modificação da consciência. A evidência disso é o fato de uma criança nascer com consciência 0, ou seja, com zero de informações e conhecimentos (possui apenas reflexos instintivos) e, ao longo do tempo, através da aprendizagem, observação e interação, ela vai adquirindo a matéria-prima (informações e conhecimentos) para os processos mentais, pensamentos, que movimentam a consciência. Conforme a criança adquire informações e conhecimentos, ela controla os reflexos instintivos, aprende e apreende  novas coisas, sua consciência vai se formando, ampliando e solidificando.

Logo, os processos instintivos inconscientes passam a ser controlados pelos processos analíticos conscientes, processos mentais, que analisam informações e conhecimentos. Quanto mais informações e conhecimentos, maior é a capacidade de reflexão, análise e crítica. Logo, maior é o conteúdo da consciência e o número de processos mentais.

Assim, para garantir que a maioria dos indivíduos pratique ações oriundas de reflexão e análises, ações potencialmente virtuosas, ao invés de ações viciadas, existem diversos controles e travas sociais. Por exemplo, a moral, o direito, a religião, etc. Controles e travas que fixam, dentro da consciência, determinadas regras, condutas e comportamentos socialmente aceitos e recomendados. Estas regras, condutas e comportamentos aderem de tal forma à consciência que acabam formando subconsciências: coletiva, social, política. Subconsciências que reúnem regras específicas para cada área de atuação/ação/interação do indivíduo: família, sociedade, Estado, etc.

A implicância disso é o fato de existir uma ligação direta entre consciência, aprendizagem e cultura, ou seja, todo o conteúdo da consciência (informações e conhecimentos) são construções sociais e culturais. A cultura formata a consciência, determinando nossas ações, comportamentos, estilo de vida, instituições, etc. Mas não é só isto, a consciência apreende a cultura na qual está inserida, porém, tem poder para aceitá-la, rejeitá-la, modificá-la, etc. Certamente, a aceitação ou rejeição depende do nível de informações e conhecimentos do indivíduo.

Portanto, entre a consciência e a cultura há uma relação de interdependência. Não sendo possível separá-las, pois retirando a cultura do sistema consciência, retira-se as informações e os conhecimentos, retira-se o conteúdo do sistema, o conteúdo da consciência. E sem conteúdo, restará apenas um sistema orgânico movido pelo instinto do organismo, informações e conhecimentos inatos.

Resumindo, a relação consciência, cultura e aprendizagem é essencial nesta Teoria da Consciência e Liberdade, pois o conteúdo da consciência é cultural. O mecanismo que insere este conteúdo na consciência é a aprendizagem. Por isso, em um item específico deste trabalho, analisar-se-á a questão da aprendizagem humana. Certamente, quem conhece um pouco de tal campo, já deve ter percebido que a melhor teoria da aprendizagem para este trabalho é a sócio-cognitiva. Porém, as outras teorias também possuem elementos específicos que explicam certos aspectos da inserção de informações e conhecimentos na consciência humana.

Deve-se considerar ainda que é impossível separar o homem de sua consciência ou de seus pensamentos. Principalmente porque faz parte da essência do Homem, da definição de Homem, a consciência. Inclusive, o que separa o homem dos demais seres vivos é a racionalidade, um tipo específico de pensamento, um processo mental da consciência. Logo, pode-se considerar que é a presença da consciência que possibilita a construção da definição de Homem, singularizando-o entre os seres vivos. Não só isto, é a consciência que faz esta construção, esta separação, observando padrões e ações.

Um desses conceitos essenciais é a liberdade.  Liberdade que é uma construção humana, uma construção da consciência humana, uma construção cultural derivada de informações e conhecimentos. Mais do que isto. Há uma relação direta entre liberdade e consciência. Esta relação permite definir a liberdade em função da consciência. Assim, defino a Liberdade como o poder do indivíduo de agir de acordo com a sua própria consciência, ou então, poder do indivíduo de executar as ordens que emanam da sua consciência, ou ainda, poder do indivíduo de expressar a própria consciência.

A meta deste trabalho é analisar os principais detalhes e argumentos que fundamentam a relação entre a Liberdade e a Consciência e validam a definição criada e apresentada anteriormente. Contudo, ao longo do desenvolvimento desta idéia, outras instituições sociais, outros conceitos, serão abordados, analisados e redefinidos a partir da perspectiva da consciência. Assim, temas como o Direito Natural, os Direitos Humanos, o Direito, a Democracia, a Cultura, etc, serão analisados a partir da perspectiva da consciência humana. A consciência é a base a partir da qual todas as instituições, conceitos e teorias se estruturam e se formam.

Portanto, a consciência é o fundamento de todas as idealizações, formulações e construções humanas. E a compreensão deste sistema fundamental (a consciência é um sistema)  e sua interação com as realizações humanas, revela o esqueleto, a estrutura da sociedade. Uma estrutura montada pela consciência, usando informações e conhecimentos adquiridos/construídos socialmente/coletivamente ao longo do tempo e repassados de geração para geração. Mais do que isto, é na consciência que reside a fórmula e o primeiro passo para construir, modificar ou revolucionar as instituições, as teorias e os conceitos.

2. Definições, caracterizações e conceitos

Antes de desenvolver a Teoria da Consciência e Liberdade, é preciso estabelecer algumas definições, caracterizações e conceitos que serão utilizados ao longo do trabalho.  Estes elementos e conceitos formam a base da Teoria. E, a partir deles, a Teoria será estruturada.

A- Sistema: Nesta Teoria utilizar-se-á a idéia de "sistema" como: "conjunto de elementos interdependentes que interagem com objetivos comuns formando um todo, e onde cada um dos elementos componentes comporta-se, por sua vez, como um sistema cujo resultado é maior do que o resultado que as unidades poderiam ter se funcionassem independentemente. Qualquer conjunto de partes unidas entre si pode ser considerado um sistema, desde que as relações entre as partes e o comportamento do todo seja o foco de atenção." (Wikipedia)

B- Consciência: A consciência é definida, nesta Teoria, como um sistema analítico que avalia informações e conhecimentos, gerando novas informações ou conhecimentos, ou então, emitindo, após esta análise, uma sentença, uma decisão que deverá ser executada. Uma sentença que deverá ser transformada em ação.

A consciência pode ser comparada a um juízo ou uma vara judicial. O juízo ou vara judicial, através do processo judicial, analisa provas, fatos, etc. A consciência, através de processos mentais (pensamentos), analisa informações e conhecimentos. A vara judicial emite uma sentença, uma decisão, que deve ser executada ou que reconhece um direito ou uma pretensão. A consciência também emite uma sentença que deve ser executada ou que forma uma nova informação ou conhecimento.

Além disso, a consciência é constituída por vários subsistemas interligados, incluindo consciências específicas, processos mentais, memória, etc.  Todos estes elementos interagem dentro da consciência, auxiliando, facilitando ou possibilitando os seus processos.

Os subsistemas da consciência são consciências específicas que tratam de determinados assuntos e resolvem questões específicas. Por exemplo, a consciência política trata de temas/questões relacionadas ao Estado, ao Governo e aos interesses da sociedade, do agrupamento social. A consciência coletiva trata de temas/questões relacionadas com grupos pequenos e próximos do indivíduo e nos quais ele está inserido: família, amigos, Igreja, comunidade, etc. Já a consciência social trata dos temas/questões relacionadas com a sociedade ou país no qual se vive. Nesta consciência estão estacionados o direito positivo, o costume da sociedade, as instituições, etc. Enquanto a consciência política é uma consciência de formação dos institutos e das instituições, assim como de participação do cidadão nesta formação. A consciência social é local de consolidação e execução daquilo que foi formado.

Além disso, é válido assinalar que o desenvolvimento de cada uma dessas consciências específicas, e a consciência individual como um todo, depende das informações e dos conhecimentos que o indivíduo possui. Sem informações e conhecimentos específicos as consciências específicas não se desenvolvem, ficam limitadas. Certamente, informações e conhecimentos de determinada consciência, por exemplo da consciência coletiva, são de domínio público e estão presentes em todos os grupos sociais. Porém, quando assimiladas e expressa por uma consciência individual, ela passa pelo filtro daquela consciência: valores, costumes, idéias, etc.

 Logo, todos os indivíduos possuem dados parecidos, mas não assimilam e nem expressam estes dados da mesma forma, construindo, assim, aquilo que se denomina conhecimento.

Já a consciência política necessita de informações e conhecimentos mais seletos, mais restritos, ou seja, depende de um nível mais alto de formação e saber. Coisa incomum para a maioria dos indivíduos. Contudo, todos os indivíduos possuem o mesmo potencial de desenvolvimento. Basta apenas acessarem as informações, os conhecimentos e os saberes que a consciência necessita para se desenvolver e expandir. Sem informação e conhecimento a consciência não se desenvolve, fica inibida, restrita, limitada.

Por isso, esta Teoria da Consciência e Liberdade exige

C- Processo mental: Processo é um conjunto de atos coordenados e subseqüentes através dos quais se executa uma função ou realiza tarefa. Mental porque são executados no cérebro. No caso da consciência, um sistema analítico, os processos de análise são chamados de processos mentais ou pensamentos. Estes processos analisam informações e conhecimentos, ou dados, captados do mundo exterior, através dos sentidos humano (visão, tato, audição, paladar, olfato), ou provenientes de órgãos internos do indivíduo (sensações, dor, amor, ódio, etc).

D- Pensamentos: É um processo mental utilizado pela consciência. Os pensamentos podem ser divididos em vários tipos: pensamentos primários, razão, intuição, fé, etc. Cada um desses processos tem uma forma específica de funcionamento, de busca e emissão de resposta que é repassada à consciência. Podem usar, como matéria-prima de sua análise, informações ou conhecimentos (pensamentos primário, razão) ou podem buscar sua matéria-prima em outras fontes, como é o caso da fé e da intuição. Além disso, os processos mentais (pensamentos) ocorrem em todos os subsistemas (consciências) e movimentam informações e conhecimentos obtidos pelos órgãos do sentido ou que estão arquivados na memória.

O processo mental mais comum são os pensamentos primários que se desenvolvem sem um método específico. Estes pensamentos são processos analíticos de informações e conhecimentos.  Quando pensamos estamos analisando informações e conhecimentos. Estamos executando um processo mental primário. Já a razão, o pensamento racional, é um conjunto específico de pensamentos coerentes, interligados pelo método científico. A fé são pensamentos específicos interligados pelo método religioso ou com fundamento em uma divindade. Contudo, são todos eles pensamentos, são processos mentais, que se diferenciam pelo conteúdo, pela forma de ação e emissão de decisão.

Outro ponto importante é que pensamento é energia. É um tipo de energia que analisa, fixa e gera informações e conhecimentos na consciência humana.  Além disso, dentro do sistema-consciência todos os processos são energéticos, inclusive as informações e os conhecimentos são transformados em energia para serem analisados.

 F- Dado: O Professor Valdemar W. Setzer da USP (Texto aqui) diz:

"Defino dado como uma seqüência de símbolos quantificados ou quantificáveis. Portanto, um texto é um dado. De fato, as letras são símbolos quantificados, já que o alfabeto, sendo um conjunto finito, pode por si só constituir uma base numérica (a base hexadecimal emprega tradicionalmente, além dos 10 dígitos decimais, as letras de A a E). Também são dados fotos, figuras, sons gravados e animação, pois todos podem ser quantificados a ponto de se ter eventualmente dificuldade de distinguir a sua reprodução, a partir da representação quantificada, com o original. É muito importante notar-se que, mesmo se incompreensível para o leitor, qualquer texto constitui um dado ou uma seqüência de dados. Isso ficará mais claro no próximo item.

Com essa definição, um dado é necessariamente uma entidade matemática e, desta forma, é puramente sintático. Isto significa que os dados podem ser totalmente descritos através de representações formais, estruturais. Sendo ainda quantificados ou quantificáveis, eles podem obviamente ser armazenados em um computador e processados por ele. Dentro de um computador, trechos de um texto podem ser ligados virtualmente a outros trechos, por meio de contigüidade física ou por "ponteiros", isto é, endereços da unidade de armazenamento sendo utilizada, formando assim estruturas de dados. Ponteiros podem fazer a ligação de um ponto de um texto a uma representação quantificada de uma figura, de um som, etc..

O processamento de dados em um computador limita-se exclusivamente a manipulações estruturais dos mesmos, e é feito por meio de programas. Estes são sempre funções matemáticas, e portanto também são "dados". Exemplos dessas manipulações nos casos de textos são a formatação, a ordenação, a comparação com outros textos, estatísticas de palavras empregadas e seu entorno, etc."

Vou aplicar as definições e caracterizações do Professor Setzer, para compreensão da consciência humana, na perspectiva da Teoria da Consciência e Liberdade. Certamente, a consciência não usa como base a matemática e nem roda software que constitui funções matemáticas. A matemática, para a consciência humana, é apenas uma convenção, um parâmetro objetivo do mundo inanimado e dos fenômenos físicos. Parâmetro que na consciência são transformados em informação, desde que possuam um significado. Se não tiverem um significado, são apenas dados.

Ao invés da matemática, a consciência usa uma base cognitiva formada por informação e conhecimento adquiridos e fixados através da linguagem. A matéria prima do computador são os dados. A matéria-prima da consciência são as informações e os conhecimentos. O computador transforma tudo em dados e seqüência de dados. A consciência transforma todos os dados que obtém, através dos sentidos, em informação e conhecimento. Essa transformação é feita pelos processos mentais, ou seja, pelos pensamentos.

Inegavelmente, existem dados na consciência. Estes dados são aquelas coisas desprovidas, temporariamente, de significado, ou cujo significado ainda não foi compreendido. Quando elas obtém um significado, transformam-se em informação. Por exemplo, as palavras em mongol que você decorou e não sabe o que significam. São dados que estão na sua consciência esperando por um significado. Por isso, você não usa. Se usa é para buscar um significado, ou então, para enganar os outros e dar uma sabido. Porém, na sua consciência continua sendo um dado. Quando estas palavras adquirem um significado, transformam-se em informação.

O software da consciência, que faz o papel de funções matemáticas no computador, são os pensamentos. Os pensamentos primários são processos mentais que analisam informações e conhecimentos e atribuem significado aos dados. Os pensamentos são processos da consciência. São processos analíticos. Este software é universal. Ele reconhece e roda quaisquer informações e conhecimentos, produzindo mais informações e mais conhecimentos, ou gerando uma decisão, uma sentença que deverá ser executada, através de uma comportamento ou expresso através da linguagem (fala).

Mas como a coisa funciona ? Os sentidos humanos captam dados, transformando-os em sinais elétricos, em energia. Esta energia entra na consciência e é envolvida pelos pensamentos primários, uma outra forma de energia, que agrega valor a estes dados, dando lhes significado. Por exemplo, os dados captados pelos sentidos são verde, quando entram na consciência e são envolvidos pelos pensamentos primários ficam azuis. Logo, dado azul, armazenado na memória, significa algo. Se significa algo deixou de ser dado. É agora uma informação. Certamente, olhando para esta informação, além do significado atribuído pelo pensamento primário, você vê o dado verde. Além disso, você pode mudar o significado na hora que quiser, agregando mais valor a ele. Logo, virou um dado vermelho.

Esta atribuição de significado é feita pelos pensamentos primários através de consulta e análise da base cognitiva da consciência. Por isso, quando aprendemos algo novo surgem novas  redes de neurônios no cérebro. Se apenas aumentamos nossos conhecimentos sobre algo que já conhecíamos, ao invés de uma nova rede, ocorre a interligação de redes neurais, ou apenas a ampliação de uma rede que já existia.

Além disso, as informações e os conhecimentos, presentes na consciência, estão sujeitos a outros processos mentais. Por exemplo, podem ser manipulados e modificados pelos pensamentos primários, pela intuição, pela fé ou por um conjunto elaborado de pensamentos coerentes, a razão. Porém, o processo mental mais comum são os pensamentos primários.

Como as redes neurais são parecidas com um gaveteiro, cada rede diz respeito a coisas específicas e representa uma gaveta, quando captamos dados sobre algo, e eles entram na consciência, o pensamento primário, joga este dado direto para a rede específica ou gaveta específica. Por isso, os cientistas, quando monitoram o cérebro, identificam a mesma área cerebral, tanto para um objeto que a pessoa está vendo (dados entrando direto pelos órgãos do sentido e sendo agregado e catalogado pelos pensamentos primários), quanto para um objeto que a pessoa está lembrando (processo mental identificador de informações e conhecimentos armazenados na memória).

Os sensores dos cientistas captam a energia do pensamento em ação, seja verificando a rede específica onde será estabelecido a informação captada pelos sentidos, seja vasculhando a gaveta na qual aquela informação se encontra. Certamente, a consciência sabe a diferença entre algo que está sendo visto e algo que está sendo lembrado. Porém, os sensores não vêem esta diferença, pois só captam sinais elétricos, a energia do pensamento agindo, a energia do processo mental.

A lembrança é um processo mental de busca de informações e conhecimentos nas redes. São pensamentos que tem por finalidade buscar e apresentar à consciência as informações e os pensamentos existentes na memória. Se estes pensamentos encontram os dados, lembramos. Se não encontram, não lembramos de nada. Quando estes pensamentos perdem os dados encontrados ou a consciência não consegue lê-los, dá o tal do "branco" e aquela sensação de que sabemos, mas não conseguimos expressar, "está na ponta da língua", mas não sai.

A memória é um sistema de gavetas, ou seja, um sistema de redes estabelecidas com informações e conhecimentos antigos. Informações e conhecimentos fixados, agrupados e sistematizados. Cada coisa no seu devido lugar. Os pensamentos de busca (lembrança) percorrem esta rede lendo as informações e os conhecimentos, que são repassados aos pensamentos primários para gerar novas informações e conhecimentos, ou então, para gerar uma decisão, uma sentença, que deverá ser executada. Pensamentos são processos mentais energéticos.

G- Informação: O Professor Valdemar W. Setzer da USP (Texto aqui) diz:

"Informação é uma abstração informal (isto é, não pode ser formalizada através de uma teoria lógica ou matemática), que está na mente de alguém, representando algo significativo para essa pessoa. Note-se que isto não é uma definição, é uma caracterização, porque "algo", "significativo" e "alguém" não estão bem definidos; assumo aqui um entendimento intuitivo (ingênuo) desses termos. Por exemplo, a frase "Paris é uma cidade fascinante" é um exemplo de informação – desde que seja lida ou ouvida por alguém, desde que "Paris" signifique para essa pessoa a capital da França (supondo-se que o autor da frase queria referir-se a essa cidade) e "fascinante" tenha a qualidade usual e intuitiva associada com essa palavra.

Se a representação da informação for feita por meio de dados, como na frase sobre Paris, pode ser armazenada em um computador. Mas, atenção, o que é armazenado na máquina não é a informação, mas a sua representação em forma de dados. Essa representação pode ser transformada pela máquina, como na formatação de um texto, o que seria uma transformação sintática. A máquina não pode mudar o significado a partir deste, já que ele depende de uma pessoa que possui a informação. Obviamente, a máquina pode embaralhar os dados de modo que eles passem a ser ininteligíveis pela pessoa que os recebe, deixando de ser informação para essa pessoa. Além disso, é possível transformar a representação de uma informação de modo que mude de informação para quem a recebe (por exemplo, o computador pode mudar o nome da cidade de Paris para Londres). Houve mudança no significado para o receptor, mas no computador a alteração foi puramente sintática, uma manipulação matemática de dados.

Assim, não é possível processar informação diretamente em um computador. Para isso é necessário reduzi-la a dados. No exemplo, "fascinante" teria que ser quantificado, usando-se por exemplo uma escala de zero a quatro. Mas então isso não seria mais informação.

Por outro lado, dados, desde que inteligíveis, são sempre incorporados por alguém como informação, porque os seres humanos (adultos) buscam constantemente por significação e entendimento. Quando se lê a frase "a temperatura média de Paris em dezembro é de 5oC" (por hipótese), é feita uma associação imediata com o frio, com o período do ano, com a cidade particular, etc. Note que "significação" não pode ser definida formalmente. Aqui ela será considerada como uma associação mental com um conceito, tal como temperatura, Paris, etc. O mesmo acontece quando se vê um objeto com um certo formato e se diz que ele é "circular", associando – através do pensar – a representação mental do objeto percebido com o conceito "círculo". Para um estudo profundo do pensamento, mostrando que quanto à nossa atividade ele é um órgão de percepção de conceitos, veja-se uma das obras fundamentais de Rudolf Steiner, A Filosofia da Liberdade, especialmente o cap. IV, "O mundo como percepção" [Steiner 2000 pg. 45].

A informação pode ser propriedade interior de uma pessoa ou ser recebida por ela. No primeiro caso, está em sua esfera mental, podendo originar-se eventualmente em uma percepção interior, como sentir dor. No segundo, pode ou não ser recebida por meio de sua representação simbólica como dados, isto é, sob forma de texto, figuras, som gravado, animação, etc. Como foi dito, a representação em si, por exemplo um texto, consiste exclusivamente de dados. Ao ler um texto, uma pessoa pode absorvê-lo como informação, desde que o compreenda. Pode-se associar a recepção de informação por meio de dados à recepção de uma mensagem. Porém, informação pode também ser recebida sem que seja representada por meio de dados mensagens. Por exemplo, em um dia frio, estando-se em um ambiente aquecido, pondo-se o braço para fora da janela obtém-se uma informação – se está fazendo muito ou pouco frio lá fora. Observe-se que essa informação não é representada exteriormente por símbolos, e não pode ser denominada de mensagem. Por outro lado, pode-se ter uma mensagem que não é expressa por dados, como por exemplo um bom berro por meio de um ruído vocal: ele pode conter muita informação, para quem o recebe, mas não contém nenhum dado.

Note-se que, ao exemplificar dados, foi usado "som gravado". Isso se deve ao fato de os sons da natureza conterem muito mais do que se pode gravar: ao ouvi-los existe todo um contexto que desaparece na gravação. O ruído das ondas do mar, por exemplo, vem acompanhado da visão do mar, de seu cheiro, da umidade do ar, da luminosidade, do vento, etc.

Uma distinção fundamental entre dado e informação é que o primeiro é puramente sintático e a segunda contém necessariamente semântica (implícita na palavra "significado" usada em sua caracterização). É interessante notar que é impossível introduzir e processar semântica em um computador, porque a máquina mesma é puramente sintática (assim como a totalidade da matemática). Por exemplo, o campo da assim chamada "semântica formal" das "linguagens" de programação, é de fato, apenas um tratamento sintático expresso por meio de uma teoria axiomática ou de associações matemáticas de seus elementos com operações realizadas por um computador (eventualmente abstrato). De fato, "linguagem de programação" é um abuso de linguagem, porque o que normalmente se chama de linguagem contém semântica. (Há alguns anos, em uma conferência pública, ouvi Noam Chomsky – o famoso pesquisador que estabeleceu em 1959 o campo das "linguagens formais" e que buscou intensivamente por "estruturas profundas" sintáticas na linguagem e no cérebro –, dizer que uma linguagem de programação não é de forma alguma uma linguagem.) Outros abusos usados no campo da computação, ligados à semântica, são "memória" e "inteligência artificial". Não concordo com o seu uso porque nos dão, por exemplo, a falsa impressão de que a memória humana é equivalente em suas funções aos dispositivos de armazenamento dos computadores, ou vice-versa. Theodore Roszack faz interessantes considerações mostrando que nossa memória é infinitamente mais ampla [Roszack 1994 pg. 97]. John Searle, o autor da famosa alegoria do Quarto Chinês (em que uma pessoa, seguindo regras em inglês, combinava ideogramas chineses sem entender nada, e assim respondia perguntas – é assim que o computador processa dados), demonstrando que os computadores não possuem qualquer entendimento, argumentou que os computadores não podem pensar porque lhes falta a nossa semântica [Searle 1991 pg. 39].

A alegoria de Searle sugere um exemplo que pode esclarecer um pouco mais esses conceitos. Suponha-se uma tabela de três colunas, contendo nomes de cidades, meses (representados de 1 a 12) e temperaturas médias, de tal forma que os títulos das colunas e os nomes das cidades estão em chinês. Para alguém que não sabe nada de chinês nem de seus ideogramas, a tabela constitui-se de puros dados. Se a mesma tabela estivesse em português, para quem está lendo este artigo ela conteria informação. Note-se que a tabela em chinês poderia ser formatada, as linhas ordenadas segundo as cidades (dada uma ordem alfabética dos ideogramas) ou meses, etc. – exemplos de processamento puramente sintático."

Portanto, o Prof. Setzer confirma a minha percepção de que os humanos são seres complexos que captam e assimilam informações e não simples dados sem significado como os computadores. Inegavelmente, as diferenças são exponenciais. E, quando comparamos a consciência com um processador, é para compreender o funcionamento e não para dizer que são as mesmas coisas. Um computador não entende o significado das coisas. É um mero depósito de dados. Ele pode até relacionar coisas, desde que exista uma rotina para isto, porém, ele sempre dependerá de funções matemáticas, dependerá da rotina. Já os pensamentos não dependem de funções matemáticas e nem de rotina. Basta possuírem uma base cognitiva, uma linguagem, que captarão dados, dos sentidos  e transformá-lo-ão em informações e conhecimentos, através do significado. A linguagem é a base para captação e expressão dos dados, para transferir informações de uma pessoa para outra, ou de uma pessoa para uma coisa, um livro por exemplo.

A consciência é um sistema analítico extremamente complexo. Um sistema que usa como matéria-prima informações e conhecimentos. Matéria-prima esta que é movimentada por processos mentais ou pensamentos, sejam primários, de busca, intuição, fé, razão, etc...

H- Conhecimento: O Professor Valdemar W. Setzer da USP (Texto aqui) diz:

"Caracterizo Conhecimento como uma abstração interior, pessoal, de algo que foi experimentado, vivenciado, por alguém. Continuando o exemplo, alguém tem algum conhecimento de Paris somente se a visitou. Mais adiante essa exigência será um pouco afrouxada.

Nesse sentido, o conhecimento não pode ser descrito; o que se descreve é a informação. Também não depende apenas de uma interpretação pessoal, como a informação, pois requer uma vivência do objeto do conhecimento. Assim, o conhecimento está no âmbito puramente subjetivo do homem ou do animal. Parte da diferença entre estes reside no fato de um ser humano poder estar consciente de seu próprio conhecimento, sendo capaz de descrevê-lo parcial e conceitualmente em termos de informação, por exemplo, através da frase "eu visitei Paris, logo eu a conheço" (supondo que o leitor ou o ouvinte compreendam essa frase).

A informação pode ser inserida em um computador por meio de uma representação em forma de dados (se bem que, estando na máquina, deixa de ser informação). Como o conhecimento não é sujeito a representações, não pode ser inserido em um computador. Assim, neste sentido, é absolutamente equivocado falar-se de uma "base de conhecimento" em um computador. O que se tem é, de fato, é uma tradicional "base (ou banco) de dados".

Um nenê de alguns meses tem muito conhecimento (por exemplo, reconhece a mãe, sabe que chorando ganha comida, etc.). Mas não se pode dizer que ele tem informações, pois não associa conceitos. Do mesmo modo, nesta conceituação não se pode dizer que um animal tem informação, mas certamente tem muito conhecimento.

Assim, há informação que se relaciona a um conhecimento, como no caso da segunda frase sobre Paris, pronunciada por alguém que conhece essa cidade; mas pode haver informação sem essa relação, por exemplo se a pessoa lê um manual de viagem antes de visitar Paris pela primeira vez. Portanto, a informação pode ser prática ou teórica, respectivamente; o conhecimento é sempre prático.

A informação foi associada à semântica. Conhecimento está associado com pragmática, isto é, relaciona-se com alguma coisa existente no "mundo real" do qual se tem uma experiência direta. (De novo, é assumido aqui um entendimento intuitivo do termo "mundo real".)."

Eu concordo com o Prof. Setzer no ponto que diz que conhecimento é algo vivenciado, algo experimentado. E eu expandiria o termo para algo elaborado, construído, pela pessoa com o conjunto de informações e conhecimentos que ela, e somente ela, possui.

I- Normas: A nnnnnnnnnn

J- Regras: A nnnnnnnnnn

K- Direito: A nnnnnnnnnn

L- Cultura: A nnnnnnnnnn

M- Civilização: A nnnnnnnnnn

N- Educação: A nnnnnnnnnn

O- Doutrinação: A nnnnnnnnnn

P- Dogma: A nnnnnnnnnn

Q- Liberdade: Liberdade é o poder do indivíduo de agir de acordo com a sua própria consciência, ou então, é o poder do indivíduo de executar as ordens da própria consciência, ou ainda, é o poder do indivíduo de expressar /manifestar a própria consciência.

Conseqüência direta da Teoria da Consciência e Liberdade:

O acesso à informação, saberes e conhecimentos é um Direito Natural do indivíduo, é um Direito Humano, pois sem informação, saberes e conhecimentos a consciência humana não funciona e não se desenvolve.

Se a consciência não recebe a matéria-prima para os processos mentais (informação, saberes e conhecimento), o indivíduo não se desenvolve e não evolui.

Portanto, a democratização/socialização da informação, dos saberes e dos conhecimentos é uma obrigação do Estado e da sociedade para garantir um direito humano fundamental, que é o direito de desenvolver a própria consciência.

E, conseqüentemente, o desenvolvimento sem impedimentos da consciência, acompanhada da livre expressão desta consciência, forma aquilo que conhecemos como liberdade, ou seja, forma outro direito humano fundamental.

O Homem é livre quando expressa, sem nenhum tipo de impedimento, a sua própria consciência.

E para expressar a sua consciência é fundamental que a desenvolva sem nenhum tipo de restrição ou impedimento e, para fazer isto, precisa acessar, precisa ter meios de acesso, à informação, aos saberes e aos conhecimentos construídos/produzidos socialmente/coletivamente, ao longo do tempo, pela Humanidade e passados de geração para geração.

3. Informação, Conhecimento, Pensamento e Consciência

(...)

4. Evolução cultural e Consciência

(...)

5. Consciência Individual e Liberdade Individual

A Consciência é um sistema analítico que avalia informações e conhecimentos e emite, após esta análise, uma sentença, uma decisão. A consciência pode ser comparada a um juízo ou uma vara judicial. O juízo ou vara judicial através do processo judicial analisa provas, fatos, etc. A consciência, através de processos mentais, analisa informações e conhecimentos. Os processos mentais são conhecidos por pensamentos. Quando pensamos estamos analisando informações e conhecimentos.

Portanto, a consciência, através de processos mentais (pensamentos), analisa informações e conhecimentos emitindo, como resultado dessa análise, uma sentença que poderá formar uma nova informação ou um novo conhecimento, ou então, a decisão é uma ordem que deve ser executada.

A ordem da consciência é a vontade. E esta ordem, decisão (uma sentença) interna, própria do indivíduo, é gerada por conhecimentos e informações que o indivíduo recebeu ao longo do tempo e de sua vida, assim como dos valores que aprendeu, dos costumes de onde vive, etc.

Liberdade e escravidão nos sistemas totalitários

Conclusão prevista para 2008.

Índice provisório do trabalho:

1. INTRODUÇÃO

2. PONTOS ESSENCIAIS DA TEORIA DE SISTEMA

     (...)

3. O TOTALITARISMO COMO SISTEMA

     (...)

4. TEORIA DA CONSCIÊNCIA E LIBERDADE

     4.1 Consciência Individual e Liberdade Individual

     4.2 Consciência Coletiva e Liberdade Coletiva

     4.3 Consciência Social e Liberdade Social

     4.4 Consciência Política e Liberdade Política

     (...)

5. A ESCRAVIDÃO TOTALITÁRIA

     (...)

6. DETECTAR E PREVENIR

     6. 1 Perigos da Sociedade de Massa

     6. 2 A banalização da vida e dos Seres Humanos

     6. 3 A corrupção das Instituições Políticas

     6. 4 Quando o mal contamina a Lei e o Direito

     6. 5 O perigo das Corporações e Pessoas Jurídicas

     6. 6 A fábrica de Eichmanns

            6.6.1 Educação, doutrinação e especialização

          6.6.2 Mídia: transformação de mentiras em verdades

         6.6.3 A propaganda e a formatação da consciência

           6.6.4 Violência, pobreza e indiferença

      6. 7 O perigo dos órgãos de espionagem e vigilância          

      6. 8 Uma sociedade de Banalidades e Indiferença

7. MECANISMOS INIBIDORES DO SISTEMA TOTALITÁRIO

   7.1 Máxima expressão da Consciência e Liberdade Plena

   7.2 Direitos Humanos

   7.3 ONU e Tribunais Internacionais

   7.4 Democracia Direta e Participação Popular

   7.5 Educação Reflexiva e Universal

   7.6 Estado de Direito efetivo e Sistema Democrático

   7.7 ONGs e Sociedade Civil Global

   7.8 Internet e Mídia Global

   7.9 Acesso aberto e gratuito ao Conhecimento e à Informação

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

9. REFERÊNCIAS

O trabalho se divide em três eixos ou três teses:

Primeira tese: O totalitarismo é um sistema; (Aplicação da teoria de sistema no totalitarismo).

Segunda tese: A liberdade como poder do indivíduo de agir de acordo com a sua própria consciência;

Terceira tese: A escravidão totalitária como domínio da consciência e do pensamento. (Relação liberdade x consciência x vazio de pensamento).

A construção desta teoria tem a finalidade de explicar a escravidão dos sistemas totalitários. Não há liberdade em um sistema totalitário, pois a única consciência possível em tais sistemas é a consciência do sistema. E a consciência do sistema gera a liberdade do sistema.

Há uma relação entre liberdade, consciência e vazio de pensamento. Esta relação é explorada e utilizada pelo totalitarismo.

A partir deste ponto defino a Liberdade como poder do indivíduo de agir de acordo com a sua própria consciência, ou seja, agir de acordo com a ordem emanada da consciência. Agir/expressar/manifestar a própria a consciência. A liberdade, portanto, é sempre uma ação em potencial, uma ação que pode ser concretizada ou não. Em ambos os casos estamos diante da expressão da liberdade do indivíduo.

A ordem, a ser executada, é formada pela consciência por meio de processos mentais (pensamentos) que analisam informações e conhecimentos.

Liberdade é um poder. Isto significa que é uma qualidade do indivíduo. Uma qualidade inerente ao indivíduo e sob seu controle exclusivo. É um poder racional derivado de processos analíticos (pensamentos). Percebam que este poder é controlado pela própria consciência que estabelece a sua forma de atuação na execução das ordens que emite. Não é um poder separado da consciência. É um poder atrelado/ligado à consciência. É um poder dependente de ordens da consciência.

Liberdade é um poder do indivíduo. Isto significa que o indivíduo desenvolve a sua própria liberdade sozinho. Ele adquire este poder sozinho. Não há uma concessão Estatal ou de um órgão externo. É o próprio indivíduo que constrói e delimita a sua própria liberdade, pois ele, e somente ele, executa os processos mentais que formarão a ordem da consciência, a ordem que será, ou não será, executada. É o indivíduo sozinho, ou consigo mesmo, que constrói esta ordem. Há, neste ato, apenas individualismo.

Liberdade é a expressão da própria consciência. A consciência executa processos mentais (pensamentos) que analisam informações e conhecimentos. Isto significa que a consciência precede a Liberdade. Não há liberdade onde não há consciência. Inclusive existem pessoas que não tem liberdade por não terem consciência. É o caso de uma pessoa em coma ou de uma criança recém-nascida ou muito jovem que não tem informações e nem conhecimento. E onde há consciência, há liberdade em potencial. Ela se tornará liberdade concreta quando se manifestar.

Se a liberdade é uma construção individual, uma construção isolada do indivíduo, o mesmo não se pode dizer da consciência. A consciência é uma construção coletiva, pois ela depende de informações e conhecimentos que vêm de outras pessoas, que vêm da convivência em conjunto. O indivíduo constrói a sua liberdade sozinho, pois analisa sozinho as informações e conhecimentos que possui e adquiriu ao longo do tempo. Porém, a sua consciência depende da vida em conjunto.

Ilustrativamente, a consciência, em seu início, tem apenas normas e regras de rotina, normas e regras de sobrevivência do indivíduo: comer, beber, etc. Conforme a pessoa evolui e cresce, ela aprende, ela adquire informações e conhecimentos. Assim, a sua consciência vai sendo construída, vai sendo moldada e fixada. Estas informações e estes conhecimentos não são produzidos pelo próprio indivíduo, mas sim obtidos no meio em que ele vive, de outras pessoas, na escola, na família, na igreja, etc. São informações e conhecimentos que foram construídas ao longo do tempo, ao longo da história da humanidade. Portanto, a liberdade é uma construção individual, porém, antes da liberdade vem a consciência, que é uma construção coletiva.

Para ter liberdade é preciso ter consciência, pois é a consciência que cria a liberdade, quando emite uma ordem que deve ser cumprida. Inclusive é a própria consciência que criou a idéia de liberdade e é a minha consciência que criou esta definição que estou expressando aqui agora. A consciência constrói uma ordem, logo constrói a liberdade. É uma construção racional, uma construção do intelecto humano. A liberdade, portanto, é o poder de manifestar a consciência.

Além disso, a liberdade é uma característica humana exclusiva, pois a consciência, entendida como sistema analítico de informações e conhecimentos, é exclusividade humana. Contudo, se criarmos uma máquina com consciência e com poder de manifestar as decisões desta consciência, esta máquina também terá liberdade. Certamente, será uma máquina parecida com os seres humanos, mas não igual aos seres humanos. É o caso, por exemplo, do sistema totalitário. Um sistema que é um grande Leviatã. Um sistema que possui uma consciência artificial, uma consciência superficial, uma consciência totalitária. Porém, uma consciência. E se é uma consciência, ela emite ordens, não necessariamente através de processos analíticos. E a execução destas ordens gera a liberdade deste sistema. No caso, a liberdade totalitária. Isto será melhor explicado em um texto específico sobre a questão.

Liberdade é o poder de agir. Este agir pode ser uma ação ou uma omissão. O agir é fazer aquilo que a consciência manda fazer. É o poder de agir de acordo, ou seja, o "agir de acordo" liga a ação ou omissão diretamente à ordem dada pela consciência. Agir de acordo é seguir a ordem da consciência. Portanto, a liberdade, nesta definição, está diretamente ligada à ação. Está ligada à ação em potencial, pois o indivíduo tem o poder de decidir se a ordem de sua consciência será executada ou não. Isto também está dentro de sua escolha, também é sua liberdade.

Portanto, a consciência constrói uma sentença e a própria consciência decide se esta sentença será executada ou não. A consciência decide se aquela ordem será transformada em ação ou não. Mas como é uma ordem para ser executada, é uma ação em potencial. E se a ordem não for executada, outra ação da consciência prevaleceu, ou seja, prevaleceu a ação para não-execução da ordem emanada. Tudo dentro da consciência. Tudo sob controle racional do indivíduo. Tudo dentro da definição de liberdade: "Liberdade é o poder de agir/expressar/manifestar a própria consciência."

Inclusive, esta idéia está alinhada com as concepções de Hannah Arendt. Contudo, Arendt considera que a liberdade é uma expressão apenas da vida política do indivíduo. Para ela, liberdade e política são a mesma coisa, isto porque é na política que cada indivíduo mostra/revela  a sua 'doxa' para os outros. Logo, é na política que acontece a ação.

Na minha perspectiva, a visão de Hannah Arendt está correta, porém, percebo que ela pode ser alargada, vejo a liberdade como uma expressão da consciência do indivíduo e não apenas expressão do indivíduo na política, assim a liberdade política concebida por Arendt é um subsistema, um ramo, da liberdade individual, pois existe uma consciência política que está dentro da consciência individual. Porém, ambas as liberdades são marcadas pela ação, em ambas as consciências do indivíduo se revela em sua ação, em ambas o indivíduo mostra a  sua 'doxa'.

De acordo com Newton Bignotto, no texto "Totalitarismo e liberdade no pensamento de Hannah Arendt":

"As formulações de Arendt sobre a liberdade receberam um tratamento detalhado em um de seus textos mais célebres de seu livro "Entre o Passado e o Futuro". Nele nossa autora insiste sobre a diferença existente entre a liberdade concebida como uma característica da vontade, própria ao cristianismo, e a liberdade como característica do cidadão, própria à cidade grega e romana.

Ora, o ponto que nos interessa é menos o da contraposição das tradições e mais o fato de que ela afirma sem ambigüidade que "a raison d'être da política é a liberdade, e seu domínio de experiência é a ação." Para ela os homens não precisam apenas da companhia dos outros para exercer sua liberdade, eles precisam de um espaço comum, politicamente organizado, para manifestarem suas capacidades.

Isso implica em dizer que o mundo da política, solo da liberdade, não pode ser confundido com um terreno intersubjetivo, no qual os homens estabelecem relações entre si, mas não necessariamente ações políticas. A equação arendtiana não é, portanto, entre liberdade e intersubjetividade, mas entre liberdade e política.

Que essa confusão possa ser feita, nossa autora não tem a menor dúvida. Respondendo à questão sobre o sentido da política hoje, depois de ter reafirmado sua convicção de que liberdade e política são a mesma coisa, ela vai notar o vazio que se cria, quando remetemos nossa vida em comum à esfera da sobrevivência e da pura relação de interesses: "Se é verdade que a política não é nada mais do que aquilo que é necessário para a conservação da vida da humanidade, então ela começou efetivamente a se autodestruir, quer dizer que faz com que sejamos livres apenas no momento exato em que agimos, nem antes nem depois."

Essa maneira de abordar o problema da liberdade e da ação, tão próxima à maneira como Maquiavel pensa o problema da virtù, permite compreender o sentido da oposição entre regimes totalitários e regimes livres, na medida em que a experiência da desolação, própria aos primeiros, se esclarece diante do fato que não podendo agir o homem não pode encontrar o espaço que o torna livre.

Mas essa associação direta entre política e liberdade esclarece melhor o caráter opressivo do totalitarismo do que a esperança de que ele possa ser destruído pela liberdade. O que resta a pensar é como compreender a esperança de que os regimes de terror venham a ser destruídos exatamente pela liberdade se, como procuramos lembrar, para Arendt os homens só são livres no exato momento em que agem e isso é impossível no totalitarismo." (p. 115-116)

Percebam que se a liberdade é o poder de agir; quando o indivíduo age, ele se revela, ele mostra a 'doxa' produzida por sua consciência. Certamente, estamos considerando a ação natural do indivíduo e não uma ação induzida por uma força maior, obrigada pela violência ou manipulada pela mentira. Logo, o poder de agir/expressar/manifestar a própria consciência é a revelação da 'doxa'. E o indivíduo não faz isto só na política, ele faz isto em todos os lugares onde ele se manifesta. E quando ele se manifesta, executando a ordem de sua própria consciência, ele revela a sua 'doxa', e quando isto acontece a sua liberdade se concretiza, ela se materializa.

De acordo com Francisco Xarão, na obra "Política e Liberdade em Hannah Arendt":

"Trata-se de uma abordagem hermenêutico-fenomenológica da ação e, nesse contexto, o que importa é a manifestação da liberdade, que só pode ocorrer quando o eu-quero da liberdade filosófica coincide com o eu-posso da liberdade política. Aliás, para Arendt, essa é a única liberdade que pode ser considerada porque aparece, ao passo que a filosófica é sempre um conflito entre o querer-não-querer da vontade, de tal modo que a própria faculdade da vontade se paralisa.

Portanto, se a ação em geral, que corresponderia à liberdade filosófica, é um restabelecimento, ou antes, uma reafirmação constante do principium de um initium, que vem ao mundo no momento do nascimento, a ação política, que corresponderia à liberdade política, mais especificamente, é um restabelecimento do princípio da lei que deu origem ao corpo político, isto é, a manifestação em cada ato político deste princípio." (p.170)

Uma conseqüência lógica do que foi dito nos parágrafos anteriores é: como não existem consciências iguais, não existem liberdades iguais. Cada indivíduo tem a sua própria consciência e tem a sua própria liberdade. Em cada indivíduo o poder de ação com consciência, ou seja, de acordo com a consciência, varia. A consciência individual é única. Logo, a liberdade individual, poder de agir com consciência, também é única. Contudo, todos o indivíduos tem consciência. Portanto, todos tem poder de agir com consciência. Todos possuem liberdade.

Esta teoria explica, inclusive, por que as pessoas possuem liberdades parecidas ou porque a percepção de liberdade entre os indivíduos é parecida. A resposta é: porque a nossa consciência se desenvolve sobre a mesma base cognitiva. Recebemos as mesmas informações, os mesmos conhecimentos, as mesmas regras, os mesmo costumes, valores, crenças, etc.

Logo, temos os mesmos conjuntos de dados que serão avaliados pelos processos mentais (pensamentos). Contudo, como existem pequenas variações nas cognições e nos pesos dados às informações e conhecimentos, temos liberdades individuais parecidas, mas jamais semelhantes. Cada pessoa tem a sua própria consciência e constrói a sua própria liberdade. Porém, faz isto dentro do mesmo sistema cognitivo social. Portanto, não existem grandes discrepâncias.

Disso decorre que onde há uma diferença acentuada na consciência, devido a diferenças no sistema cognitivo, valores e crenças há uma mudança acentuada na percepção da liberdade. É o caso da liberdade do oriente x a liberdade do ocidente.  A liberdade dos cristãos x a liberdade dos muçulmanos x a liberdade dos budista, etc.

A liberdade dos antigos x a liberdade dos modernos, citada por Benjamin Constant, é outra evidência que confirma esta Teoria da Consciência e Liberdade. Contudo, esta última diferença será melhor explicitada quando falarmos da Consciência Coletiva que estabelece e Liberdade Coletiva, da Consciência Social que gera a Liberdade Social e da Consciência Política que origina a Liberdade Política.

A percepção da liberdade é modificada porque a consciência foi alterada pelos dados da base cognitiva, dos valores, das crenças, etc. Essa mudança nos dados modifica a sentença, a ordem emitida pela consciência, ou seja, modifica a vontade e se a vontade é diferente, o poder para executar esta vontade é diferente. A liberdade é diferente, assim como a sua percepção. Contudo, a mudança não é excessivamente acentuada, pois a base cognitiva humana, no planeta Terra, é muito próxima e entrelaçada. Mas as variações são perceptíveis.

É válido observar ainda que tudo aquilo que contribui para a formação da consciência do indivíduo atinge a sua liberdade individual, pois o poder de agir  (liberdade) segue a ordem da consciência. A ordem da consciência é a vontade. Se a consciência tem poucas informações e conhecimentos, ou tem informações e conhecimentos falsos, manipulados, deturpados, etc, o resultado dos processos mentais (pensamentos) será atingido e prejudicado. Logo, a ordem emitida (vontade) é afetada, podendo ser restrita, ou excessivamente ampla, enfim, ficará fora da realidade.

O poder de agir, mesmo ocorrendo de acordo com a consciência, foi prejudicado. Portanto, a informação e o conhecimento que o indivíduo assimila e absorve pode formatar /afetar/prejudicar a sua consciência e atingir a sua liberdade, pois lhe dá uma falsa percepção da realidade. Origina uma falsa decisão da consciência, gerando uma falsa vontade que, conseqüentemente, gera uma falsa liberdade.

Tudo aquilo que afeta/atinge a consciência do indivíduo pode afetar/atingir a sua liberdade. Digo "pode" porque os processos mentais, durante os procedimentos analíticos (pensamentos), podem refutar aquela informação ou conhecimento manipulado ou viciado. Logo, a ordem (sentença) emitida não foi influenciada pelo novo estado da consciência.

Hipótese de N. Hartmann

1-- A antinomia causal mostra que deve haver uma liberdade positiva, que não seja simples disponibilidade nem indeterminabilidade, mas determinação de uma espécie particular;

2-- O fator determinante não deve estar fora do sujeito e, por conseguinte, não deve estar nos valores nem em qualquer outro princípio autônomo;

3-- O fator determinante tampouco deve radicar de maneira indefinidamente "profunda" no sujeito. Deve permanecer em sua camada consciente. Do contrário, não haveria liberdade moral. A liberdade não deve estar aquém nem além da consciência, mas na consciência.

4-- O fator determinante, contudo, não é inerente a uma consciência super-individual (na razão prática). Se assim fosse, a liberdade não seria liberdade da pessoa. por isso, deve-se reconciliar a interpretação Kantiana da liberdade com a teoria leibniziana da auto-determinação individual.

5-- Deve haver liberdade em dois sentidos; não basta haver liberdade diante da regularidade da natureza, devendo igualmente havê-la diante dos princípios morais e do ser; seja um imperativo ou os valores.

(Ethik, II, I, xi, a)

Se a ordem da consciência é limitada, a vontade será limitada e a liberdade também. Se a ordem é ampla, a vontade será extensa e o poder de agir (liberdade) pode ser ilimitado. A medida da consciência determina a vontade e estabelece o limite da liberdade.

Voltando à comparação para compreender a consciência. O juízo é a consciência. O juízo, para emitir uma sentença, analisa, por meio do processo judicial, provas, informações, etc. No âmbito da consciência ocorre a mesma coisa. Os processos mentais são os pensamentos e eles analisam informações e conhecimentos assimilados e absorvidos pelo indivíduo ao longo da vida.

O resultado da análise do juízo é a sentença. Na consciência, a sentença é a vontade, ou seja, a sentença emitida pela consciência é a vontade do indivíduo. O poder do indivíduo de agir de acordo com esta vontade, ou de seguir a ordem de sua consciência, é a sua liberdade.

Por isso, antes de tomarmos qualquer decisão, pensamos. A decisão, percebam, é a nossa vontade. E o que gera a vontade são processos mentais (pensamentos). E o nosso poder de cumprir esta ordem da consciência (vontade) é a nossa liberdade.

Se a decisão é muito importante, pensamos muito, ou seja, analisamos um monte de informações e conhecimentos. Porém, para certos casos, já temos pensamentos e sentenças prontas.

É exatamente igual o juízo ou o Tribunal. Para certos casos os juízes e os desembargadores já tem sentenças prontas. Só recortam e colam, mudando os nomes das partes. No caso da consciência, ocorre a mesma coisa. Nos casos que já temos uma sentença pronta, já pensamos muitos sobre aquilo em um caso anterior, não há necessidade de muito pensamento. É só recortar e colar a sentença, a ordem da consciência.

Esta sentença pronta é um conhecimento nosso, uma aprendizagem nossa, ou seja, não há necessidade de uma extensa cognição neste caso, pois já existe, em nossa memória, uma sentença pronta, uma pré-cognição. Uma sentença produzida pela consciência e arquivada na memória.

Certamente, pode não ser uma sentença produzida pela consciência individual, porém, a consciência da pessoa aceitou aquela informação/conhecimento como verdadeira. Logo, internalizou aquela sentença pronta que veio do mundo exterior. A partir dessa internalização (aceitação pela consciência da sentença) o conhecimento/informação torna-se parte do indivíduo como se fosse algo natural produzido por sua própria consciência através de processos mentais internos(pensamentos) . 

Esta característica da consciência é explorada pelos sistemas totalitários por meio da educação, da doutrinação, da mídia e da propaganda que injetam/introjetam no indivíduo ensinamentos, informações e conhecimentos que não foram experimentados ou testados por ele. Técnicas e truques de mídia e propaganda internalizam estes ensinamentos, contaminando a consciência do indivíduo com falsas informações e conhecimentos, fazendo-o aceitá-los como se fosse algo natural, como algo próprio gerado por sua consciência, criado pelos seus processos mentais (pensamentos). Mas isto nunca aconteceu, ou seja, aquela informação ou conhecimento que lhe está sendo passado ou introjetado não lhe pertence e nem contribui para o seu desenvolvimento.

É um vírus que busca dominar a consciência e, por conseqüência, formatar a liberdade gerada. Controlando a consciência, controla-se a liberdade. manipulando a consciência, manipula-se a liberdade. E é por meio da consciência que construímos indivíduos dóceis e obedientes, adequado a certos regimes e sistemas.

Uma consciência contaminada e manipulada emite uma ordem contaminada e manipulada, uma ordem falsa. A ordem falsa será cumprida, gerando uma falsa liberdade. Uma liberdade que não é original da pessoa, mas de uma outra consciência, de uma outra vontade. Uma ordem adequada para o funcionamento de um determinado sistema.

A vontade é uma ordem emitida pela consciência, mas a consciência não emite só ordens e não se manifesta só através da vontade. A consciência regula, ordena, sistematiza, recebe, emite, transforma, etc, informações e conhecimentos através de pensamentos (processos mentais). Os pensamentos manipulam informações e conhecimentos, produzindo uma sentença (decisão) que pode constituir novas informações (emissão de dados sem cognição) ou novo conhecimento (novos dados oriundos de cognição).

Além disso, durante a execução dos processos mentais analíticos, dentro da consciência,  não há emissão de ordens, ou seja, enquanto estamos pensando, a ordem da consciência está sendo processada e produzida. Há liberdade neste momento, ou seja, há liberdade enquanto estamos parados pensando ?

Algum observador mais atento pode pegar a seguinte seqüência lógica: a liberdade está ligada à emissão de ordens da consciência. Esta ordem é a vontade. Se não há emissão de ordem, não há vontade. Se não há vontade, não há liberdade. Se liberdade é o poder de agir, há liberdade quando não estamos agindo, ou seja, quando não estamos cumprindo ordens da nossa consciência ? Há liberdade sem vontade ? É necessário existir liberdade sem vontade ?

Neste ponto entra uma sutileza fundamental da definição. Liberdade é o poder do indivíduo de agir de acordo com a própria consciência. Não foi dito que: Liberdade é o poder do indivíduo de agir de acordo com a própria vontade. Qual é a razão disso ? O motivo é o seguinte: se eu definir a liberdade pela vontade, exclusivamente pela vontade, ou seja, pela ordem da consciência, fica desprotegido, e fora do conceito de liberdade, a própria consciência que é a fonte da liberdade.

Logo, definindo a liberdade pela vontade, não há liberdade onde não há vontade. Contudo, definindo a liberdade pelo poder do indivíduo de agir de acordo com a própria consciência, o funcionamento da consciência também é resultado  da liberdade. Há uma ordem da consciência que inicia os processos mentais. Esta ordem é uma vontade que faz a consciência funcionar, que inicia o pensamento. Logo, o cumprimento dessa ordem constitui uma liberdade. E não há liberdade onde esta ordem é impedida de ser cumprida.

Portanto, para proteger a fonte da liberdade é preciso inserir, no conceito, uma ordem fundamental emitida pela consciência, que é: agir de acordo com a própria consciência. Vejam que esta ordem é do indivíduo sobre ele mesmo. É a consciência construindo uma rotina que ela mesma irá cumprir, uma rotina para o seu próprio funcionamento. Esta rotina é protegida pelo Direito natural.

Assim, durante a execução dos processos mentais analíticos, enquanto estamos pensando, a consciência não ficará desprotegida e abandonada, logo esta auto-proteção impede que ela seja atacada e modificada, ou seja, para que o processamento da consciência ocorra sem nenhum problema e sem interferência do mundo exterior é preciso que ela seja protegida pela liberdade.

Portanto, cabe à ordem fundamental proteger este momento de reflexão e pensamento, estabelecendo que o agir de acordo com a própria consciência também significa não interferir no processamento da consciência, nos processos mentais (pensamentos) que geram as ordens da consciência. Interferir nestes processos também inibe/atinge a liberdade do indivíduo. Logo, enquanto a consciência processa, naturalmente, informações e conhecimentos, a liberdade do indivíduo está sendo exercida, está em plena atividade.

Impedir alguém de pensar é impedir o funcionamento da consciência. É impedir a formação de uma ordem (vontade). Logo, significa tirar a liberdade do indivíduo. Impedir alguém de pensar é impedir o nascimento da liberdade. Lembre-se que não há liberdade onde não há consciência e, também, não há liberdade onde a consciência é impedida de funcionar, onde a pessoa é impedida de pensar.

Logo, a manipulação da consciência e dos pensamentos, da informação e dos conhecimentos, que produz uma vontade viciada e deturpada, rompe o conceito e tira a liberdade do indivíduo. Se o indivíduo não agiu de acordo com a sua própria consciência, ele não é livre. E o termo "sua própria consciência" significa que a formação desse juízo individual deve ter ocorrido naturalmente, sem nenhuma espécie de manipulação, dominação, controle ou interferência.

Portanto, mesmo o indivíduo seguindo a ordem emanada de sua consciência, se a consciência foi manipulada, formatada, viciada, etc, ele não tem liberdade, pois os processos internos que produziram aquela ordem (a consciência, os pensamentos, a informação, os conhecimentos) foram contaminados e viciados. A consciência que agiu não era do indivíduo, mas de outro, por exemplo, do sistema totalitário. O indivíduo não agiu de acordo com a sua própria consciência, mas foi levado a agir de acordo com a consciência de outra pessoa ou sistema.

Além disso, é válido dizer que a única forma de se retirar completamente a liberdade de um indivíduo é retirando a sua consciência. Não basta apenas criar normas que inibam ou impeçam a consciência de se manifestar, pois a consciência pode, perfeitamente, contrariar a norma ou ignorá-la, ou seja, as normas não retiram a liberdade do indivíduo, pois não podem e não conseguem retirar a consciência. As normas simplesmente reorientam ou condicionam a consciência do indivíduo exteriormente, limitando a liberdade.

Retirar a consciência do indivíduo significa contaminar o funcionamento natural da consciência, modificando a base de análise. É uma espécie de lavagem cerebral que modifica o banco de dados analítico da consciência. O banco de dados formado com informações, conhecimentos, costumes, valores, etc, que o indivíduo captou ao longo da vida naturalmente é substituído por um banco de dados artificial, introjetado pelo sistema, dentro da consciência da pessoa. Assim, a consciência, ao invés de analisar o banco de dados natural, analisa o banco de dados artificial. E é em cima deste último banco de dados que a consciência passa a operar, emitindo sentenças (vontade). Logo, a liberdade oriunda desta vontade viciada e contaminada não é a liberdade do indivíduo, mas sim a liberdade do sistema.

E é justamente nesse ponto que entra a razão de ser dessa teoria, ou seja, a novidade totalitária. O totalitarismo faz uma coisa que nenhum outro sistema tinha conseguido fazer antes. E que coisa é essa ? O totalitarismo retirou a consciência dos indivíduos. Logo, retirou completamente a liberdade dos Seres Humanos que pertenciam àquele sistema. Todos os movimentos anteriores atingiam o indivíduo criando regras e normas que condicionavam as consciências e limitavam a liberdade, mas nenhum sistema jamais havia retirado a consciência das pessoas. Retirando a consciência, ele retirou completamente a liberdade dos indivíduos.

Mas o totalitarismo foi além, muito além disso, ele não só retirou a consciência, mas a substituiu por outra consciência: a consciência do sistema totalitário. As pessoas perderam a sua consciência individual, logo, perderam a sua liberdade individual; e receberam, em troca, a consciência do sistema, logo, passaram a ter a liberdade do sistema (poder de agir de acordo com a consciência do sistema). A consciência do sistema gera a liberdade do sistema.

Mas o que exatamente quer dizer perda de consciência, seguida de substituição de consciência ? Em termos excessivamente genéricos é uma espécie de lavagem cerebral em massa. Retira a consciência do indivíduo, fazendo-o perder a sua identidade e individualidade, imergindo-o em uma multidão de iguais.

Por isso, em um sistema totalitário a mídia, a propaganda e o terror são tão importantes. Por isso, o vazio de pensamento, a mediocridade e a indiferença são essenciais para o sucesso inicial do sistema. São características comuns no homem da massa, características que facilitam e garantem o sucesso de substituição de consciência dos indivíduos. Pessoas com tais características tem suas consciências facilmente arrancada e substituída por outra. São pessoas dóceis, facilmente controladas e dominadas. Pessoas que não percebem que seus pensamentos são pensamentos do sistema, que suas idéias e ideais são idéias e ideais do sistema, que suas ações são ações do sistema. A consciência que possuem é a consciência do sistema. Pensam igual o sistema. Falam igual o sistema. Agem igual o sistema. Fazem o que o sistema faz.

A retirada de consciência, assim como a substituição das consciência individuais é muito mais fácil onde existe massa. Isto porque, de acordo com Hannah Arendt:

Os movimentos totalitários são possíveis onde quer que existam massas que, por um motivo ou outro, desenvolveram certo gosto pela organização política. As massas não se unem pela consciência de um interesse comum e falta-lhes aquela específica articulação de classes que se expressa em objetivos determinados, limitados e atingíveis. O termo massa só se aplica quando lidamos com pessoas que, simplesmente devido ao seu número, ou à sua indiferença, ou a uma mistura de ambos, não se podem integrar numa organização profissional ou sindicato de trabalhadores. Potencialmente, as massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes, que nunca se filiam a um partido e raramente exercem o poder de voto. (p. 399)

Percebemos, portanto, que o homem da massa é um homem que não desenvolveu a sua consciência política e pouco exercita a sua consciência social, que também é atrofiada. Logo, não tem um pensamento crítico evidente e pode ser facilmente controlado, seguindo a voz de quem grita mais alto. Este homem, que integra a massa de iguais, é o modelo ideal para a ação da mão invisível do totalitarismo.

É um sistema que não admite questionamentos. Quaisquer questionamentos põe o sistema em risco, podendo romper a estrutura e mostrar as reais intenções e os objetivos da coisa. O todo é visto apenas por quem estrutura e controla o sistema. E o homem da massa não questiona nada, apenas executa as ordens. Logo, é o homem ideal para assumir a função de agente totalitário. É o indivíduo totalitário natural, precisando apenas de treinamento básico para o posto futuro.

O método totalitário de retirada de consciência dos indivíduos, acompanhados pela instalação da consciência dos sistema totalitário em cada pessoa, nas palavras de Hannah Arendt, é a produção/construção de uma massa atomizada e amorfa.  A mão totalitária invisível ataca toda a sociedade de uma vez. E o registro mais preciso do uso desse método é descrito, por Hannah Arendt, no Stalinismo:

Desde os tempos antigos, a imposição da igualdade de condições aos governados constituiu um dos principais alvos dos despotismos e das tiranias, mas essa equalização não basta para o governo totalitário, porque deixa ainda intactos certos laços não políticos entre os subjugados, tais como laços de família e de interesses culturais comuns. Se o totalitarismo encarar seriamente as suas pretensões, deve considerar sem desvio a questão em que tem de "acabar de uma vez para sempre com a neutralidade de xadrez", isto é, com a existência autônoma de qualquer espécie de atividade. Os amantes do "xadrez por amor do xadrez", adequadamente comparados pelo seu liquidatário com os amantes da "arte pela arte", ainda não são de maneira absoluta elementos atomizados numa sociedade de massas cuja uniformidade completamente heterogênea constitui uma das condições primárias do totalitarismo.

Do ponto de vista dos governantes totalitários, uma sociedade dedicada ao xadrez por amor ao xadrez é apenas diferentes e menos perigosa em grau do que uma classe de agricultores por amor à agricultura. Hitler definiu muito adequadamente o membro da SS como o novo tipo de homem que em nenhuma circunstância jamais fará qualquer coisa "por ela mesma".

A atomização de massas na sociedade soviética foi realizada através do hábil uso de sucessivos expurgos que invariavelmente precediam uma verdadeira liquidação em grupo. A fim de destruir todos os laços sociais e familiares, os expurgos eram realizados de modo a ameaçar com o mesmo destino o réu e todas as pessoas que privavam com ele, desde os simples conhecidos aos amigos mais íntimos e aos familiares. A conseqüência do singelo estratagema de "culpa por associação" reside no seguinte: logo que um homem é acusado, os seus velhos amigos são transformados imediatamente nos mais implacáveis  inimigos; para salvarem a própria pele, oferecem informações e apresentam-se diligentemente com denúncias que corroborem as provas não existentes contra ele; obviamente, esta é a única maneira de comprovar a sua lealdade.

Retrospectivamente, tentarão provar que as suas relações ou a sua amizade com o acusado constituíam apenas pretexto para o espiar ou para o denunciar  como sabotador, trotskista, espião estrangeiro ou fascista. Sendo o mérito "aferido pelo número de denúncias feitas por velhos camaradas" , é óbvio que a cautela mais elementar exige que uma pessoa evite todos os contactos íntimos, se possível - não para evitar a descoberta dos pensamentos próprios, mas para eliminar, nos casos quase certos de futuros incômodos, todas as pessoas que possam ter não só um ínfimo interesse em denunciá-la, mas também a necessidade irresistível de provocar a sua ruína simplesmente porque a própria vida do provável denunciante corre perigo.

Em última análise, foi através do desenvolvimento deste estratagema até aos seus mais fantásticos extremos que governantes bolcheviques conseguiram criar uma sociedade atomizada e individualizada, como nunca se viu igual e que eventos ou catástrofes só por si dificilmente poderiam originar. (p. 412-413)

(...) Os movimentos totalitários são organizações maciças de indivíduos atomizados e isolados. Distinguem-se dos outros partidos e movimentos pela exigência de lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável de cada membro individual. Essa exigência é feita pelos líderes dos movimentos totalitários mesmo antes de tomarem o poder e decorre da alegação, já contida na sua ideologia, de que a organização abrangerá, no devido tempo, toda a raça humana. Contudo, onde o governo totalitário não é preparado por um movimento totalitário, o movimento tem de ser organizado depois, e as condições para o seu crescimento têm de ser artificialmente criadas de modo a possibilitar a lealdade total, que é a base psicológica do domínio total. Não se pode esperar essa lealdade a não ser de seres humanos completamente isolados que, desprovidos de outros laços sociais - de família, amizade, camaradagem - só adquirem o sentido de terem lugar neste mundo quando participam de um movimento ou pertencem a um Partido.(p. 414)

Portanto, esta atomização das massas, citada por Hannah Arendt, é um método eficiente para eliminar a consciência individual das pessoas. Este método elimina a consciência individual através da eliminação das partes, das outras consciências que compõem a consciência individual. Primeiro, ataca a consciência política, em seguida a consciência social. Logo após a consciência coletiva e, por último, assimila a consciência individual como um todo. 

Ao mesmo tempo que destrói a individualidade da pessoa, a consciência individual, o totalitarismo insere a consciência do sistema totalitário no indivíduo. Na descrição, isto aparece no fato dos velhos amigos serem transformados em delatores ou nos mais implacáveis inimigos. Transformados em zumbis que protegem o sistema totalitário detectando e denunciando a existência de pessoas que ainda não foram assimiladas pelo sistema, ou seja, de pessoas que ainda possuem intactas a consciência individual natural. Logo, pessoas que podem questionar e destruir o sistema por dentro, exercendo a liberdade natural, oriunda da consciência individual natural.

No rodapé da página 413 desta obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism",  Hannah Arendt cita o relato de Nadiedja Mandelstam que viveu o horror da ação totalitária na URSS e assistiu de perto a mão invisível do sistema totalitário eliminando as consciências, uma por uma, até destruir a consciência principal e a individualidade de cada pessoa:

Ninguém confiava em ninguém, e cada conhecido era um possível informador da polícia. Às vezes, parecia que todo o país estava a sofrer de mania de perseguição - uma doença de que ainda hoje não estamos curados. A nossa aflição não era sem fundamentos: sentíamos-nos como se estivéssemos constantemente expostos a uma câmara de raios-X, pois a espionagem mútua era o principal instrumento de controle do Estado.

"Não há que ter medo", havia dito Stálin, "é uma tarefa como todas as outras". Nas escolas, um sistema de "autogoverno" na sala de aula, com monitores e representantes do Komsomol, possibilitava aos professores extrair dos alunos as informações de que necessitavam. Os estudantes tinham ordem de espiar os professores.

(...) Tudo isto era parte da nossa vida diária, e acontecia numa vasta escala e afetava a todos indiscriminadamente. Cada família reexaminava constantemente o seu círculo de relações, procurando determinar quais eram os provocadores, os informadores e os traidores. Depois de 1937, as pessoas simplesmente deixaram de se encontrar umas com as outras: a polícia secreta havia atingido o seu objetivo final. Além de garantir a existência de um constante fluxo de informações, a polícia secreta havia isolado completamente os indivíduos.

Ao tomar conhecimento da última prisão, nunca perguntávamos: "Por que ele foi preso ?" Mas nós éramos uma exceção. Para muita gente aturdida pelo medo, fazer essa pergunta era um modo de alimentar alguma esperança: se os outros estavam a ser presos por algum motivo, então eles não seriam presos porque nada haviam feito de errado.

Cada um procurava encontrar um motivo mais engenhoso que o outro para justificar essas prisões: "Bom, ela é contrabandista mesmo, você sabe"; "não se pode negar que ele foi além dos limites"; "eu mesmo ouvi quando ele disse..." Ou então "não se podia esperar outra coisa - aquele sujeito não presta"; "sempre achei que havia algo errado nele"; "ele não é um de nós". Isto era motivo suficiente para prender e destruir uma pessoa: "não é um de nós", "fala demais", "é mau sujeito".

Estas afirmações nada mais eram que variações de uma cantiga que havíamos escutado pela primeira vez em 1917. A opinião pública e a polícia inventavam sem cessar novas variações mais ilustrativas, alimentando o fogo sem o qual não há fumo. Por isto, no nosso círculo era proibido fazer a pergunta: "porque foi ele preso ?"  " Por que ?" exclamava Akhmatova, indignada, sempre que algum de nós, contagiado pelo clima reinante à nossa volta, fazia essa pergunta "Você já devia saber há muito tempo que as pessoas são presas por nada !" (Nadiedja Mandelstam).

Olhando para Eichmann, vemos que ele tinha vontade, que ele seguia a sua vontade, mas ele não era livre, pois a sua consciência estava contaminada pelo nazismo. Os pensamentos que circulavam na consciência de Eichmann e que emitia ordens, formando a sua vontade, eram pensamentos do sistema totalitário. Logo, a liberdade de Eichmann era a liberdade do sistema totalitário. Isto porque a vontade dele era formada por uma consciência movida por informações e conhecimentos introjetados pelo movimento nazista. A consciência de Eichmann era a consciência do sistema, pois os pensamentos de Eichmann eram sentenças prontas, formulas prontas emitidas pelo nazismo. Eichmann não questiona as sentenças e nem as fórmulas. Não processava informações e nem os conhecimentos. Apenas executava as ordens que recebeu da consciência totalitária. .

Eichmann chama este comportamento de obediência cadavérica (Kadavergehorsam). Isto é contado por  Hannah Arendt na obra Eichmann em Jerusalém:

Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncios Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei. (...)

Como além de cumprir aquilo que ele concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens - sempre o cuidado de estar "coberto" -, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a "obediência cadavérica" (kadavergehorsam), como ele próprio a chamou. (p. 152)

E como dissemos anteriormente, aceitar sentenças prontas significa não processar nada, apenas executar aquilo que veio pronto. Este é o truque do sistema: introjetar sentenças prontas nos indivíduos que integram o sistema. Por isso, fala-se em vazio de pensamento. Vazio de pensamento de um ser humano normal. Porém consciência repleta de pensamentos do sistema totalitário: anti-semitismo, extermínio, ordens do Führer, câmara de gás, etc.

 Outra passagem de Hannah Arendt que evidencia a retirada de consciência individual está na p. 394-395 da obra "O Sistema Totalitário", tradução portuguesa de "The origins Totalitarianism" e diz:

Mas o que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo dos seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazi ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra os inimigos do movimento, mas o facto espantoso é que ele não vacila quando o monstro começa a devorar os próprios filhos, e nem mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão, quando é incriminado e condenado, quando é expulso do partido e enviado para um campo de concentração ou de trabalhos forçados. Pelo contrário: para assombro de todo o mundo civilizado, estará até disposto a colaborar com a própria condenação e tramar a própria sentença de morte, contanto que o seu "status" como membro do movimento permaneça intacto.

Seria ingênuo pensar que essa obstinada convicção, que sobrevive a todas as experiências reais e anula todo o interesse pessoal, seja mera expressão de idealismo ardente. O idealismo, tolo ou heróico, nasce da decisão e da convicção individuais, mas forja-se na experiência. O fanatismo dos movimentos totalitários, ao contrário das demais formas de idealismo, desaparece no momento em que o movimento deixa em apuros os seus seguidores fanáticos, matando neles qualquer resto de convicção que possa ter sobrevivido ao colapso do próprio movimento.

Mas, dentro da estrutura organizacional do movimento, enquanto ele permanece inteiro, os membros fanatizados são inatingíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parece ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte. (p. 394-395)

Liberdade é o pode de agir de acordo com a própria consciência. Liberdade totalitária é o poder de agir de acordo com a consciência totalitária. E a consciência totalitária só emite ordens de dominação e destruição. As pessoas não se reúnem porque são livres ou para expressar as suas consciências, mas sim, porque possuem certas características, criadas ou outorgadas pelo sistema totalitário, que as tornam específicas para certos fins. As pessoas se reúnem para dominar ou, então, se reúnem para serem destruídas.

O campo de concentração, inegavelmente, é uma esfera pública totalitária que reúne pessoas com características específicas e destinadas a certos fins. Além disso, nestas esferas totalitárias as pessoas nãos e reúnem espontaneamente, motivadas por suas consciências naturais, mas são reunidas por ordens do sistema, são motivadas pela consciência totalitária.

A própria consciência totalitária disseminada na sociedade, contaminada por este mal, promove a divisão e a reunião dos grupos, distribuindo as pessoas pelas esferas respectivas: para dominar ou para serem destruídas. O anti-semitismo está na consciência totalitária, assim como a sociedade perfeita, o arianismo, etc.

No final do documentário "Arquitetura da Destruição", Peter Cohen diz:

Longe da Alemanha, no porão dos vencedores, retratos da hierarquia nazista, apareceram décadas depois. Dentre os funcionários do Partido, vemos peritos em genocídio, médicos e arquitetos. É árdua a tarefa de definir o Nazismo em termos políticos, pois sua dinâmica está repleta de um conteúdo diverso daquilo que comumente chamamos de Política. Em grande parte, esta força motora era estética. Sua maior ambição era o embelezamento violento do mundo. Das mortes de doentes mentais ao extermínio dos judeus não houve um verdadeiro motivo político. Não eliminaram os inimigos ou oponentes do regime, mas sim, pessoas inocentes, cuja existência não estava de acordo com os ideais nazistas. Com os civis mortos, os assassinatos em massa não eram crimes de guerra. Eram assassinatos de civis por ordens militares. A bagagem mental obscura, a estranha noção de política, que são tão características da cultura européia, encontraram vazão sob o domínio de Hitler. Hitler passou das palavras à ação. Sem restrições, ele transformou uma ideologia absurda em uma realidade infernal.

Outro ponto que é preciso atentar é o seguinte: a vontade é uma ordem. Porém, além da consciência, outros processos internos do indivíduo também emitem ordens. Por exemplo, os processos vitais, o inconsciente, etc. Estas ordens também são vontades. Para diferenciar isto, vamos chamar a vontade que é a ordem emanada da consciência e que derivou de processos analíticos (pensamentos), que analisaram informações e conhecimentos, de vontade consciente.

A vontade que não tem origem na consciência, mas em processos vitais, por exemplo, também afeta a liberdade do indivíduo. Não só afeta como pode gerar um choque entre vontades. É o caso, ilustrativamente, de um indivíduo que foi envenenado e o seu algoz tem o antídoto, porém, seu algoz somente lhe dá o antídoto se a pessoa envenenada praticar um ato criminoso, por exemplo, matar alguém. Nós temos aqui a vontade consciente que impede a vítima de matar e a vontade vital que a obriga a matar para salvar a própria vida. Outro caso é do indivíduo que somente recebe comida se praticar certos atos. Por exemplo, a adolescente presa com os homens no Pará. Ela somente comia se transasse com os detentos. Mais um conflito entre duas vontades.

Este choque de vontades é previsto na legislação penal. Chamam de estado de necessidade, legítima defesa, estrito cumprimento do dever legal.

Entretanto, é preciso observar que a liberdade é uma construção racional. Ela depende de uma análise racional, de pensamentos racionais. Logo, de uma análise consciente, uma análise da consciência. Por isso, a definição diz que Sou livre porque faço aquilo que a minha consciência manda fazer. Se não posso fazer o que a minha consciência manda fazer, não sou livre. Portanto, a vontade que tem origem nos processos vitais ou inconscientes podem afetar a liberdade, reduzi-la, eliminá-la, mas não integram a sua definição. A última sentença vem da consciência. Em todos os casos citados as pessoas poderiam escolher e poderiam fazer prevalecer a sua vontade consciente sobre as vontades vitais ou inconscientes. Dizem, não sei se é verdade, que o homem é o único animal que se suicida. Isto faz sentido, pois a vontade consciente é capaz de por fim a sua própria existência, enquanto a vontade vital, por exemplo, age sempre no sentido de salvar a vida.

Portanto, liberdade é o poder do indivíduo de agir de acordo com a sua consciência, de acordo com a sua vontade consciente.

Assim, um indivíduo que age por obrigação não é livre, é obrigado. Um indivíduo que age por dominação não é livre, é dominado. Um indivíduo que age por necessidade não é livre, é necessitado. E o indivíduo que não age, contrariando a sua própria consciência, também não é livre, é impedido.

"Para a Ciência Moderna, inversamente, a teoria é uma descrição de processos que funcionam, derivando deste simples fato a sua legitimidade enquanto teoria.

Conseqüentemente, o conceito de verdade também mudou.

Verdade não é mais algo que se revela, mas alguma coisa que permite a conexão das diversas variáveis dentro da descrição de um processo de tal modo que ele funcione.

Na lógica contemporânea essa coerência tem sido chamada de consistência do sistema." (p.85)

(Política e Liberdade em Hannah Arendt - Francisco Xarão - Ed. UniJuí - RS - 2000)

Todo homem tem consciência, logo todo homem tem liberdade (poder de agir). A consciência é inata no homem, logo a liberdade (poder de agir) também é inata no homem. O grau de consciência depende da quantidade de conhecimento e de informações adquiridos pelo indivíduo ao longo do tempo. E esse grau de consciência (medida) determina a extensão (limite) da liberdade do indivíduo, do poder de ação do indivíduo.

O termo "inato" está sendo utilizado no sentido de que todo indivíduo irá desenvolver, ao longo do tempo, uma consciência e não no sentido de que  o indivíduo já nasce com uma consciência pronta. Assim, conforme o indivíduo desenvolve a sua consciência, ele amplia a sua liberdade, o seu poder de ação consciente.

Vamos pegar uma criança como exemplo. Ela nasce com consciência zero, logo com liberdade zero. Conforme ela vai crescendo, ela vai adquirindo conhecimento e informações, a sua consciência vai se desenvolvendo, logo a sua liberdade vai aumentando. Até que essa criança atinge um estágio no qual, por convenção social, ela adquiriu um número mínimo de conhecimento e informações, logo uma consciência razoável para operar sobre as coisas e sobre o mundo, podendo decidir por si mesma. Nesse momento a criança deixa de ser criança e passa a ser adulta, pois ela atingiu o grau da maioridade. Ela atingiu o estágio de liberdade ampla, ou seja, liberdade suficiente para agir e sobreviver sozinha. Ela se libertou do julgo da família, porém continua semi-livre, como as demais pessoas, pois está sujeita às demais normas e regras da sociedade, assim como da moral, da ética, etc, que limitam a sua liberdade, o poder de ação que emana da sua consciência.

Essa definição de Liberdade parece com as idéias de Kant, pois ele fala em Liberdade relacionada com livre-arbítrio e dever. Porém, não consegui enquadrar a minha idéia esquisita nos escritos Kantianos.

As definições são um grande problema. Você não sabe se aquele fenômeno é uma coisa ou é outra. Eu penso que tudo está embaixo do mesmo guarda-chuva: autoritarismo.

Eu gostaria de usar o termo "totalitarismo", mas dirão que ele é específico a certos regimes. Contudo, eu defendo que a meta final do autoritarismo (ditaduras, fascismo, nazismo, stalinismo, maoismo, etc) é construir um sistema totalitário perfeito. E o melhor exemplo de um sistema totalitário perfeito é um formigueiro ou uma colméia...

O totalitarismo visa, justamente, transformar a sociedade humana em um formigueiro ou uma colméia. Esse é o objetivo final.

Não consegui enquadrar por causa do dever. Vejo o dever como uma condicionante, uma esfera de limitação da consciência, logo um inibidor da liberdade. Quem age por dever, muitas vezes, age contrariando a própria consciência, logo, não é livre. Não tem liberdade. Ele está condicionado pelo dever. Certamente, se o dever e a consciência do indivíduo estão alinhados, ele cumpre o dever simplesmente seguindo a sua consciência. Logo, ele é livre cumprindo o dever.

Também vejo o Direito como outra condicionante da consciência. Logo, outra esfera inibidora da liberdade. Isso porque a consciência do homem pode contrariar o Direito, pode contrariar as normas vigentes. Logo, o Direito limita e inibe a esfera de consciência. Portanto, inibe e limita a liberdade. Por isso, é válida a frase que diz: "Sempre que nasce um direito, morre uma liberdade". Morre uma liberdade porque uma consciência foi condicionada e os indivíduos não terão mais uma consciência livre naquele assunto. Terão que agir, não de acordo com a própria consciência, mas de acordo com a prescrição da norma que foi criada.  A consciência tem que seguir a norma. A liberdade foi condicionada e limitada.

A moral também é uma condicionante da consciência. Logo, outra esfera inibidora da liberdade, valendo aqui a diferenciação clássica de que moral é norma de conduta de foro íntimo do indivíduo, enquanto o Direito é norma de conduta externa ao indivíduo.  Pode-se observar ainda que a coação é inerente ao Direito, só se exerce nos casos em que uma norma jurídica a prevê ou admite. Já a norma moral dispõe apenas  de uma sanção difusa (a reprovação social) ou de uma sanção individual: a consciência pesada.

Consciência pesada, nesta perspectiva viajante, significa que o indivíduo agiu contrariando a sua consciência. Se agiu assim é porque não era livre. E o reflexo dessa ação sem liberdade é a consciência pesada, ou seja, o indivíduo é livre hoje, mas, em algum momento do seu passado, ele perdeu parte de sua liberdade. Hoje ele pode se movimentar e agir perante os outros, mas não é livre consigo mesmo: carrega uma consciência pesada, por exemplo, uma culpa. Culpa que vem da pratica de algum ato que contrariou a sua consciência e que retirou parte de sua liberdade.

Geralmente, a consciência pesada deriva da violação de uma norma moral. Certamente, exclui-se aqui as culpas oriundas de atos praticados livremente, ou seja, que o indivíduo praticou com consciência, mas que derivou em uma tragédia. Agiu com liberdade, mas a sua ação livre ocasionou desgraça.

Certamente, podem existir, naturalmente, consciências individuais alinhadas com a moral, com o dever e com o Direito. Porém, na maioria das vezes, a moral, o dever e o Direito surgem como mecanismos para inibir a expressão de determinadas ações ou omissões conscientes. Assim, é válido o entendimento dos psicanalistas que vêem o Direito como um constrangimento. Contudo, não concordo com os psicanalistas na afirmação de que o Direito é sempre uma pressão exercida contra os verdadeiros instintos do homem. (B. - Pierre Flottes, El inconsciente en la historia. Guadarrama ed. Madri, 1971).

Não concordo com isso porque os instintos não podem ser controlados. São instintos. Mas a consciência pode. Portanto, o Direito, a moral e o dever são formas de constrangimento da consciência do homem. São formas de controle da consciência. É um meio de pressão que busca uniformizar as consciências individuais na sociedade.

Muitas vezes a consciência individual leva o indivíduo a agir contrariando a moral, o dever ou o Direito. Violou tudo, moral, dever e Direito, mesmo assim o indivíduo se sente tranqüilo e livre, pois agiu de acordo com a sua própria consciência.

Nesses dois casos se o indivíduo agiu de acordo com a sua consciência ele é livre. No primeiro, se a consciência individual mandou obedecer a norma e ele obedeceu. E no segundo, se a consciência individual mandou desobedecer a norma e ele desobedeceu. Porém, se em algum desses casos a consciência individual não prevaleceu, a liberdade não existiu, pois liberdade é o poder do indivíduo de agir de acordo com a própria consciência.

A consciência vem antes de tudo. Vem antes da ação. Vem antes da omissão. Vem antes do comportamento, portanto, as normas se destinam à consciência do indivíduo e não à ação, à omissão ou ao comportamento do indivíduo. A consciência pode assimilar a norma e obedecê-la, não executando o comportamento. A consciência foi condicionada, a liberdade limitada e a norma obedecida. Porém, a consciência também pode assimilar a norma e não cumpri-la, praticando o comportamento. A consciência não foi condicionada, a liberdade continuou ampla e  a norma foi desobedecida.

O comando obedecer ou não obedecer sai da consciência e não da norma. A norma sugere. A consciência analisa a sugestão e decide se obedece ou não. Assim, como pode decidir não obedecer e nem desobedecer, simplesmente, omite-se. Mas tudo isso gira em torno da consciência do indivíduo.

"Um dos mais jovens cientistas que recebeu o Prêmio Nobel de Medicina, Alexis Carrel, afirma no seu livro Reflexões sobre a conduta da vida que "pouca observação e muito raciocínio conduzem ao erro. Muita observação e pouco raciocínio conduzem à verdade".

Carrel parece realmente nos dizer que somente uma paixão pela realidade concreta, com as formas com que ela se apresenta aos nossos olhos, permite vencer uma leitura dos fatos, influenciada por um juízo anterior, e permite superar, na ação, as divisões ideológicas.

Só assim o método é definido pelo objeto e não imaginado, de maneira abstrata, pelo sujeito que realiza a ação. Só assim é possível definir instrumentos adequados à realidade que estamos enfrentando."

(Promover os talentos para reduzir a pobreza - Texto Completo)

Portanto, na minha perspectiva há uma relação estreita entre liberdade e consciência do indivíduo, consciência de seus atos, de sua vontade, da ação ou omissão, etc. O indivíduo livre é aquele que tem capacidade para agir de acordo com essa consciência. Se contrariá-la, não é livre, ou seja, há liberdade onde há livre manifestação da consciência, onde a consciência se expressa, se manifesta ou possa se omitir livremente.

Por isso, a frase que diz que existem pessoas livres nas prisões e pessoas presas andando por aí, também é verdadeira, pois se o homem tem uma consciência livre na prisão, mesmo estando impedido de ir e vir, é livre. Já um homem que pode ir e vir, mas que está contrariando a sua consciência, não é livre. É o caso, por exemplo, de uma mãe que está negociando a libertação de seu filho de um cativeiro. Ela pode ir e vir, mas não é livre.

Nesse ponto entra na história um outro fator: uma consciência livre pressupõe conhecimento e informação. Assim, a consciência formada e embasada na ignorância não gera liberdade, ou seja, um indivíduo com uma falsa consciência não têm liberdade e não é livre, mesmo agindo de acordo com essa consciência. Isso porque, a sua percepção e a sua consciência normal ou natural foram alteradas ou modificadas. Uma falsa consciência gera uma falsa liberdade.

O indivíduo que não teve nenhum tipo de estudo e que vê o mundo de forma simples e ingênua é livre ou não ? A minha resposta é: depende. Se esse indivíduo está inserido em uma sociedade na qual as pessoas possuem esse mesmo nível de conhecimento e informação, ele é livre, pois a sua consciência, assim como a consciência dos demais, se fundamenta na mesma base cognitiva. As consciências ainda estão evoluindo. Certamente, essa sociedade deve estar em processo natural de evolução.

Se esse indivíduo não quis receber, de acordo com sua consciência, mais conhecimento ou informação, ele é livre, pois o homem é senhor do seu destino e pode filtrar o conhecimento e as informações que deseja receber.

Contudo, se esse indivíduo está inserido em uma sociedade na qual o conhecimento e as informações são monopolizadas e retidas e somente uma pequena minoria possui e usufrui de tais conhecimentos e informações, ou seja, o indivíduo foi impedido de acessar os conhecimentos e as informações, inibindo assim o desenvolvimento de sua consciência, mesmo agindo de acordo com ela, ele não é livre. Há aqui uma forma de dominação e controle. Ele não é livre porque a sua consciência foi impedida de evoluir, de se desenvolver.

Se o indivíduo está inserido em uma sociedade na qual o conhecimento e as informações que são transmitidos são falsos ou são manipulados, gerando falsas percepções e falsas consciências nos receptores, esse indivíduo, mesmo atuando de acordo com a sua própria consciência, também não é livre, pois sua consciência formou-se a partir de dados falsos que lhes foram fornecidos. Há aqui um outro tipo de dominação e controle.

Um homem completamente livre é aquele que faz tudo aquilo que a sua consciência manda, sem nenhum tipo de limitação, seja interior, seja exterior. Um homem semi-livre é aquele que tem parte de sua consciência uniformizada por normas e regras estabelecidas, seja o Direito, seja a moral, o dever, a ética, etc. Se há um fator que condiciona a consciência, este fator limita a sua liberdade.

As sociedades democrática são sociedades de homens semi-livres, ou seja, os cidadãos não possuem uma liberdade ampla e completa, pois são condicionados por regras e normas emanadas do Estado Democrático de Direito.

6. Uma única Consciência: a Consciência Individual

Para avançar, nesta Teoria da Consciência e Liberdade, é preciso responder à seguinte questão: quantas  consciências existem ? E  a resposta é: existe somente uma, a consciência individual. Certamente, estou falando de humanos, ou seja, entre os homens existe apenas a consciência individual.

Mas e a consciência coletiva, social e política são o quê ? São subdivisões (especializações) da consciência individual, ou seja, dentro da consciência individual existem divisões por assunto, temas, etc que formam nichos (pequenas consciências) em tais questões. Mas tudo é construído e controlado pela consciência individual que envolve todas as demais.

A conseqüência lógica disso é que as demais liberdades são subdivisões da liberdade individual, pois as demais consciências estão dentro da consciência individual. Assim, a liberdade política é uma subdivisão da liberdade individual. A liberdade coletiva é outra subdivisão. Também o é a liberdade social.

Isto pode ser perfeitamente compreendido quando lembramos que é a consciência individual que determina a formação das demais consciências. Logo, é a liberdade individual que estabelece as demais liberdades. Por exemplo, a consciência individual determina se seremos fraternos ou não, se seremos democráticos ou não, se seremos justos ou não, etc.

Portanto, primeiro vem a consciência individual e, a partir dessa consciência, construímos todas as demais. Contudo, é importante lembrar que, uma vez construída, ou aceita, as demais consciências, elas podem afetar/inibir/atingir/orientar a consciência Individual. Além disso, elas podem afetar/inibir/atingir/orientar as demais consciências.

O predomínio autoritário de uma das subdivisões da consciência individual, por exemplo a consciência política, pode uniformizar as consciências individuais na sociedade e modificar a consciência social e a consciência coletiva. Porém, foi a consciência individual que construiu esta consciência política e que levou a esta uniformização. Portanto, a mesma consciência individual possui meios para desfazer o autoritarismo.

Existe, portanto, neste sistema da consciência, uma série de interdependências e relações. Assim, determinadas questões, emitidas pela consciência individual, pode ter tido origem na subdivisão da consciência coletiva, ou talvez no campo da consciência social ou política.

O único sistema natural que existe é a consciência individual. Esta consciência vem junto com o homem. Certamente, ela não vem com a matéria-prima necessária para o seu funcionamento (informação e conhecimento), mas o sistema já está presente no homem. O resto, as demais consciência, são construções da consciência individual. São subsistemas criados pela consciência individual dentro dela mesma. Por isso, estas outras consciências, dependem da matéria-prima informação e conhecimento filtrada pela consciência individual. Por isso, estas outras consciências dependem do lugar em que nascemos, da religião que temos, da forma de governo na qual vivemos, etc...

O homem desenvolve naturalmente a sua consciência individual, basta apenas ter informações e conhecimentos. Contudo, as demais consciências não se desenvolvem naturalmente, dependem de informações e conhecimentos específicos para que se constituam, ou seja, para que se formem. Logo, as liberdades coletivas, sociais e políticas dependem de catalisadores específicos, costumes específicos, informações específicas, conhecimentos específicos.

7. Consciência Coletiva e Liberdade Coletiva

Paralelamente, à consciência individual desenvolve-se a consciência coletiva. A consciência coletiva está ligada à estrutura familiar, ao aprendizado familiar, à educação, aos valores individuais, à moral, à ética, etc. É a consciência que se desenvolve nos pequenos grupos,  na família, entre os amigos ou em numa pequena comunidade.

Neste ponto vou utilizar dados de um outro trabalho que fiz sobre a relação da família com a aprendizagem do aluno (Clique aqui para ler o trabalho).

O primeiro dado que vou transportar do trabalho citado é o caso das meninas-lobas encontradas na Índia em 1920.  Duas crianças, Amala e Kamala, foram descobertas vivendo com uma família de lobos. A primeira tinha um ano e meio e morreu um ano depois de ser descoberta. Kamala, de oito anos de idade, viveu até 1929. Porém, estas crianças não tinham nada de humano. Caminhavam de quatro, apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos, sem contar que uivavam como os lobos. Eram incapazes de permanecer em pé. Só se alimentavam de carne crua ou podre.

Kamala viveu oito anos na instituição que a acolheu, humanizando-se lentamente. Ela necessitou de seis anos para aprender a andar e pouco antes de morrer tinha um vocabulário de apenas 50 palavras. Atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos. Ela chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente às pessoas que cuidaram dela e às outras com as quais conviveu. (ARANHA E MARTINS, 1986).

O relato acima mostra a importância da família e da educação escolar no desenvolvimento humano e na construção da personalidade do indivíduo, ou seja, mostra em que medida as características humanas dependem do convívio familiar e coletivo, convívio em grupos. As duas crianças citadas não foram moldadas por um grupo familiar, sem contar que foram privadas do contato com outras pessoas. Logo, não conseguiram se humanizar: não aprenderam a se comunicar através da fala, não aprenderam a usar utensílios e instrumentos sociais, assim como não desenvolveram processos de pensamento lógico.

Por isso ,se afirma que a célula mater da humanidade e da sociedade, inicialmente, é a família e, posteriormente, a escola, uma vez que estas instituições garantem o ensino, o entrosamento e a interação social do indivíduo, protegendo-o enquanto forma a sua personalidade e preparando a sua emancipação, sem contar que garantem a unidade e a coesão dos grupos humanos.

Em outras palavras, o ser humano é um animal social dependente de suas relações e do grupo em que vive. Por isso se diz que o homem nasce potencialmente humano e é na relação com o outro que vai se humanizando, ou, na máxima de Platão: “são necessários 50 anos para se fazer um homem”.

Este processo contínuo de humanização é denominado Educação. (DAVIS e OLIVEIRA, 1990. p.16-17). É um processo de desenvolvimento da consciência, logo, de construção da liberdade.

Neste sentido, são pertinentes as considerações de Olivier Reboul (1971) sobre o papel da família na educação. Principalmente nos pontos que confronta a educação familiar com a educação escolar:

Enquanto instância protectora, a sociedade fechada que a família é desempenha um papel essencialmente conservador. Ela desconfia, como se da peste se tratasse, de toda a inovação social, de todo o não-conformismo, de toda a revolta, enfim, de todo o pensamento. Enquanto educadora, a família é por essência uma sociedade hierárquica que repudia a igualdade. Ter razão face a um irmão mais velho, ou pior ainda, face a um pai ou a uma mãe, é injuriá-los. Piaget demonstrou que a criança só aprende na família uma moral de constrangimento e de submissão a uma regra que é tanto mais sagrada quanto menos é compreendida. Protegendo e educando, a família arrisca-se sempre a fazer da criança um eterno menor. (REBOUL, 1971)

(http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/cadernos/ensinar/reboul.pdf)

E onde a consciência entra nesta história ? Primeiro vamos enquadrar a consciência individual. A família é o primeiro grande centro de formação da consciência individual. É aqui que os primeiros conhecimentos e as primeiras informações são transmitidas e fixadas no indivíduo. Os primeiros dados para funcionamento da consciência são obtidos na família.

A consciência, conforme dito anteriormente, é um sistema analítico que avalia informações e conhecimentos e emite, após esta análise, uma sentença, uma decisão. A consciência pode ser comparada a um juízo ou uma vara judicial. O juízo ou vara judicial através do processo judicial analisa provas, fatos, etc. A consciência, através de processos mentais, analisa informações e conhecimentos. Os processos mentais são conhecidos por pensamentos. Quando pensamos estamos analisando informações e conhecimentos.

Portanto, a família é o primeiro grande centro fornecedor de informações e conhecimentos para a consciência individual. Contudo, simultaneamente, ao desenvolvimento da consciência individual, desenvolve-se a consciência coletiva com regras para convivência dentro da família, com o grupos de parentes próximos, de amigos, etc. Estas regras são fixadas na consciência coletiva que é um subsistema da consciência individual. Certamente, as regras da consciência coletiva passam pelo crivo da consciência individual e, uma vez aceita, podem modificar o formato ou a percepção da consciência individual.

Resumindo, a consciência coletiva trata da convivência em grupo, com a  família, com os amigos, com a comunidade próxima. Estas regras se desenvolvem, ou seja, são introjetadas no indivíduo pela família ou pela educação escolar inicial. E a formação desta consciência implica na humanização do indivíduo, na sua inserção no grupo humano. O afastamento do indivíduo da vida em grupo, nos primeiros anos de vida, inibe o desenvolvimento da consciência, tanto da individual, quanto da coletiva, logo, torna o indivíduo parecido com um animal irracional, pois é um ser desprovido de informações e conhecimentos e sem esta matéria-prima os processos mentais (pensamentos) não funcionam, a consciência não funciona. É o que diz o caso de Amala e kamala.

Neste contexto, percebe-se que há uma íntima ligação entre o desenvolvimento humano, o desenvolvimento da consciência e a educação, assim como há uma sensível relação de interdependência entre o meio familiar, a escola e a consciência. A relação entre estas estruturas é realizada pela informação e pelo conhecimento. A família e a escola são centro de produção de informação e conhecimentos que alimentam o desenvolvimento da consciência do indivíduo.

Logo, quaisquer deformações que ocorram na educação familiar ou na educação escolar, refletirão, certamente, no plano da consciência do indivíduo, seja no uso da educação como doutrinação, seja no fornecimento de dados errados ou deficientes. Em outras palavras, a família e a escola são pontos de apoio e sustentação do homem, são marcos de referência existencial e de humanização. Quanto melhor for a parceria entre ambas, mais positivos e significativos serão os impactos na personalidade do sujeito, pois a vida familiar e a vida escolar são simultâneas e complementares.

O modelo atual de interação entre a família e a escola surgiu com o advento da Modernidade. Isso não quer dizer que antes não existia essa relação, existia, porém acontecia de modo diferente e com outros parâmetros.

Comparando o modelo antigo com o atual percebe-se que este último sofreu uma retração considerável. Em termos de volume, foi restringida ao casal e aos filhos menores. Foi também restringida nas suas funções: ela não é hoje senão uma comunidade de habitação e de consumo. Também a autoridade dos pais diminuiu, em especial a do pai sobre os descendentes. Esta autoridade foi limitada, não apenas pelo Estado, mas também pelos costumes e pelas crenças. Os pais já não podem decidir sobre o casamento ou a profissão dos filhos. Tem-se mesmo a impressão de que os pais já não podem decidir sobre nada. Ainda assim, a família mantém as duas funções principais relativamente aos jovens: protegê-los (alimentá-los, vesti-los, cuidar deles, etc.) e educá-los. (REBOUL, 1971)

(http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/cadernos/ensinar/reboul.pdf)

Contudo, é importante diferenciar aqui o tipo de informação e conhecimento que emanam da família e da escola, ou seja,  educação familiar é distinta da escolar. Na família “educar significa atingir o indivíduo em profundidade, na camada ante-intelectual do seu ser, dos seus hábitos, emoções e afeições primárias. É a esta camada que se dirige a educação em sentido próprio, antes de toda a instrução.” (REBOUL, 1971).

Portanto, a educação familiar consiste em formar, por intermédio de bons hábitos, os sentimentos mais primitivos, “o prazer, a afeição, a dor, o ódio”. Já a escola tem por finalidade educar para os saberes diversos e especializados, por meio da apresentação e sistematização de conhecimento acumulado pela humanidade ao longo de sua história, diferente, portanto, da educação realizada pela família.

Para a escola, a família foi e é, o lugar de construção de moralidade, base indispensável para a garantia do projeto moralizador e civilizacional representado pela escola. De seu lado, a família fez da escola, sobretudo na etapa que antecedeu a massificação do processo institucional, uma instituição a serviço da monopolização do capital cultural nas mãos de uma elite econômica reproduzindo, no plano educativo, as desigualdades do campo social. Assistimos hoje, porém, a uma reviravolta neste cenário decorrente da crise dos modelos forjados pela modernidade. (REBOUL, 1971).

Portanto, a consciência coletiva envolve as regras de convivência em grupo e é gerada pela educação familiar, escolar e de demais grupos, por exemplo amigos. Esta consciência coletiva é um subsistema dentro da consciência individual. E esta consciência coletiva gera a liberdade coletiva, uma vez que há uma uniformidade nas regras aceitas pela família, pela escola, pelos grupos de amizades, etc. Estas regras são uniformes para todos os indivíduos. Logo, padronizam a consciência formando a liberdade coletiva.

Durkhein - Consciência Coletiva

8. Consciência Social e Liberdade Social

A consciência social é parecida com a consciência coletiva, porém aqui o grupo é amplo, envolvendo, por exemplo, todo um município, todo um Estado ou um país. A consciência aqui surge como uma espécie de nacionalismo e as normas e regras comuns a este grupo amplo são genéricas, valem para todo o município, para todo o Estado ou país.

Além disso, os membros desse grupo amplo não se conhecem, não há, entre eles, vínculo familiar ou de amizade. Há apenas uma espécie de nacionalismo.

As normas e regras comuns a esta população condicionam suas consciências, obrigando-os a emitirem uma mesma vontade em determinados casos. Regras uniformes oriundas de fora do organismo, forma uma única consciência. A norma, aprovada livremente pelas consciências individuais ou legitimadas por estas consciências, firma um único modelo de consciência. Uma consciência que é igual para toda aquela população. Logo, os indivíduos daquele Estado ou território, que estão sujeito àquelas normas, possuem esta mesma consciência: uma consciência social.

Resumidamente, podemos dizer que a consciência social é uma generalização, uma ampliação, da consciência coletiva. Enquanto a consciência coletiva estrutura e mantém um grupo pequeno e próximo ao indivíduo, a consciência social estrutura e mantém um grupo amplo, uma coletividade, uma sociedade. Na consciência coletiva os membros do grupo são conhecidos, pois estão próximos. Nesta consciência social os membros do grupo são, em sua maioria, desconhecidos um dos outros.

Portanto, a consciência social é uma consciência formada por normas e regras estabelecidas sobre uma população. O exemplo mais típico aqui são as normas de do ordenamento jurídico. As normas do direito, seja escrito ou costumeiro. O commom law e ou o civil law formam uma consciência que paira sobre a sociedade: uma consciência social. Contudo, não é apenas as regras do direito que integram esta consciência, outras normas, regras e valores também a compõem.

Esta consciência uniforme emite ordens que deve ser cumpridas. O poder de cumprir estas ordens é a liberdade social. Liberdade oriunda da consciência social. É uma liberdade limitada e uniforme na sociedade. É uma consciência imposta pela norma. Logo, a vontade gerada é imposta, assim como a liberdade. E o exemplo claro disso é o fato de que se o indivíduo não exerce esta liberdade, se ele não cumpre a vontade da norma, o Estado entra em ação e exerce o poder de agir de acordo com a própria consciência (liberdade social) como se fosse o próprio dono da consciência, o indivíduo.

Aqui fica evidente que a consciência social, logo a liberdade social, está dentro da consciência individual, logo, dentro da liberdade individual, pois a consciência individual pode mandar o indivíduo ignorar a ordem da consciência social e executar outra ordem. Neste caso, somente uma ação externa pode compelir o indivíduo a agir de acordo com a forma sugerida. Esta ação externa é a coerção física.

Portanto, a coerção é uma forma de compelir a consciência individual a se dobrar a uma ordem da consciência social. Mas a consciência social, não está acima da consciência individual, ela está dentro. Contudo, esta construção da consciência social foi feita de acordo, sob supervisão e nos termos dados, pelas consciências individuais, ou seja, as consciências individuais aceitaram introjetar em si e cumprir, em nome da paz e da harmonia social, algumas normas comuns necessárias para o convívio em sociedade.  Esta aceitação não é perpétua e nem eterna, não é natural e nem imutável. Além disso, cada consciência social vê esta aceitação de uma forma e exercem a liberdade social distintamente.

Uma consciência social, criada por normas uniformes, pelo direito, gera um tipo específico de liberdade: a liberdade social.

Todas as pessoas que vivem em sociedade possuem este tipo de liberdade, pois estão embaixo das mesmas normas de direito. Normas de direito que constituem a consciência social.

Percebam que não são sistemas separados. Tudo está relacionado. São sistemas interdependentes.

9. Consciência Política e Liberdade Política

(...)

10. Corolários da Teoria da Consciência e Liberdade

A norma se destina à consciência e não á ação do indivíduo. A consciência recebe a norma, analisa-a e decide se cumpre ou não. Logo, antes da norma existe a consciência e a consciência pode ser moldada de forma a não obedecer determinadas normas, a recebê-la, analisá-la e rejeitá-la, ou seja, a consciência pode ser pré-formada para não cumprir futuras normas, ou então, pelo contrário, mesmo sendo uma norma criminosa e violenta, mesmo sendo uma norma de extermínio, se a consciência foi trabalhada e preparada antes, não haverá questionamentos, não haverá rejeições. A norma, mesmo sendo criminosa, será cumprida a risca.

O que eu estou dizendo é que a manipulação das consciências pode afetar e determinar, ou não, o cumprimento de normas jurídicas, normas morais, normas éticas, etc. Isso pode ser feito pela mídia, pela propaganda, pela moda, pelo costume, etc. Portanto, antes da norma vem a consciência e a norma (o dever-ser) se destina à consciência. Uma consciência pré-formada e treinada pode refutar, ou aceitar, a norma produzida.

A teoria da Consciência e Liberdade diz ainda que a luta pela liberdade é uma luta para expressar a consciência. A manifestação da liberdade é a manifestação da consciência. Respeitar a liberdade do outro é respeitar a consciência do outro. Não há liberdade onde não há consciência. E onde há uma consciência se desenvolvendo, ali existe uma liberdade florescendo.

Diz mais: diz que a informação e o conhecimento são as bases da consciência. Logo, as bases da liberdade. Portanto, interferências na informação e no conhecimento, introjetados em um indivíduo, afetam a consciência e, por derivação, afetam a liberdade desse indivíduo.

(...)

9. Considerações Finais

(...)

Elementos que devem ser explicados

1- Pensadores: Durkheim, Isaiah Berlin, Benjamin Constant...

2- Liberdade na Internet;

3- Liberdade política;

4- Requisitos de N. Hartmann;

5- Liberdade coletiva;

6- Reflexo desta idéia no Direito;

7- Liberdade positiva:

8- Liberdade negativa.

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Esta constatação é muito importante e será detalhada em um ponto específico do trabalho, pois as normas democráticas serão aceitas e cumpridas se existir uma consciência democrática nos indivíduos. As normas de direitos humanos serão aceitas e cumpridas se existir uma consciência de direitos humanos em cada pessoa. A República será uma República se existir uma consciência republicana. A consciência vem antes da norma e determina se ela será aplicada e cumprida ou não.

O uso da força é uma das formas de se coagir uma mente rebelde a se adequar à norma. Contudo, se existir uma pré-formatação social anterior, para que a norma seja rejeitada, o uso da força é aniquilado. É o caso, por exemplo, das violações de direitos humanos de integrantes das periferias ou de bandidos. Há uma "consciência coletiva" que rejeita, na prática, a aplicação de norma de direitos humanos para bandidos. Assim, atrocidades e violações gravíssimas são praticadas contra estas pessoas e tudo é visto com naturalidade. Por exemplo, massacres e tratamentos desumanos em presídios, e nada acontece contra os infratores. Extermínio e assassinatos a queima roupa (execução) e nada acontece com os responsáveis. As normas são violadas e descumpridas às escâncaras, porém a consciência que vem antes da norma, aceita tudo isso naturalmente.

E não adianta reclamar. Lembra do caso do Juiz que mandou soltar os presos devido à superlotação na cadeia ? O Juiz estava cumprindo a lei e a constituição. Contudo, o Tribunal mineiro não apenas reformou a decisão do Juiz como o puniu por ter cumprido a lei e a constituição. A consciência dos desembargadores mineiros está pré-formatada para inibir o cumprimento de normas de direitos humanos quando destinadas a bandidos, mesmo estando estes sob a tutela do Estado e cumprindo penas pelos crimes que cometeram.

As normas de direitos humanos se aplicam a todos os humanos e não apenas aos humanos escolhidos. Contudo, se não há uma consciência de direitos humanos em cada pessoa, a aplicação dessas normas podem ser rejeitadas e inibidas. Antes da norma e do Direito vem a consciência. Antes do Estado Democrático de Direito vem a consciência do cidadão dessas instituições. Esta consciência tem que ser construída para que as normas sejam fortalecidas, aplicadas e cumpridas. Instituições sólidas dependem de uma consciência sólida, de uma fé inquebrantável, em tais instituições.

Liberdade e escravidão nos sistemas totalitários

Acho que está na hora de usar a navalha de Occam para cortar os excessos.

A navalha de Occam diz que se você tem várias explicações (hipóteses) para um fenômeno, a mais simples é a verdadeira.

Agora vamos à razão de eu ter dito isto. Vamos aos regimes totalitários. Vamos olhar para a mídia e a propaganda desses regimes. O que vemos ? Vemos uma máquina dominadora e assimiladora de consciências. A consciência do povo alemão emanava dessa máquina e o que ela dizia, mesmo contrariando a realidade, era aceita como verdade absoluta e suas determinações eram inquestionáveis e cumpridas a risca. A mídia e a propaganda nazista expressavam a vontade e a voz do Führer.

O documentário “Arquitetura da Destruição”, de Peter Cohen, começa contando que em uma aldeia alemã, nos anos 30, o povo tinha um conceito próprio do que era Nacional-Socialismo. Eles achavam que o Nazismo tinha ligação com a pureza. E que sua característica era a rejeição sexual. E quando as mulheres idosas falavam sobre essa rigidez, balançavam a cabeça e diziam: ''Esse Nacional-Socialismo é extremo. Só um professor sabe lidar com ele, ou talvez o barbeiro. '' Embora os aldeões tivessem sua concepção sobre o Nazismo, nunca mencionaram algo importante. O sonho nazista era criar, através da pureza e do sacrifício, um mundo mais harmonioso.

Além disso, assinala o documentário, o Nazismo alertava sobre um mundo prestes a ruir, que ameaçava mergulhar a Terra na escuridão eterna. E eles, os nazistas, diziam conhecer a origem da ameaça e se responsabilizaram por erradicá-la. Purificada e preservada da decadência, uma nova Alemanha surgiria, mais forte e muito mais bonita.

Estes fatos, citados logo no início do documentário, mostram a ponta do iceberg de camuflagens criado e utilizado pelos nazistas para encobrir e esconder o sistema e a escravidão totalitária. Uma camuflagem que ludibriava e conduzia pacificamente o povo alemão para um mundo de horror e guerras. Mais do que isso, mentiras que convenceram pessoas comuns a se transformarem nos piores carrascos da História Humana.

As intenções totalitárias eram cobertas com tinta, óleo, mídia e propaganda. Falavam de pureza, sacrifício, purificação e preservação da decadência, mas suas ações eram de destruição, ódio e guerras. A mídia e a propaganda vendiam um futuro incerto, sonhos vagos e a força da união, convencendo e induzindo as pessoas a aderirem ao movimento, a integrarem os batalhões de soldados e a seguirem a marcha.

As mentiras da mídia e da propaganda construíam e disseminavam a consciência do sistema totalitário. Uma consciência que era assimilada e apropriada pelas pessoas como sendo a sua própria consciência, a sua própria vontade, a sua voz interior. Quanto mais pessoas acreditavam nas mentiras, mais força o sistema totalitário adquiria, pois mais consciências e vontades estavam à sua disposição.

Assim, as ordens do Führer eram cumpridas a risca e sem questionamentos. A vontade do Führer era a vontade dos nazistas. A consciência do Führer era a consciência dos nazistas. Isto é mostrado cristalinamente em uma passagem da obra de Hannah Arendt “Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal”.

A passagem está nas páginas 152 e 153 e conta que Eichmann, durante o seu interrogatório, narrou que tinha vivido toda a sua vida de acordo com os princípios morais de Kant e, particularmente, segundo a definição kantiana do dever. Não acreditando nisso, o Juiz Raveh insistiu na história e Eichmann, para a surpresa de todos, deu uma definição quase correta do imperativo categórico kantiano: “O que eu quis dizer com minha menção a Kant foi que o princípio de minha vontade deve ser sempre tal que possa se transformar no princípio de leis gerais”. O que não é o caso com roubo e assassinato, por exemplo, porque não é concebível que o ladrão e o assassino desejem viver num sistema legal que dê a outros o direito de roubá-los ou matá-los, assinala Arendt. (p. 153).

Contudo, a maior evidência de que o sistema totalitário assimila a consciência das pessoas, toma conta de suas vontades e ações, utilizando-as como instrumento de seus desígnios aparecem no momento seguinte, quando Eichmann conta que lera a Crítica da razão pura, de Kant. E explica que, a partir do momento em que fora encarregado de efetivar a Solução Final, “deixara de viver segundos os princípios kantianos”, que sabia disso e que se consolava com a idéia de que não era mais “senhor de seus próprios atos”, de que era incapaz de “mudar qualquer coisa”. (p. 153).

Com isso Eichmann confessa que ele era um possuído pelo sistema totalitário nazista. Era uma pessoa sem consciência e sem voz que era dirigida pelo sistema, pela vontade do sistema, pelo interesse do sistema. Sistema que se materializava para ele na figura do Führer, na voz do Führer, na vontade do Führer.

Inclusive, na seqüência do texto, Hannah Arendt assinala que Eichmann não contara para a Corte que “nesse período de crime legalizado pelo Estado”, como ele mesmo disse, descartara a fórmula kantiana como algo não mais aplicável. Ele distorcera seu teor para: aja como se o princípio de suas ações fosse o mesmo do legislador ou da legislação local – ou, na formulação de Hans Frank para o “imperativo categórico do Terceiro Reich”, que Eichmann deve ter conhecido: “Aja de tal modo que o Führer, se souber de sua atitude, a aprove”.

(...)

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Como essa Teoria explica as características de Eichmann ?

As características de Eichmann, descritas por Hannah Arendt no livro Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, mostram, claramente, um indivíduo que foi assimilado pelo sistema totalitário, tornando-se uma engrenagem dessa máquina maléfica.

O que Hannah Arendt viu em Jerusalém foi uma engrenagem do sistema totalitário fora do sistema totalitário. Uma engrenagem que funcionava perfeitamente dentro do Sistema Totalitário, mas que fora dele não servia para nada. Eichmann era uma peça do sistema nazista fora do sistema nazista.

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A Teoria da Consciência e Liberdade é a base para a compreensão do totalitarismo, incluindo os papéis exercidos pela mídia e pela propaganda na construção e manutenção do sistema totalitário, domínio da consciência e dissolução da liberdade natural do indivíduos.

A teoria da Consciência e Liberdade diz que a luta pela liberdade é uma luta para expressar a consciência. A manifestação da liberdade é a manifestação da consciência. Respeitar a liberdade do outro é respeitar a consciência do outro. Não há liberdade onde não há consciência. E onde há uma consciência se desenvolvendo, ali existe uma liberdade florescendo.

Diz mais: diz que a informação e o conhecimento são as bases da consciência. Logo, as bases da liberdade. Portanto, interferências na informação e no conhecimento, introjetados em um indivíduo, afetam a consciência e, por derivação, afetam a liberdade desse indivíduo.

Relações em análise neste trabalho:

1--Consciência x Pensamento x Liberdade, Vontade x Liberdade;

2--(Informação + conhecimento) x Consciência;

3--Consciência x Vazio de Pensamento;

4--(Informação + conhecimento) x Vazio de Pensamento;

5--Consciência x Banalidade do Mal;

6--(Informação + conhecimento) x Banalidade do Mal;

7--Vazio de Pensamento x Banalidade do Mal...

8--Diferenciar a Liberdade de Livre-Arbítrio...

9--Consciência, Liberdade e Direito Natural...

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O sistema totalitário aplicava o método de produção capitalista no extermínio de seres humanos. Era um sistema industrial de fabricação da morte e de extermínio dos inimigos ou das pessoas indesejadas pelo sistema. Contudo, o sistema totalitário não se resume a isso. As fábricas da morte era apenas uma das indústria que compõe o sistema. Há várias outras fábricas produzindo outros produtos totalitários...

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Eu tenho idéias esquisitas. Penso, vejo e sinto milhares de coisas e relações, mas nem tudo o que penso, vejo ou sinto consigo expressar ou dizer, pois, muitas vezes, não consigo entender o que estou vendo, sentindo ou pensando. Outras vezes as coisas se mostram tão lógicas e coerentes que penso que li aquilo em alguma parte e que meu cérebro está apenas recuperando informações. Penso isso porque sou um leitor fanático de enciclopédias. Faço isso desde a quinta série. Logo, devo ter internalizado muita coisa e nem sempre consigo separar o que é coisa nova daquilo que li em alguma parte. É o caso, por exemplo, da liberdade.